Uma causa pra chamar de minha!

Em 1955, a prioridade nos assentos dos ônibus do Alabama não era para cadeirantes, mulheres grávidas ou idosos…
rosa parks
Como fazia rotineiramente depois do trabalho, a costureira Rosa Parks tomou um ônibus, de volta pra casa; devia estar cansada e, como os assentos no fundo já estavam todos ocupados por negros, sentou-se numa das cadeiras reservadas aos brancos, no meio do coletivo.
Mas algo, naquele 1° de dezembro, sairia da rotina: ignorando a ordem do motorista para que cedesse lugar ao passageiro branco que acabara de entrar, permaneceu no lugar escolhido. Quando ele ameaçou chamar a polícia, a resposta dela foi: “Então, prenda-me!”.
O protesto silencioso e solitário, a princípio, rendeu a Rose ficha na polícia e multa, mas foi o estopim de um movimento que cresceu e mudou a história de segregação racial, nos Estados Unidos!
Depois do episódio, milhares de negros resolveram boicotar o sistema de transporte coletivo indo para o trabalho a pé( alguns, cantando, fazendo barulho), o que causou prejuízos financeiros aos empresários locais.
Martin Luther King foi um dos que apoiou a atitude espontânea de Rosa Parks.
Alguns anos depois, em 28 de agosto de 1963, ele liderou a “Grande Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade”, que reuniu 250.000 pessoas, vindas de todas as partes do país.
Ao contrário do que temia o então presidente Kennedy, a megamanifestação transcorreu em clima pacífico e ajudou a aprovar leis de direitos civis dos negros( inclusive, direito a voto), em curso no Congresso.
“I have a dream…” foi a frase inicial do discurso mais famoso da História, proferido por Luther King nesse dia.
marcha
Há exatos 30 anos, em pleno período de ditadura militar no Brasil, 300.000 reuniram-se na Praça da Sé, em São Paulo, liderados por políticos, artistas e intelectuais, a favor da aprovação da “Emenda Dante de Oliveira”.
O “Movimento Diretas Já” ganhou corpo: um milhão de pessoas, no comício do Rio de Janeiro, 3 meses depois e, novamente em São Paulo, com mais de um milhão.
A onda provocada pela pressão popular não demoveu os deputados de sua posição conservadora: a emenda não foi aprovada. Mas respingou no governo militar: demonstrando mais “sensibilidade”, propôs saída alternativa permitindo a participação de civis, no pleito indireto que elegeu Tancredo Neves( o triste fim dessa história e o início da era Sarney, todos conhecem…).
tancredo-diretas-já-praça-da-sé-1984
Um salto, no tempo e na história:
Estamos em meados de 2013.
Como rastilho de pólvora, o desconhecido Movimento Passe Livre consegue cooptar simpatizantes de todos os tipos, credos e bandeiras, numa série de manifestações que tomaram conta do país.
Ao contrário da mulher, que procura o programa do Ratinho pra fazer teste e provar quem é o pai do filho dela, a manifestação não ficou muito tempo “bastarda”. Logo choveram candidatos a pai, mesmo sem DNA comprovando; muitas ideologias quiseram abraçar a “causa”, mesmo sem saber, ao certo, qual era.
Do ponto de vista do MPL, o movimento foi um sucesso: além de São Paulo, outros estados cancelaram o aumento das passagens de ônibus.
Na pluralidade de demandas, o movimento dissipou-se mais rápido que nuvem de chuva, em dia de verão.
“Exercitamos nossa cidadania”( quem nunca escutou esse chavão?!), mas a pouco, ou nenhum resultado prático  chegamos.
manifestacaocongresso407
( Ops! Esqueci da aprovação-relâmpago do projeto “Mais Médicos”, uma vitória do Governo!)
Agora, são os “rolezinhos” que ocupam as manchetes e debates na internet, dando trabalho aos “especialistas” de plantão.
Já quiseram batizar o “rolê” da periferia, nos centros de consumo, como um movimento social de inclusão, ou libertação. MST tirou casquinha. A ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), tentou a sua: “As manifestações são pacíficas. Os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens”. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”.
Há pouco, novo movimento( financeiro) surgiu, na internet: uma vaquinha, para pagar a multa do mensaleiro Genoino que, recebendo a bagatela de R$23.000 mensais como deputado aposentado, não dispõe de recursos para quitar a dívida “imposta injustamente”.
Não acreditei que fosse vingar mas, essa semana o ex-deputado publicou no seu Twitter:
genoino
Não são os resultados, que comprovam a relevância de uma causa.
A curtíssimo prazo, a resistência de Rosa Parks só lhe trouxe dor de cabeça. Não imaginou que sua antiação provocasse tantas mudanças, a ponto de, em questão de poucos anos, um negro ocupar, não apenas um lugar no ônibus, mas um assento na Casa Branca.
Os acontecimentos descritos aqui não são, necessariamente, uma evolução cronológica( uma involução ideológica, talvez…). Foram escolhidos a esmo, apenas para ilustrar uma ideia muito particular, que surgiu na cabeça desta que lhes escreve, mas não entende muito bem o que anda na cabeça dos outros; o que as move.
Em 45 anos, o mundo mudou muito! Conquistamos espaços, até à Lua!
Estamos ávidos por novas causas a defender!
Hoje em dia, parece que elas é que desejam nos abraçar, adotar, como a um cachorrinho carente. Faltam-nos, entretanto, as boas. Restaram-nos, o que, mesmo?: Os 20 centavos, a multa de Genoíno, os rolezinhos?…
O Ricardo III, de Shakespeare, adaptado aos novos tempos bradaria:
“Uma causa! Uma causa! Meu reino por uma causa!”
A pergunta que me faço, é: estamos mais sensíveis, ou ficaremos mais cínicos, diante da escassez delas( ou, do bom senso)?
Uma música não me sai da cabeça. Dizem que Cartola a compôs para sua enteada, disposta a sair de casa precocemente e, cair na vida. Aconselhou-a, mostrando um mundo nada colorido e a dura realidade que a esperava:
“…Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó…”

Encerra, com um vaticínio sobre nossos dias(?!):
“De cada amor tu herdarás só o cinismo…”

(Nem tudo está perdido. Até “maus agouros” podem ser poéticos):

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Antes que as luzes se apaguem…

Quer um plano simples, para o novo ano:
Tire um tempo pra você.
Pode até não ser um ano sabático. Podem não ser meses, dias, mas devem ser horas, minutos dedicados a fazer algo que fuja à sua rotina e que, realmente goste. Ou, que aprenda a gostar: um sabor a experimentar, um tipo de música que não está acostumado a ouvir, um caminho nunca percorrido, um novo penteado, ou roupa( por que não, lingerie?…), alguém com quem ainda não conversou, talvez, a hora de começar a praticar algum esporte…
Hoje eu me dei esse tempo, umas horas sabáticas. Com a licença da família viajei pra cumprir um sonho antigo: correr a prova mais tradicional do país. As experiências que vêm, como bônus, depende do quanto a gente se dispõe.
Acordei, na hora que o corpo achou que devia. Não contei calorias, no café da manhã, aliás, tomei café! Andei, sem rumo e sem contar o tempo, pela avenida mais famosa de São Paulo. Entrei numa grande livraria e, mais olhei, ouvi do que comprei. Comi num lugar, que nem sei o nome, refeição completa, digna de rainha: entrada de salada de folhas verdes salpicada de gergelim e granola salgada, cheeseburguer em bagel integral com linhaça e a sobremesa…Ah, a sobremesa!: Delicioso bolo de maçã que derretia na boca, de tão macio, com calda quente de açúcar mascavo e uma bola de sorvete de canela…Depois assisti a um filme. Nada digestivo mas, encantador!
Não precisei rodar o mundo. Encontrei tantos prazeres, a poucas quadras de distância um do outro. Foi uma questão de, caminhar e aproveitar as chances.
Prestenção, em 2014!
010

A gente continua por aqui. ( E, no Facebook! Pode me procurar, que lá me encontra!)

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“Legião Política”

Abro o jornal, todos os dias, e vejo tanta notícia ruim! Especialmente, em relação aos jovens.
Só neste sábado:
Jovem de 21 anos é presa ( depois de sair da cadeia há cerca de 6 meses), acusada de tráfico e suspeita de assassinato/ Duas amigas adolescentes, de 14 anos, fogem de casa e simulam sequestro pra justificar o sumiço à família/ Garoto de 15 anos é suspeito de chefiar quadrilha acusada de cometer sequestros relâmpago/ Seis adolescentes detidos por desacato à guarda/ Alunos de 13 anos levam arma à escola…
Depois de tudo isso eu poderia ser comparada àquelas mulheres ranzinzas, com uma das mãos no quadril, a outra ao céu, clamando: “No meu tempo não era assim! Aonde iremos parar?”
Mas recobro a esperança na humanidade, especialmente, nos jovens pensantes deste país, ao chegar à página 26 do jornal “A Gazeta” (ES), na seção “Política”, em “Outro Olhar”, e ler o artigo escrito por um universitário, de apenas 2o anos: Gabriel Tebaldi!
De tão bom, gostaria de reproduzi-lo, aqui. Ei-lo!

Legião Política

O cenário brasileiro mostrou-se afinado com as canções de Renato Russo, cujo filme estrou ontem, compondo uma trilha sonora digna de longa metragem

Ontem, a vida de Renato Russo tomou os cinemas do país. Foi a estreia do filme que conta a história do vocalista da Legião Urbana. Em homenagem, o cenário brasileiro mostrou-se afinado com as canções de Renato, compondo uma trilha sonora digna de longa metragem.

A educação é a primeira a receber os tons da Legião. De Mimoso do Sul vem o caos: enquanto a escola municipal não é reformada, alunos de 1ª a 5ª série estudam num antigo curral e bebem água de um córrego onde já se encontraram animais mortos. Ainda sem planilha de custos para obra, o máximo que a prefeitura garante é a construção de um poço artesiano. O descaso e a ineficiência do poder público com o chamado “futuro da nação” matam a esperança e levam aos acordes de “Mais uma vez”: “Se você quiser alguém em quem confiar / confie em si mesmo”.

O filme de Renato Russo declara: ?Somos tão jovens?. Já o nosso script do dia a dia não poderia ser outro: ?Que país é esse??
A certeza da beira do abismo ganhou a mídia nesta semana e tem nome: Gabriela Natália. Ou Lola Benvenutti. Formada em Letras, Gabriela é garota de programa e explica o porquê: “Dando aula você quase não se sustenta”. A professora diz que, quando ingressou na UFSCar, sonhava em mudar o país. Diante da realidade, Renato Russo cantou “Índios”: “Nos deram espelhos / e vimos um mundo doente. / Tentei chorar / e não consegui”.

A informação também vive ameaçada. E não só pela censura de quem diz já ter lutado por liberdade. Em 2012, o Brasil foi o terceiro país onde mais jornalistas foram mortos, perdendo apenas para Síria e Somália. Assim, vive-se o conflito entre a missão de informar e o desejo de viver. A canção “Há Tempos” compõe a vinheta do jornalismo: “Há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade / Só o acaso estende os braços / A quem busca abrigo e proteção”.

Indiferente a tudo e todos, os senhores de Brasília vivem o inacreditável, como Renan Calheiros (PMDB), que tem, em sua residência oficial, um mordomo cujo salário é de apenas R$ 18 mil. Despreocupadas com a realidade, as excelências comemoram os “avanços” que só os números veem. A música da festa é “Perfeição”: “Vamos celebrar a estupidez do povo / nossa polícia e televisão / Vamos celebrar nosso governo / e nosso estado que não é nação / Celebrar a juventude sem escolas / as crianças mortas / Celebrar nossa desunião”.

Por aqui, bandidos condenados têm Legião. Mas não Urbana, e sim de fanáticos que esqueceram o bom senso no mesmo lugar onde colocaram uma estrela no peito. Assim, os defensores de Dirceu, Delúbio e Paulo Cunha travam batalhas contra quem for, seja jornalista seja ministro do STF. As aberrações têm grito de guerra: “Dirceu, guerreiro do povo brasileiro”. Mas, para os soldados lunáticos, melhor seria “A Canção do Senhor da Guerra”: “Existe alguém / que está contando com você…/ Já que nessa guerra / não é ele quem vai morrer./ E quando longe de casa…/ O inimigo você espera / Ele estará com outros velhos / Inventando novos jogos de guerra”.

Além do exposto, uma questão instiga: como Renato, homossexual assumido, se manifestaria diante do levante fundamentalista no tema? Na próxima semana será votada a proposta que autoriza psicólogos a tratarem gays como doentes. A bancada religiosa, que esquece a laicidade do Estado, celebra a situação. Nosso vocalista também: “Vamos celebrar a intolerância, a incompreensão…/ Vamos celebrar a aberração / toda nossa falta de bom senso…/ Vamos celebrar o horror de tudo isso / com festa, velório e caixão”.

O longa metragem da política brasileira pode ser finalizado com “Os anjos”, que dá a receita do que aqui se vive: “Pegue duas medidas de estupidez / junte… partes de mentira / Coloque tudo numa forma…/ Com promessas não cumpridas. / Adicione a seguir o ódio e a inveja / as dez colheres cheias de burrice / Mexa tudo e misture bem / E não se esqueça: antes de levar ao forno / temperar com essência de espírito de porco / duas xícaras de indiferença / e um tablete e meio de preguiça”.

Com roteiro completo, falta-nos apenas o título da obra. O filme de Renato Russo declara: “Somos tão jovens”. Já o nosso script do dia a dia não poderia ser outro: “Que país é esse?”.

Gabriel Tebaldi (gab_meira@hotmail.com), 20 anos, é estudante de História da UFES( Universidade Federal do Espírito Santo)
Fonte: A Gazeta

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O “feminismo” do Facebook

Rendi-me à facilidade e rapidez de comunicação do Facebook.
Reitero o convite àqueles que quiserem acompanhar a extensão do blog por lá, com a Láely Fonseca.
Mas, como toda ferramenta, precisa ser bem usada para render bons resultados.

Sou contra formatações e estereótipos, mas o artigo a seguir não pretende estabelecer regras-o que fazer, ou não; é apenas um ponto de vista, que merece análise:

A derrota do feminismo no Facebook
(Por: KATIE ROIPHE)

Se, do além-túmulo, Betty Friedan fosse analisar como as mulheres acima dos 30 se comportam no Facebook, temo que ficaria muito decepcionada conosco. Eu me refiro especificamente à tendência de as mulheres usarem fotos de seus filhos em vez de suas próprias nos perfis do Facebook. Você clica no nome de uma amiga e o que aparece na tela não é o rosto dela, mas a foto de uma lourinha de quatro anos dormindo ou de um garoto de boné, correndo na praia. Inofensivamente embutido em um dos nossos métodos preferidos de procrastinação está um poderoso símbolo do novo século. Onde foram parar todas essas mulheres? Um historiador perspicaz pode muito bem perguntar no futuro: o que todas essas crianças em nossas páginas do Facebook dizem sobre “a construção da identidade de mulher” nesse momento específico?

Muitas dessas mulheres trabalham. Muitas fazem parte de clubes de leitura. Muitas são militantes de determinada causa ou têm interesses que vão além de suas casas. Mas é assim que elas preferem se representar. Essa opção pode parecer trivial, mas a ideia do Facebook é criar uma persona social, uma imagem de quem você é projetada em centenas de quartos, cafés e escritórios em todo o país. Por que então essa imagem seria a de qualquer outra pessoa, não importa o quão ligada ela seja a você, geneticamente ou por qualquer outro laço? Essa escolha parece um retrocesso a uma velha forma de identidade, a uma época em que mulheres eram chamadas de “Senhora John Smith”, em que meninas saudáveis saídas de Vassar enlouqueciam entre aspiradores de pó e caixas de areia. Não que eu não entenda a tentação de botar no Facebook fotos de seus lindos filhos. Eu entendo. Afinal, assim ficamos livres do peso de nos arrumar para aparecer minimamente decentes numa foto e sobretudo nos livramos de todo o trabalho excruciante que envolve sermos nós mesmas. E seu filho de três anos gosta de posar para a câmera. Mas mesmo assim.

Essas fotos do Facebook sinalizam um autoapagamento mais amplo e ameaçador, um estreitamento de horizonte. Lembre de um jantar ao qual você foi há pouco tempo, e de sua amiga, que na faculdade escreveu um trabalho de conclusão de curso sobre Proust, a mesma que aos 20 anos bebia até as cinco da manhã, uma mulher brilhante e bem-sucedida. Lembre de como, durante todo o jantar, das azeitonas à musse de chocolate, ela só falou dos filhos. Você foi paciente, e porque você ama essa mulher ficou esperando que ela conversasse sobre… o quê? Um livro? Um filme? O noticiário? É verdade que ela fala sobre os filhos com riqueza de detalhes e impressiona pelo rigor, profundidade analítica e graça com que trata o tema; ela poderia mesmo, é inevitável pensar, escrever toda uma dissertação sobre o efeito preciso do estilo pedagógico de um determinado professor sobre seu filho de quatro anos. Mas mesmo assim. Você percebe que do outro lado da mesa, um lado mais animado, estão os homens, falando sobre algo que não são modelos de carrinhos de bebê. Esta cena poderia estar num romance de Jane Austen ou Anthony Trollope, em que os homens se retiram para uma outra sala para beber brandy e falar sobre política ou os acontecimentos recentes. E você volta a prestar atenção na conversa, e a mulher está contando como prepara a merenda do filho. Todas nós, em algum momento, somos esta mulher? É claro que não há nada de errado com um pouco desse papo de criancinha. Mas não chega uma hora em que nos interessamos, também, por outra coisa?

O mistério é que a mulher que botou a criança em seu lugar no Facebook certamente foi leitora de A mística feminina, O segundo sexo e O mito da beleza e dos blogs Double X ou Jezebel. Está em dia com o papo-cabeça sobre em qual onda do feminismo nos encontramos. E ainda assim assimila com naturalidade esse tipo de apagamento, essa voluntária perda de identidade. Parece dizer: aqui está minha família feliz, nada mais me importa.

A filha de uma amiga usou durante muito tempo aqueles tênis que apitam. Para um adulto, era inacreditavelmente insuportável o barulho que faziam a cada passo da menina. Uma vez perguntei à minha amiga por que ela não proibia os tais tênis, e ela respondeu: “Porque ela gosta deles!”. Imagine fazer parte dessa nova geração, descobrindo a cada alegre apitada de seus tênis que Galileu estava errado: é você, e não o sol, o centro do universo!

Não posso deixar de pensar que nossos pais jamais teriam suportado tênis que apitam ou conversas que giram inteiramente em torno de crianças. Eles nos amavam tanto quanto amamos nossos filhos, mas, até onde me lembro, tinham suas próprias vidas, e nós brincávamos em torno delas. Eles não planejavam fins de semana inteiramente em torno de teatro infantil, aulas de arte para crianças, aulas de piano e festinhas de aniversário. Por que, muitos de nós nos perguntamos, nossos filhos não brincam sozinhos? Por que eles não têm a vida interior que, ainda vagamente, lembramos ter em nossas próprias infâncias? A resposta parece óbvia: porque, cheios de boas intenções, nos devotamos excessivamente à educação, ao entretenimento e à formação em geral de nossos filhos. Porque deixamos de lado a ideia de uma vida adulta independente, por não permitirmos que nossos filhos imaginem um lugar para si em seus quartos, no tapete ou no jardim; em suma, por não permitirmos que tenham uma vida própria.

É claro que o Facebook passa pelo exibicionismo: é uma forma de transformar em espetáculo a sua vida, ou pelo menos a parte dela que você escolhe para mostrar ao mundo lá fora. Os filhos são uma importante realização na vida de alguém e, indiscutivelmente, a mais importante realização – o que não significa que eles sejam quem você é. Pode-se argumentar, é claro, que a vaidade das novas gerações representa um tipo de narcisismo ainda pior e mais sinistro, com as postagens sobre o tipo de chá que estão bebendo. Mas essa forma específica de narcisismo, a exposição destes querubins para criar uma imagem do eu, é para mim mais perturbadora pela verdade que revela. A mensagem subliminar é clara: Eu sou os meus filhos.

O Facebook sem dúvida facilitou a vida dos mais jovens, pois favorece naturalmente a aproximação de quem não se conhece em festas ou a paquera nos bares. É também perturbadora na troca das fotos dos perfis a clara e deliberada subversão dessa finalidade: essa geração abre mão da própria sexualidade ao substituir o rosto de uma mãe atraente pelo de uma criança inocente. Essa atitude sinaliza um incômodo em ter um mínimo de vaidade. Assim como só usar tênis ou esquecer de cortar o cabelo, essa é uma forma de se tornar desajeitada e invisível, refletindo uma espécie de mommy culture em que é ponto de honra mostrar quão pouco resta em você de uma mulher saudável, articulada, engajada e bem-vestida.

E se as páginas do Facebook forem apenas o começo? E se depois vierem os passaportes e as carteiras de motorista? E se subitamente as caras de uma geração desaparecerem e bebês radiantes tomarem seus lugares? Quem ficará de luto por essas mulheres desaparecidas? Quando Betty Friedan descansará em paz?

KATIE ROIPHE (1968) é escritora, jornalista e professora da New York University. Publicou quatro livros de não ficção, dentre eles The morning after: sex, fear and feminism on campus, e o romance Still she haunts me, inspirado na relação entre Lewis Carroll e Alice Lidell. Este artigo faz parte da antologia In praise of messy lives (2012) e foi cedido pela autora para publicação no blog da serrote.

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Tá rindo de quê?…

“Quando o gato sai os ratos fazem a festa”. No meu caso saiu a humana, assumiu a felina( ou, a felina que existe na humana)!
Fizemos uma DR( Discussão da Relação), com direito a muitas afofadas na barriguinha dela, amassar pãozinhos na minha e…decidimos, eu e Chanel, que ela poderá ser uma colunista esporádica do blog, talvez, como comentarista de moda, o que acham?
Mas, falando mais sério, vamos tratar de humor? Humor, com respeito e dignidade.
O assunto veio à tona, depois da polêmica cena da “mão boba” de Gerald Thomas subindo, invasivamente, sob o vestido curto e colante de Nicole Bahls, numa matéria para o programa “Penico”(ops!), quer dizer, “Pânico”. A cena repercutiu como uma bomba! Pra quem pegou o bonde andando, entenda, vendo as fotos, aqui!
A própria Nicole relevou o ato desrespeitoso do diretor de teatro( apesar de, visivelmente constrangida, como provam as imagens), justificando que o trabalho no programa exigiria tolerância à humilhações, inclusive(?!).
Já Gerald (Mãos de Machista) Thomas, contestador por natureza, comenta em seu blog:
“TUDO BRINCADEIRA, GENTALIA HIPOCRITA!”
Seu ato, portanto, deveria ser compreendido ( por nós, “gentalia hipócrita”) como algum tipo de performance contra a objetificação da mulher(?!).
Então, tá, senhor!
Deixo a(s) palavra(s) com gente mais sabida que eu, num post do jornalista e doutor em Ciência Política, Leonardo Sakamoto:

Achou normal o ato de Gerald Thomas? Saiba o que é machismo”

Tempos atrás uma jornalista levou, sem autorização, um bebê de uma maternidade para provar que o local não tinha segurança. Justificou-se que aquilo era uma reportagem. Não, não era. Era sequestro. Lembro-me dessa história quando li a justificativa do diretor de teatro Gerald Thomas para a cena que protagonizou enfiando a mão sob o vestido de Nicola Bahls sem permissão. ”A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal”, escreveu em sua defesa. Justificou-se que era um alerta à hipocrisia da sociedade, uma performance intimidatória. Não, não era. Era violência.

“Essa imprensa careta de um sensacionalismo careta. A gente leva tudo da brincadeira e eles não”, reclamou após toda a polêmica levantada. O apresentador do “Pânico”, Emílio Surita, concordou: “estamos em um programa de humor e vamos fazer brincadeiras”.

Brincadeira, brincadeiras… Pedi a seis comunicadoras (para permanecer no mesmo campo de atuação de Gerald e Emílio) e militantes pelos direitos das mulheres explicarem o que é machismo para quem não vê problemas no comportamento do diretor de teatro. Seguem as respostas:

E se você, amiga jornalista, sentisse as mãos de um colega apalpar sua bunda enquanto vocês sobem o elevador de um prédio a caminho de mais uma entrevista? Putz, talvez você tenha engordado e aquela calça jeans tenha ficado muito apertada… mais atenção da próxima vez! E você, professora, o que acharia se, no meio de uma reunião com o diretor da escolar, ele espiasse o seu decote (que você jurava que era discreto) e, na sequência, arrumasse um jeitinho de roçar os braços nos seus seios ao se abaixar para apanhar uma caneta? Puxa, talvez você tenha exagerado… aquele decote não era tão discreto. Ou você, doutora advogada, que no meio da reunião sentiu os pés do colega sentado ao seu lado subir por suas canelas, e de repente as mãos dele já estavam nos seus joelhos… por que foi mesmo que você inventou em ir de saia a uma reunião? E você, estudante, que saiu da aula às 11 da noite e, naquela esquina escura, já perto de casa, foi surpreendida por um cara que tapou tua boca, levantou teu vestido, te segurou com força e meteu o pau na tua vagina? Quanta dor! Mas não importa, a culpa foi tua, que usava aquele vestido curto tão tarde… Machismo é muitas coisas. Mas é sobretudo uma violência apoiada na naturalização das desigualdades sociais entre homens e mulheres. É o machismo que, diariamente, tenta se apropriar do nosso corpo e nos subtrair algo que é caro a qualquer ser humano: a nossa autonomia.

Mariana Pires, jornalista

Machismo é pensar que o corpo feminino é um território livre para os homens se divertirem, que está à disposição sempre que quiserem entrar. É encarar que um vestido curto e decotado dá permissão para apalpar uma mulher. É se considerar esperto por supostamente estar invertendo a postura inconveniente e intimidadora dos apresentadores de um programa de TV, quando na realidade está reproduzindo a cultura do estupro, que lutamos para denunciar e eliminar. É achar graça de uma situação que invade a intimidade de uma mulher sem o consentimento dela, é considerar uma brincadeira válida “conferir” se a entrevistadora não é uma travesti, causando visível constrangimento a ela. É achar que foi uma ação contra a caretice dos dias de hoje, que fez uma grande performance artística, que abriu os olhos para a hipocrisia da nossa sociedade, quando o que fez foi simplesmente reiterar em frente às câmeras de TV, e banalizar ainda mais, a violência sexual que as mulheres enfrentam cotidianamente, nas ruas, no trabalho, dentro de casa.

Fernanda Sucupira, jornalista

O que Gerald Thomas e aquele babaca que passou a mão na sua bunda no ônibus lotado tem em comum? Fácil: os dois acham que têm o direito de violar o corpo da mulher da maneira como bem entenderem. A diferença é apenas o glamour com que tal ação é executada. No primeiro caso, o artista utilizou um argumento relativamente elaborado para forçar sua entrada embaixo da saia da entrevistadora. Segundo ele, o programa “Pânico” objetifica a mulher e, portanto, nada mais natural (?) que protestar contra isso fazendo exatamente a mesma coisa e sendo tão ou mais perverso. Mas, ao fim e ao cabo, o que ele fez não é diferente de todo assédio cotidiano que as mulheres sofrem porque parte do mesmo princípio: vou usar o corpo da mulher para provar meu ponto de vista, seja bulinando, estuprando, batendo ou torturando. E isso é machismo.

Maíra Kubik Mano, jornalista e cientista política

O comediante entra na livraria vestido como Adão – é assim que ele trabalha, dia após dia, no seu programa de humor. Usa apenas uma sunguinha cor da pele, com uma folha plástica de parreira cobrindo a genitália. A autora do livro, moça que gosta de fazer polêmica, faz pose de intellectual, mas fala uns palavrões (de nível aceitável, claro, que ela sabe bem como manejar a mídia), o recebe simpaticamente. De repente, Zaz!, ela enfia a mão por baixo da folha de parreira e lhe aplica um pouco gentil afago nos bagos. Consegue imaginar a cena? Não? E sabe por que não? Porque, no mundo este em que vivemos, determinado pela soberania do macho sobre a fêmea, é inaceitável que uma mulher exponha um homem a esse ridículo. Tão inaceitável que você sequer consegue imaginar que existe uma mulher capaz de dar um apertão no saco alheio em rede nacional de TV. Assim, só pra denunciar a cotidiana e dolorida violência contra o homem, não é?

Cristina Charão, jornalista

Machismo é um sistema de mentiras que enfraquece o senso crítico, fazendo com que você veja o “mal” em um lugar e o “bem” em outro, se tornando um consumidor-perpetrador que não questiona injustiças sociais. Vejo pessoas demonstrando isso no caso do Gerald Thomas. Dizer que não houve machismo na atitude dele não é dar uma opinião de autoria própria. Não se ganha nada em ver agressões misóginas como “normais”, ganha-se apenas um falso e frágil senso de pertencimento à nossa sociedade patriarcal. Por questões de sobrevivência, a maioria das mulheres é obrigada cotidianamente a transformar e quebrar as regras dessa mesma sociedade machista. É impossível conter essa força. Aos poucos, todos estão se dando conta que feminismo é também uma ciência econômica e social. Mesmo dando outros nomes a ele, o feminismo é praticado por todas as mulheres brasileiras.

Elisa Gargiulo, documentarista

O machismo se manifesta de inúmeras – e cada vez mais surpreendentes – maneiras. Mas, uma vez presente, nem o supostamente mais subversivo artista “escapa” de uma de suas formas mais tradicionais: a transformação do corpo da mulher em um objeto a ser utilizado e explorado pelo homem a seu bel prazer. Gerald Thomas pretendeu “responder” a um “jogo de sedução” de Nicole Bahls, mas o fez cometendo uma violência tradicional, no melhor estilo Idade Média, ainda em voga, e nada engraçada. Não ver problemas neste comportamento também não surpreende. O machismo é tão estruturante da identidade brasileira – de homens e mulheres, diga-se de passagem – que há quem veja só piada numa cena dantesca como esta. O humor, neste caso, é um aliado importante da perpetuação do machismo em nossa sociedade. Ele cria uma espécie de redoma de vidro dentro da qual tudo é permitido, inclusive enfiar a mão entre as pernas de uma entrevistadora contra a sua vontade. Não há como ser mais explícito e violento. Manter um sorriso sacana no rosto não muda a agressividade das mãos. E não enxergar isso também é uma manifestação de machismo. Quem não vê onde está o problema, é hora de revisitar seus valores e práticas.

Bia Barbosa, jornalista

(Post de Leonardo Sakamoto, em 15/04/2013)

O assunto renderia uma extensão pra discutir não apenas o machismo, como também os limites éticos do humor. Seria, mesmo, a atitude de Thomas apenas mais uma inocente “brincadeirinha”?
Pertinente é este documentário, de Pedro Arantes, com a participação de Laerte e do deputado federal Jean Wyllis, “O Riso dos Outros“( são 51′ bem empregados, podem ter certeza):

E que cada um tire suas conclusões…

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