Antes que as luzes se apaguem…

Quer um plano simples, para o novo ano:
Tire um tempo pra você.
Pode até não ser um ano sabático. Podem não ser meses, dias, mas devem ser horas, minutos dedicados a fazer algo que fuja à sua rotina e que, realmente goste. Ou, que aprenda a gostar: um sabor a experimentar, um tipo de música que não está acostumado a ouvir, um caminho nunca percorrido, um novo penteado, ou roupa( por que não, lingerie?…), alguém com quem ainda não conversou, talvez, a hora de começar a praticar algum esporte…
Hoje eu me dei esse tempo, umas horas sabáticas. Com a licença da família viajei pra cumprir um sonho antigo: correr a prova mais tradicional do país. As experiências que vêm, como bônus, depende do quanto a gente se dispõe.
Acordei, na hora que o corpo achou que devia. Não contei calorias, no café da manhã, aliás, tomei café! Andei, sem rumo e sem contar o tempo, pela avenida mais famosa de São Paulo. Entrei numa grande livraria e, mais olhei, ouvi do que comprei. Comi num lugar, que nem sei o nome, refeição completa, digna de rainha: entrada de salada de folhas verdes salpicada de gergelim e granola salgada, cheeseburguer em bagel integral com linhaça e a sobremesa…Ah, a sobremesa!: Delicioso bolo de maçã que derretia na boca, de tão macio, com calda quente de açúcar mascavo e uma bola de sorvete de canela…Depois assisti a um filme. Nada digestivo mas, encantador!
Não precisei rodar o mundo. Encontrei tantos prazeres, a poucas quadras de distância um do outro. Foi uma questão de, caminhar e aproveitar as chances.
Prestenção, em 2014!
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A gente continua por aqui. ( E, no Facebook! Pode me procurar, que lá me encontra!)

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“O dente mole de todos nós”

A gente se apega a tanta coisa que considera importante, indispensável, só por medo de  mudar.
Silmara Franco* tirou as palavras da minha boca. Fiquei sem, mas às vezes é preciso calar e pensar…

O dente mole de todos nós

Nina passou semanas com um dente-de-leite mole. Preso apenas por um fiapo, num cai-não-cai de dar aflição. Mas ela se recusava a deixá-lo ir. Não permitia que ninguém chegasse perto do dente moribundo. Enfrentou situações complicadas. O dente mole a atrapalhava para mastigar, beber, tomar sorvete, falar. Sem abrir mão dele, seu lema parecia ser: “Mais vale um dente velho, mole e conhecido que uma “janelinha” aberta para o (dente) novo e desconhecido.

Eu, encarnando a mãe-dentista, tentava persuadi-la, “Não vai doer nada”, “Vou bem devagar”. Nem. Ela travava os lábios, fazendo a guarda do dente frouxo.

Vaidade? Talvez. A Barbie nunca ficou banguela na vida.

Medo? Sim. De um possível sofrimento, de uma eventual dor. Medo do novo, enfim. Ou nem tanto, posto que não era o primeiro dente a cair. Mas o medo velhaco, às vezes, se traveste de novidade. Só para assustar quem não arrisca. Buuu.

***

Todo mundo tem um “dente mole” na vida. Ou mais de um. Vai dizer que não? Aquele incômodo – físico, mental, material – com o qual se aprendeu, ou se acostumou, a conviver. Aquele, tão de casa. Aquele, que passou da hora de ser resolvido. Aquele, que nem precisava mais estar ali, mas está. Aquele, que simplesmente vai ficando.

O MBA medíocre e sem sentido. O trabalho tedioso e o chefe massacrante. O namorado ogro e babaca. O apartamento mal iluminado e estreito, onde não cabe nem um sonho. A rede social viciante, sugadora de tempo e energia. A operadora de celular que age de má fé e a loja que atende mal. O excesso de peso e a falta de dinheiro. A dor nas costas, a enxaqueca, a alergia.

Tem pessoas que, tão logo a coisa fique antiga ou desconfortável, como um simbólico dente que começa a amolecer e implorar pelo caminho natural da renovação, o extraem, sem dó, nem piedade. Livram-se num piscar de olhos, sem dramas, sem delongas, sem chorumela. Xô!

E tem as que mantêm seus “dentes moles” ad aeternum. Numa espécie de validação do hábito, de apego à rotina, de receio do que vem depois. Ainda que seja um estorvo.

***

Acabou que o dente da Nina se foi. Estavam unidos por um breve fio de pensamento. Ela deixou, enfim, que eu o tocasse. O suficiente para que o pedaço de osso sem vida, ploc!, saísse na minha mão. Ela abriu um olhão deste tamanho, aliviada. Ela, que já tem outras janelinhas, agora exibe um sorriso-varanda.

***

Anda. Arranca você também o seu “dente mole”. Quem sabe a Fada, não a do Dente, mas a da Atitude, passe pela sua casa à noite e deixe um presente sob seu travesseiro.

( *Silmara Franco é paulistana, publicitária e escritora, autora do Fio da Meada.)

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Brunch para Vinícius

Escrevo este blog há quase 5 anos. Nesse período, muita coisa mudou( outras, nem tanto): a casa, os gatos que passaram por ela, o corpo, a família…
Pra quem me acompanha há mais tempo, a história já é sabida. Pra quem não, entenderá melhor este post se, antes, ler um outro: “De mãe pra filho“.
Resumindo: tenho três filhos, quase todos, de barba na cara. Pra quem não acredita, olha os “meninos”, aí:
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A verdade incontestável da vida: os filhos crescem. E, se vão…
Conosco, apenas o mais novo, que acabou de completar 14 anos. O mais velho faz faculdade, na capital, e o do meio resolveu ir pra mais longe, bem longe…O tempo não para: são quase 2 anos…
Há uma semana ele voltou, para uma visita rápida. E, como não poderia deixar de ser, a gente quer mimá-los, de todas as formas!
A avó materna não pôde vir ao seu encontro. Mandou, lá de Belém, delícias regionais, que ele tanto gosta.
No seu último sábado no Brasil saboreou frango com jambu, no tucupi e, de sobremesa, açaí.

“Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.
Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo ‘Parece a torta de legumes da mamãe’ ou ‘É igual ao creme de abóbora que ela fazia’?
No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?”

Foi o que a Silmara Franco escreveu, no último post.
Concordo com ela! Trago algumas recordações gustativas e olfativas da infância, como um pão de canela que minha mãe costumava fazer.
Acredito piamente que, cozinhar é uma forma de acarinhar. Uma das formas. Cada um tem a sua…
Um bom compositor faz música, eu, embora não me considere tão boa cozinheira, comida. É a minha sonata, para olhos e paladar.

Então, antes mesmo dele chegar, decidi por uma despedida em volta da mesa, junto com alguns amigos. E foi, assim:
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Depois de uma semana de tempo fechado, chuvoso e frio a manhã de domingo estreou, com um belo dia de Sol: perfeito, pra montar a mesa no quintal!
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As opções salgadas do cardápio: sanduíche, no pão integral, de atum e pepino*, quiches( tomate seco/cogumelos frescos), cuscuz marroquino, focaccia integral com tapenade de azeitonas, receita do Panelinha.
*Para o recheio do sanduíche piquei pepino japonês em cubinhos bem pequenos, acrescentei um pouco de sal e deixei escorrer numa peneira. Depois, sequei o excesso de água em papel toalha e acrescentei ao recheio de creme de ricota e atum. Acertei o sal e a pimenta. Os pedacinhos de pepino dão uma textura crocante ao creme.
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Opções doces: torta de ricota( com geleia de morango e geleia de goiaba), bolo gelado de abacaxi, bolo de mamão e aveia, biscoitinhos de nata.
As bebidas servidas foram suco e chocolate quente.
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Flores na mesa, colchas no varal, mix de louças: se você gosta de cores, não há contraindicações!
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Como ele viajaria à tarde, a ideia do brunch foi a mais viável: um café da manhã mais tarde, com cara de almoço.
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O importante era deixar todos à vontade.
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E teve música especial, de despedida…
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E um breve momento de reflexão, dirigido pelo nosso pastor:
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Ficar longe até que não é tão difícil, hoje em dia. Difícil, mesmo, é dizer “auf wiedersehen”!

“Dê a quem você Ama :
– Asas para voar…
– Raízes para voltar…
– Motivos para ficar… ”
(Dalai Lama)

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“O tempero da minha mãe”

Admiro muito a Silmara Franco! A mulher, cronista, escritora, mãe, amante dos animais e amiga virtual( que tive o privilégio de conhecer pessoalmente, um tempo atrás)!
Esta crônica, que ela escreveu há pouco, é apenas um preâmbulo para o post seguinte:

O tempero da minha mãe
Silmara Franco

Junte cebola, alho, cheiro verde, óleo e sal. Ponha tudo no liquidificador e bata bem. Despeje a mistura em vidros vazios, tampe e leve à geladeira. Use para refogar qualquer coisa. Em cinco ingredientes, eis a receita das minhas lembranças. Rendimento: uma infância inteira.

Dona Angelina preparava o próprio tempero. Para economizar tempo e dinheiro – talvez mais dinheiro que tempo. Lembro do óleo aquecendo na panela, afoito, esperando pelo tempero, que vinha em generosa colherada. Quando eles se encontravam, era uma farra, chiiiiiii. A casa inteira ficava sabendo do abraço dos dois. Logo em seguida, chegavam os grãos de arroz, lavados e escorridos. Noutra panela, outra farra, agora com centenas de feijões recém-cozidos na pressão. Era sempre festa no fogão da minha mãe. Na cozinha, sua oração. E o tempero, artesanal, era sua pegada. O rastro saboroso pontuando o alimento que nos fez crescer, feito planta.

Bem que tento. Mas é impossível reproduzir o tempero dela. Por mais que eu siga o modo de fazer (afinal, cebola é cebola, alho é alho), falta um ingrediente etéreo, invisível, secreto. Falta ela.

Liquidifiquei minhas recordações no turbilhão impiedoso do tempo. Misturei tudo, Natal com Páscoa, aniversário com Dia das Crianças. Mas o aroma do tempero dela está bem guardado no nariz da minha memória. De vez em quando, ele surge d’algum vento brincalhão. Inspiro o quanto posso, para tentar retê-lo e guardá-lo num vidro bem tampado, à prova de despedidas. Se eu fosse descrever a cor desse cheiro, seria verde.

Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.

Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo “Parece a torta de legumes da mamãe” ou “É igual ao creme de abóbora que ela fazia”?

No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?

Tantas coisas faço igual à minha mãe, e nem sei que faço. É a herança genética e silenciosa, a perpetuar a nossa espécie e algum tipo de amor. Talvez eu dobre roupas como ela, talvez eu lave pratos como ela, talvez eu abotoe um vestido como ela, talvez eu tenha um jeito de mexer nos cabelos como ela. Talvez até meu tempero guarde em seu DNA a centelha materna. Não podemos mais medir nossas semelhanças em tempo real. É uma constatação, não um lamento.

Há quatro vidros repletos de tempero na geladeira, fiz no comecinho do mês. Ficou bom. Mas não é igual ao dela. É idêntico a mim. Sou eu, deixando a minha pegada no caminho da minha gente.

O texto bem temperado é da Silmara, mas o filho é meu:
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Vinícius veio da Alemanha fazer uma prova e passar uns dias conosco. Foi uma semana intensa, que passou mais rápido do que desejaríamos…

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“O quase avesso de um elogio à beleza”

Em tempos de internet e redes sociais alimentando vaidades pessoais, vale a leitura da crônica da Maria Sanz Martins, na revista.AG de hoje:
E só pra não nos cobrarmos tanto, gostar de ser “curtido”, “seguido”, “compartilhado” e elogiado vem de berço.
Enjoy it!

O quase avesso de um elogio à beleza
Antes de conversarmos um pouco sobre o elogio, cuidemos mais da beleza

MARIA SANZ MARTINS | marysnt@hotmail.com

 

Encantadora, hipnotiza.

Sedutora, suborna a atenção.

Imperativa, provoca elogios – não necessariamente verbais, claro.

Elogios são formas de gentileza, atenção, olhares, ou simples, cooperação. Tudo automático porque a beleza, literalmente, impulsiona.

Para além do racional, reagimos quimicamente às substâncias que são instantaneamente produzidas no cérebro diante do sinal de qualquer coisa que nos pareça bela.

Sabia que no livro “A lei do mais Belo”, escrito pela cientista norte-americana Nancy Etcoff, existe um dado curioso: “Da infância à idade adulta, as pessoas bonitas são tratadas preferencialmente e vistas positivamente (…). Indivíduos belos têm mais chance de obter clemência no tribunal e conseguir cooperação de estranhos”.

Também dia desses uma amiga me contou sobre um estudo feito em colégios de ensino fundamental, onde foram colocadas câmeras dentro das salas de aula, sem o conhecimento dos professores, para observar seus comportamentos com relação aos alunos. O que se pode observar, e que chamou a atenção dos estudiosos, foi a diferença na atenção dispensada aos alunos bonitos. Constatou-se que, de forma inconsciente, os professores davam preferência às crianças mais bonitas. Mas como bem se sabe, não são apenas as crianças que gostam e imploram atenção.

É da própria natureza… O pavão quer ser apreciado, a criança quer ser notada, o homem quer ser desejado e a mulher quer ser elogiada.

Mas por que esperamos tanto por esse olhar que aplaude?

Por causa da lei da ação e reação. Ora, assim como a beleza, um elogio também pode provocar uma reação bioquímica para além do racional. Uma sensação que colore, fazendo acender um sinal de que não estamos sozinhos – e não duvide, o mero fato de sermos “aceitos” é o bastante para nos fazermos sentir aquecidos.

É que passada a infância, todos nós conhecemos um pouco da solidão (e deste ponto em diante, lutamos para afastá-la o quanto possível).

Saímos de um útero quentinho, para sentir nos lábios a pele nua do seio e sermos banhados por um olhar que tudo premia – seja um sorriso ou um espirro. Somos beijados, abraçados e, mesmo sem saber falar uma única palavra, plenamente compreendidos. Mas com o passar do tempo, o seio é trocado por uma papinha nem-salgada-nem-doce, nem-quente-nem-fria (horrível). Pouco a pouco deixam de nos tocar e fazer carinho com a frequência que faziam. De repente passamos a ter vergonha do nosso corpo e de nossas partes íntimas. Passamos a ser cobrados e a receber castigos.

Se olhássemos num gráfico, depois dos primeiros anos de vida os sinais de que nossa mera existência proporciona prazer a outras pessoas, declinam. (É drástico).

O entusiasmo que nos é dispensado passa a depender exclusivamente da nossa performance. Se antes, cortar a franja com a tesoura de cozinha era engraçado, agora é preciso cuidar do que dizemos, do que vestimos, do que comemos e de como penteamos os cabelos. Viramos adultos, definitivamente expulsos do paraíso.

Por isso, no fundo, no fundo, estamos sempre perseguindo o desejo de sermos amados, beijados, abraçados, aceitos, ou, simplesmente, elogiados.

E quanto mais, melhor!

(Será mesmo?)

É perfeitamente possível dizer que a vaidade é capaz de gerar alguma insanidade. Ora, desde que o mundo é mundo mulheres (lindas) fazem de tudo em nome da beleza. Mas hoje em dia, o gato saiu do saco! Com a opulência de imagens que circulam nas redes sociais e na TV, mulheres e meninas entram em colapso para atingirem o último grito da moda ou da forma física.

Imagino que para as mães de adolescentes a coisa deve estar difícil. Como explicar para um filho ou uma filha que, sim, é bom ser apreciado (curtido, seguido, aplaudido, elogiado, sei lá), mas o que realmente importa não é nada disso? E fazê-lo entender que ser bacana é muito, mas muito melhor (e mais interessante, mais surpreendente, mais gostoso e mais sabido) do que ser só bonito.

Digo porque, pessoalmente, tenho olhos que checam o físico, mas só aplaudem o espírito.

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