Tenho algumas fotos do Rio para mostrar. Antes porém, preciso manifestar-me…
Sim! Porque hoje em dia, todo mundo tem alguma opinião a expressar, alguma ideia a defender, uma causa a abraçar. É “cool”, é “in”, é charmoso ser “engajado”.
O que você acha, o que tem a dizer a respeito?
Todos falam. Ninguém escuta.
Parece que virou rotina um protesto aqui, uma manifestação ali, marcha acolá…
Interessante imaginar como os jovens de hoje marcariam um encontro:
-Eaêê? Vamo dar um rolé, hoje?
-Legal! O que manda?
-Depois do protesto da tarde, bródi.
Dar pontos de referências, também ficou mais fácil:
-O senhor pode me explicar onde fica o banco mais próximo?
-Ah! É só seguir a multidão, e desviar à D do “protesto dos estudantes”.
Liberdade de expressão é privilégio das democracias.
Desde o início do ano temos acompanhado as manifestações, que começaram no Egito e espalharam-se por vários países do Oriente Médio. É a voz de um povo, há muito calada sob a tirania de “líderes” que se eternizaram no poder, ecoando nas ruas e exigindo mudanças! Sinal de novos tempos.
Podemos lembrar de outras manifestações populares que entraram para a história:
Em 28 de agosto de 1963, líderes do movimento pelos direitos civis dos negros americanos organizaram a Marcha sobre Washignton: Eles temiam que fosse um fiasco, enquanto o presidente àquela época, J. Kennedy, que a aglomeração gerasse tumultos incontroláveis.
Nem uma coisa, nem outra: a marcha reuniu 250 mil de pessoas entre brancos, negros, políticos, artistas, anônimos e transcorreu na mais perfeita ordem e tranquilidade.
O discurso mais esperado, e considerado até hoje um dos mais importantes da história americana foi proferido pelo jovem pastor protestante, advogado e ativista negro Martin Luther King Jr:
“Eu tenho um sonho…”, ele começava. E o resumo desse sonho era: igualdade de direitos e justiça de tratamento, entre brancos e negros.
Não teve tempo hábil para testemunhar todas as conquistas do movimento que liderou: foi assassinado em 1968, 4 anos após ter ganho o Nobel da Paz.
No primeiro semestre de 1989, uma série de protestos pacíficos nas ruas e praças de Pequim culminou com violenta reação, da parte do governo chinês.
O mundo assistiu estarrecido a um jovem anônimo aproximar-se dos tanques de guerra e enfrentá-los, sozinho:
Desnecessário dizer, quem levou vantagem.
Foram cerca de 100 mil manifestantes, mas até hoje não se sabe ao certo o número de mortos, feridos, presos e desaparecidos, no que ficou conhecido como: “Massacre da Praça da Paz Celestial”.
Do mundo para o Brasil, em 1983 e 1984 o “Diretas Já” mobilizou milhares de pessoas a participarem de passeatas e comícios, de norte a sul do país.
O maior comício foi realizado na praça da Sé, em SP, reunindo mais de 1 milhão de pessoas:
(16 de abril, de 1984)
O movimento foi importante para a redemocratização e surgimento de uma nova liderança política brasileira, incluindo, FHC e Lula.
Pouco depois de eleito por voto direto, Fernando Collor foi alvo de denúncias de corrupção que, somadas à insatisfação popular por sucessivas medidas econômicas desastradas, levaram uma multidão de jovens “cara pintadas”
às ruas, exigindo o “impeachment” do presidente:
E enquanto escrevia este post, ouço notícias da explosão de manifestações violentas nas ruas da Grécia, devido à possibilidade de aprovação pelo Governo de medidas econômicas restritivas, e nada populares.
Geralmente é por motivo importante que multidões tomam as ruas: uma forma de pressionar, chamar a atenção, invocar transformações.
Mas ao que me parece, boas causas têm faltado ao nosso povo, ultimamente:
É marcha para liberar o uso da maconha.
(E liberada pelo STF. A marcha. O uso da maconha, não!)
A “Marcha para Jesus” reuniu cerca de 2 milhões na Av. Paulista.
Pouco dias depois a “Parada Gay” concentra 4 milhões de GLS, no mesmo endereço.
Não me parece que haja um motivo real, além do motivo de “reunir” uma tribo.
Parece-me mais uma queda de braço: ganha, quem mostrar mais números!
Numa época em que encontros são marcados via Orkut, Facebook e/ou Twitter, juntar uma multidão, em pouco tempo, não me parece tarefa das mais difíceis.
E como toda boa passeata e manifestação dos tempos modernos, trio elétrico e muita fantasia não poderia faltar: tudo termina num grande carnaval, para inglês ver!
Sei que já escrevi muito e até opinei demais, desconstruindo meu próprio argumento, mas não poderia deixar de reproduzir texto pertinente e profético do Diogo Mainardi, que está na orelha de seu livro “A Tapas e Pontapés“, de 2004:
“Tenho uma opinião sobre tudo. Ao longo dos anos, notei que minhas melhores opiniões são aquelas em que desconheço completamente o assunto. Já me flagrei dando quatro ou cinco opiniões contraditórias sobre o mesmo tema. O que importa num profissional da opinião, como eu, não é o grau de fidelidade a uma idéia, mas a capacidade de defender duas coisas opostas ao mesmo tempo. E nisso eu sou um mestre. Houve um tempo em que eu não era desse jeito. Tinha poucas opiniões sobre poucos assuntos. Eram opiniões firmes, categóricas, que não admitiam réplicas. Podia-se notar em mim um certo fanatismo. Depois comecei a ganhar dinheiro com minhas opiniões. E o que era convicção, virou trabalho. Tornei-me uma pessoa melhor. Mais elástica. Mais livre. Menos pedante. Menos assertiva. Hoje em dia, só dou opinião sobre algo mediante pagamento antecipado. Quando me mandam um e-mail, não respondo, porque me recuso a escrever de graça. Quando minha mulher pede uma opinião sobre uma roupa, fico quieto, à espera de uma moedinha. O brasileiro tem opiniões demais. Joga opiniões fora como se não valessem nada. Como se houvesse um estoque infinito de opiniões. A oferta abundante deprecia o mercado. Piora a qualidade do produto. Vivemos num país em que qualquer idiota se sente no direito de disparar suas bobagens, porque ninguém vai se dar ao trabalho de ouvi-las. Eu, por causa do meu trabalho, aprendi a dar um justo valor às minhas bobagens. Elas sempre vêm acompanhadas pelo preço. Elas têm etiqueta e código de barras. Querendo uma, é só tirar da prateleira, botar no carrinho e passar pelo caixa.”
Então, tá!
Quero saber a sua opinião, nos comentários deste blog…
Porque, como compôs Caetano:
“Atrás do trio elétrico
Só não vai quem já morreu”
p.s.
Deixe a sua moedinha ao final, a fim de custear este protesto.