“Importância do gato na meditação”

Costumo não dar atenção aos escritos do Paulo Coelho. Puro preconceito, talvez…mas quando li o título desse texto, publicado no jornal A Gazeta, domingo passado, imediatamente minhas orelhinhas ficaram em pé e a curiosidade felina falou mais alto.
Leitura gostosa, como carinho na barriguinha de gato.
Folga

Importancia do gato na meditação

by PAULO COELHO on JANUARY 21, 2010

Paulo Coelho

Tendo recentemente escrito um livro sobre a loucura ( Veronika decide morrer) , vi-me obrigado a perguntar o quanto das coisas que fazemos nos foi imposta por necessidade, ou por absurdo. Por que usamos gravata? Por que o relógio gira no “sentido horário”? Se vivemos num sistema decimal, porque o dia tem 24 horas de 60 minutos cada?
O fato é que, muitas da regras que obedecemos hoje em dia não tem nenhum fundamento. Mesmo assim, se desejemos agir diferente, somos considerados “loucos” ou “imaturos”.
Enquanto isso, a sociedade vai criando alguns sistemas que, no decorrer do tempo, perdem a razão de ser, mas continuam impondo suas regras. Uma interessante história japonesa ilustra o que quero dizer:

Um grande mestre zen budista, responsavel pelo mosteiro de Mayu Kagi, tinha um gato, que era sua verdadeira paixão na vida. Assim, , durante as aulas de meditação, mantinha o gato ao seu lado – para desfrutar o mais possível de sua companhia.
Certa manhã, o mestre – que já estava bastante velho – apareceu morto. O discípulo mais graduado ocupou seu lugar.
– O que vamos fazer com o gato? – perguntaram os outros monges.
Numa homenagem à lembrança de seu antigo instrutor, o novo mestre decidiu permitir que o gato continuasse frequentando as aulas de zen-budismo.
Alguns discípulos de mosteiros vizinhos, que viajavam muito pela região, descobriram que, num dos mais afamados templos do local, um gato participava das meditações. A história começou a correr.

Muitos anos se passaram. O gato morreu, mas os alunos do mosteiro estavam tão acostumados com a sua presença, que arranjaram outro gato. Enquanto isso, os outros templos começaram a introduzir gatos em suas meditações: acreditavam que o gato era o verdadeiro responsavel pela fama e a qualidade do ensino de Mayu Kagi, e esqueciam-se que o antigo mestre era um excelente instrutor

Uma geração se passou, e começaram a surgir tratados técnicos sobre a importancia do gato na meditação zen. Um professor universitário desenvolveu uma tese – aceita pela comunidade acadêmica – que o felino tinha capacidade de aumentar a concentração humana, e eliminar as energias negativas.
E assim, durante um século, o gato foi considerado como parte essencial no estudo do zen-budismo naquela região.

Até que apareceu um mestre que tinha alergia a pelos de animais domésticos, e resolveu tirar o gato de suas práticas diárias com os alunos.
Houve uma grande reação negativa – mas o mestre insistiu. Como era um excelente instrutor, os alunos continuavam com o mesmo rendimento escolar, apesar da ausencia do gato.
Pouco a pouco, os mosteiros – sempre em busca de idéias novas, e já cansados de ter que alimentar tantos gatos – foram eliminando os animais das aulas. Em vinte anos, começaram a surgir novas teses revolucionárias – com titulos convincentes como “A importancia da meditação sem o gato”, ou “Equilibrando o universo zen apenas pelo poder da mente, sem a ajuda de animais”.

Mais um século se passou, e o gato saiu por completo do ritual de meditação zen naquela região. Mas foram precisos duzentos anos para que tudo voltasse ao normal – já que ninguém se perguntou, durante todo este tempo, por que o gato estava ali.


trecho do meu livro “Ser como um rio que flui”

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Invasão de privacidade(?)

Há cerca de 2 anos escrevi um texto, aqui no blog, metendo-me à política e comentando “A vida dos outros“. Não se trata de fofoca: esse foi um filme alemão lançado em 2006, que levou o Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro”, no ano seguinte.

Em tempos onde o tempo parece não andar, mas correr, 2006 parece uma data longínqua, já esquecida no passado. Porém, o tema abordado no filme é mais atual que à época de seu lançamento. Muito resumidamente trata-se, de: “invasão de privacidade” e no quanto podemos e, se devemos, interferir na “vida dos outros”.

O que me leva a questionar: o que seria “privacidade”, hoje em dia?…
( Ainda cética acabo de ler uma “notícia”, no mínimo escatológica: Ke$ha posta uma foto dela no Twitter, fazendo xixi na rua!! O mais incrível é que a rapper americana tem mais de 3 milhões de seguidores, dispostos à bizarrices como essa!…)

Não sou uma especialista no assunto, mas interpreto essas atitudes( também, o cultivo de excentricidades e comportamento autodestrutivo) como um mecanismo de defesa: parece ser um paradoxo mas, quanto mais me exponho, mais invulnerável e intocável me torno! Adquiro os superpoderes de um ser “superior”, quase uma figura mítica.

Então o BBB tornou-se opção de programa-família e, falar da vida própria, e a dos outros nas redes sociais, rotina!

Demóstenes Torres, que o diga: “essa invasão é uma m…”
Ao menos tem servido para expor as entranhas fedorentas dos bastidores da política nacional! ( Anotem aí, minha dica de acessório “must” para a nova eleição: prendedor de roupa no nariz! Garanta logo o seu!)

Essa semana cheguei a um templo da vaidade feminina, o salão de beleza: e esse é um ambiente onde a perturbação “metafísica” mais desconfortável seria decidir, se a nova cor do cabelo combinaria com o seu tom de pele, se a atriz, ou grã-fina revelada em Caras exagerou, ou não, no botox e/ou nas cirurgias plásticas…mas era exatamente a hora em que a TV exibia um daqueles programas “jornalísticos”, especializados em mostrar o “mundo Ke$ha”(ops!), quer dizer: o “mundo cão”.

A “matéria” mostrava um video caseiro, flagrando um pai espancando a filha pequena.
E quando falo “espancar”, não estou dizendo: “tapinha no bumbum”! Estou dizendo: espancando, repetidas vezes e, com toda a fúria, uma criança indefesa!

Percebendo meu mal estar, imediatamente a atendente trocou de canal. Tarde demais. Estrago feito.
Lembrei do vídeo da mulher, maltratando o cachorrinho até à morte( que fiz questão de não ver!).
Lembrei da parábola do “bom samaritano”( daqueles, que passaram ao largo do homem caído e machucado)…
Lembrei do caso dos 5 jovens de Brasília, que atearam fogo no índio Galdino José dos Santos, em 1997…(Se é que mão tem boca podemos dizer que, caladas, coniventes, nenhuma daquelas 10 fez o que era necessário, àquela noite: “Não! Peraí! Não podemos fazer isso!”… 5 jovens, 10 mãos inertes, incapazes de se pronunciar a favor, contra…)

Mas, alguém aí filmou tudo isso?…
Apenas mais um detalhe.

O que realmente incomoda é me colocar no papel daquele que parou para gravar a cena, mas não acudiu, não impediu o ato!
Chego a refazer o passo a passo:
Percebeu, que algo de errado acontecia.
Correu, pegou a máquina, ou celular.
Ligou.
Fez  “zoom”.
Focou.
Ficou ali estático, vários segundos gravando já que, chacoalhar a câmera comprometeria o resultado final de seu “trabalho”.

E a vítima, enquanto isso?…
Se alguém ao menos pudesse testemunhar seu sofrimento e, ajudar…

Não discuto, que uma gravação como essa é prova inegável de culpa. Graças ao video aquele pai foi preso em flagrante, mas a criança não foi liberta antes de suas mãos insanas, porque outra não se levantou para impedir tamanho mal.

Millôr, totalmente avesso à exposição da sua figura em público, escreveu( na era pré-internet):
“Descobri afinal o que significa a sigla TV: Terror Visual.”

Mas, como cantaria Roger Waters, ou Fred Mercury:
“The show must go on”…

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