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Sobre a maternidade

Postado por Laély, no dia 09-12-2012 - Categoria: filhos,textos - 16 Comentários


A artista plástica, escritora, filósofa, professora, conferencista…Márcia Tiburi( também atuou como debatedora, no programa do semanal do GNT, Saia Justa) concedeu entrevista à Anelise Csapo, do blog Manhê…abaixa o som!, e a publicou, integralmente e sem edição, em seu próprio blog “Filosofia Cinza“.

Você pode não concordar, assim como eu, com todas a ideias da filósofa mas, a intenção é provocar e fazer pensar.
Compartilhei no Facebook e aqui, também.
A seguir, Márcia, sem cortes:

Manifesto breve de um movimento sutil

MLM precisa continuar!

E foi com essa recente e necessária afirmação acima, que a filósofa, professora, escritora, mãe, feminista e livre pensadora (não necessariamente nessa ordem e muito menos categoricamente), Marcia Tiburi, criou o Movimento pela Libertação das Mães – Manifesto Breve de um Movimento Sutil – ao qual, o “manhê” destrincha numa entrevista de cair de queixo (e eu nem sei se essa expressão existe)!

Uma reflexão nada sutil partindo do ponto de vista da maternidade, onde nada é breve, efêmero ou superficial, mas insistimos socialmente em tratar a questão sempre em tons do nada bom e velho mais do mesmo!

Eu quero parar prá pensar mais! Você também vem nessa?

Então reflete que nem espelho:

Você dá as mãos à Elisabeth Badinter quando ela diz que a Maternidade é um mito?

Antes de mais nada, deixe-me comentar como é divertido o seu jeito de perguntar. Agora vamos à resposta à pergunta, em si mesmo, libertadora. A maternidade é um mito? Sim, podemos dizer que em alguns aspectos, a maternidade é um mito. Mas o é, sobretudo, por ser uma peculiar condição política. Uma condição em que a figura denominada mãe ocupa um lugar especial em um contexto social. Só que este lugar guarda uma contradição, mais ainda, guarda um paradoxo. Aquele que implica que a maternidade é a política da dominação das mulheres por meio de seu culto. De uma lado, temos o posicionamento da mãe como a “rainha” do lar. De outro ela é uma espécie de escrava. As de antigamente, quando não eram ricas, deviam cuidar da casa e dos filhos, as de hoje tem tripla ou quádrupla jornada de trabalho. Sem falar no fato de que a mãe é sempre a culpada de tudo do que ocorre ao filho. Se um filho tiver sucesso na vida, dificilmente lembrarão da mãe. Se um filho cair no crime ou tiver qualquer outro tipo de problema, a culpa será da mãe. O que temos que nos perguntar é o que esta figura denominada mãe ganha aceitando a mística da “rainha” do lar? Penso que as mães são eleitas (e elas caem nisso tão facilmente) para um lugar que é de bode expiatório, sagradas e profanadas ao mesmo tempo. Tudo o que é sagrado pode ser sacrificado. É isso o que acontece com as mães. Elas caem facilmente nesta armadilha deste lugar especial, quando na verdade, são as eleitas para um grande sacrifício. Vivem num limbo, num estranho estado de exceção, adoradas desde que façam tudo certinho, execradas desde que cometam qualquer tipo de “erro” em relação ao que se esperava delas, que não correspondam ao padrão, à regra, à verdadeira ordem que é a maternidade. A maternidade pode ser muito bacana, mas é muito mais fácil que seja para as mulheres uma tirania que não deixa para elas outras escolhas e possibilidades. Não desejo a maternidade para ninguém que não conheça suas armadilhas. E quase ninguém conhece essas armadilhas. Quem quiser ser mãe precisa começar combatendo o mito da maternidade.

O que poderemos pensar pelo esclarecimento e desconstrução da maternidade? 

Mostrar que se a maternidade não é ditadura, ela tem que ser coletiva. Se olharmos para a maternidade como algo que está além da neurose, como algo prático, ela é necessariamente um trabalho de várias pessoas. E isso porque ela é uma condição de responsabilidade para com um outro. Ninguém cria um filho sozinho. Antigamente haviam amas de leite. Hoje quem pode pagar tem uma babá, um berçário, creche ou escolinha onde deixar o filho. Cuidar o tempo todo de uma criança pode ser um inferno para uma pessoa que não tenha muito desejo de fazer isso. Aliás, as pessoas chamam de “mãe desnaturada” aquela mulher que pariu um filho e não conseguiu desejar a maternidade. Como se a maternidade (na espécie humana) fosse simplesmente algo natural e não um dado da cultura. Verdade é que podemos falar de maternidade como uma condição subjetiva. Mãe seria aquela pessoa que teria a capacidade de cuidar de um outro. Acontece que o fato de ser mulher e de ter parido um bebê não é a condição para a maternidade se a penarmos nestes termos. Nem todo mundo consegue isso, nem todo mundo gosta disso. Este fato deve ser respeitado. As mulheres bem que poderiam se libertar desse peso. Parir um bebê é uma coisa, ser mãe de uma pessoa é outra. A meu ver, ninguém deveria sentir-se obrigada a ser mãe nem depois que a pessoa nascesse. Inclusive, digo isso pensando que você pode ser alguém legal com a pessoa que nasceu de você, sem precisar encaixar-se no estereótipo da boa mãe. Além disso, esse pensamento melhoraria a questão da adoção entre nós. Do mesmo modo, aquelas pessoas que perguntam “quando você terá um filho?” deveriam calar. Esta pergunta é performática, ela surge como uma cobrança e cria uma dívida. “Toma que o filho é teu” é algo que as mulheres deveriam dizer a qualquer um que as colocasse nessa situação em uma sociedade que mistifica a maternidade, pressiona as mulheres para que sejam mães e ao mesmo tempo proíbe o aborto.

Por que o peso pela criação e educação dos filhos recai tão diretamente sobre a mulher?

Como eu disse, porque as mulheres são eleitas para este papel da procriação que é um papel questionável do ponto de vista dos valores políticos. Você acha que as mulheres teriam tantos filhos se pudessem não ter? Muitas não teriam nenhum. É verdade que outras teriam por motivos muito próprios. Mas creio que estas seriam as que não tem que trabalhar, porque tem maridos muito ricos (elas ainda existem?) e que não tem problemas físicos com a gravidez e a amamentação e tudo o que vem depois. É certo que a sustentação da maternidade historicamente precisou de muito bombardeio ideológico da sociedade patriarcal, da qual as próprias mulheres fizeram parte. E, infelizmente, ainda fazem.

Como discutir, socialmente, o direito ao não desejo de maternar?

Isso também tem que ser desmistificado. Uma mulher quando pare pode descobrir que gosta do filho ou não gosta. As mulheres, na maior parte não se colocam esta questão porque elas mesmas introjetaram os discurso que as oprime. Uma mulher até pode vir a gostar do filho depois do parto, mas não quer dizer que tenha gostado de pari-lo ou que tenha se encantado com sua condição de bebê. Não podemos mais naturalizar isso. Naturalizar é mistificar. Pois a condição da mulher que pariu sofre muitas mediações. Ela descobre que a coisa de cuidar lhe interessa ou não, que ela tem condições ou não. Na verdade, o termo exato não é bem esse. Não se trata exatamente de descobrir isso ou aquilo, porque isso não vem à consciência. Muitas mulheres ficam se culpando porque não levam jeito para a maternidade. Ninguém leva, me desculpem, a não ser que comecemos a teorizar sobre mães heroínas, super mulheres e super mães. Isso não nos ajuda a desmistificar a questão. As mulheres que parem crianças precisam de ajuda, porque não é algo nada fácil em nossas vidas complexas. Quando há ajuda tudo é mais fácil. Além disso, gostaria de dizer que não há nada de anormal em ficar deprimida após o parto. Dizemos que isso é anormal por conta do padrão da maternidade defendido em nossa cultura. A maternidade não é tudo na vida, não é a realização do ser humano denominado “mulher”. Pode ser momentaneamente, pode ser durante um tempo, mas um filho não é em si mesmo o sentido da vida de uma mulher. Ele é uma grande responsabilidade, uma terrível e assustadora responsabilidade que precisa ser partilhada. Do contrário, não há porque tê-lo. A responsabilidade é tão grande que o patriarcado inventou o mito da maternidade para jogar isso tudo sobre a figura denominada mãe. E ela, como vítima culpada, ou seja, como otária, deveria aceitar. Agora, é claro que a sociedade, cínica em relação a este assunto, afirmará sempre que quem tem filho que trate de criá-lo. As coisas são assim, mas isso não quer dizer que sejam justas. Se houvesse justiça neste campo, as mulheres poderiam escolher com mais tranquilidade o aborto, não ter filhos, viver sem filhos.

Haveria alguma maneira de colocar o assunto em pauta e efetivamente pararmos de apontar o dedo prás mães que não querem ou não podem cumprir essa “função”?

Acho que a desmistificação do aborto é uma saída. Além da crescente manifestação de mulheres que não desejam ter filhos, mesmo quando casadas. Como já acontece em vários países e aqui no Brasil também.

Quantos anos tem a sua filha e qual é sua relação com ela? 

A minha filha tem 15 anos. Eu a tive aos 27 anos, num momento em que me deu uma vontade imensa de ter uma filha. Naquela época eu era muito, mas muito ingênua. Muito devotada a todas as causas auto-sacrificiais. Meu feminismo ainda não tinha acontecido. Vejo minha filha como uma pessoa linda, maravilhosa. Ela é, sem dúvida, pessoa que mais amo na vida. Sorte que a tive naquela época, pois hoje, depois de perceber muitas implicações da procriação, seria difícil fazer esta escolha. O que mais me atinge hoje em dia é o tamanho da responsabilidade. É a intensidade da responsabilidade. Naquela época eu tive ajuda de muita gente. Minhas irmãs, minha mãe, as pessoas que pude pagar. Como separei do pai dela muito cedo, ele quase não ajudou, como até hoje, praticamente não tem participação em suas questões de ordem subjetiva e prática. Para mim isso não é um problema. Ao contrário. Eu me sinto mãe de muita gente, no sentido de que tenho o gosto de proteger e ajudar várias pessoas. E acho que, neste sentido, a maternidade é boa, desde que ela não seja jogada e imposta às mulheres. E é neste sentido que ela pode também ser praticada pelos homens. Podemos ter filhos adotivos, diversos, vários. A maternidade, neste caso, é uma subjetividade de acolhida que não precisa ter relação com um corpo capaz de parir.

Você acredita que haja diferença em educar meninos e meninas? Em qual aspecto o gênero influencia na criação dos filhos? 

As pessoas fazem esta diferença. Educar está intimamente atrelado ao gênero, só que o gênero é histórico e, por isso mesmo, limitado. Basta você entrar numa loja de brinquedos e ver a divisão dos sexos. Deste modo, a educação que os pais dão aos filhos também é limitada. Eu, por exemplo, não educo minha filha para ser mulher. Nem para ser homem. Não gosto aliás, da ideologia do sexo binário e heterossexual. Educo a minha filha na convivência, com a mesma sinceridade que tenho com qualquer outra pessoa. Eu falo com ela como falaria com qualquer um e falo com qualquer um como se fosse meu filho, com a mesma sinceridade. Pelo menos é o que eu tento. Espero que minha filha seja sempre ela mesma como já é e sempre foi desde pequena. Ao mesmo tempo, lembro da minha educação. Nem minha mãe, meu pai e meus avós e parentes e professores, me educaram para assumir papéis ou agradar alguém. Não lembro de ter sido conduzida a isso ou aquilo. Eu nunca fui ensinada diretamente a ser mulher, mãe ou coisa parecida. Percebi o quanto minha mãe sofreu sendo mãe e esposa. Ela literalmente estragou a sua vida. E ela mesma acha isso. Podia ser diferente. Mas naquela época, naquela cidade, com aquela cultura… ela, como muitas mulheres neste Brasil, estava numa situação sem saída.

Como criar filhas feministas, conscientes e ruidosas?

Falando tudo. Sendo sincera. E, sobretudo, sendo livre para pensar, dizer e fazer. Penso que o que damos uns aos outros diariamente é a nossa coerência ou incoerência. Os filhos percebem e sofrem ou alegram-se com a liberdade de ser e pensar que podem também ter.

Qual sua maior dificuldade como mãe?

Nenhuma. Eu sou uma mãe no sentido bom, não sou culpada, sou solidária e responsável com a minha filha, os filhos dos outros, os que não tem pais, os que não tem filhos. Enfim, não vejo nada demais em ser mãe, nem para pior, nem para melhor. E acho que este modo que colocar a questão é bom pra todo mundo.

Tenho a impressão de que a maioria das mães quer falar de maternidade no âmbito funcional, sobre partos, amamentação, chupetas, o como fazer e o o quê fazer. Estamos na superfície das questões sobre um relacionamento (mães e filhos) que requer uma reflexão mais política (não num sentido partidário) e sociológica? Por que ficamos tão neuróticas procurando respostas sobre COMO AGIR ao invés de pensar na maternidade em si?

É que para a maior parte das mulheres o filho é um brinquedo e elas estão brincando de casinha. Um dia recebi uma visita em minha casa. A moça disse que queria engravidar porque estava querendo decorar um quarto de bebê e se preocupava com quem cuidaria dela quando fosse velha. Eu, sem querer ser grosseria perguntei a ela se ela tinha certeza de que seu filho cuidaria dela quando ela envelhecesse… hoje eu diria: quem garante que vamos envelhecer? Recomendo a todos que tratam os filhos como brinquedos ou coisas leiam o livro de Julio Cabrera: “Por que te amo não nascerás”. Um livro sobre a manipulação da procriação e a falta de ética com aqueles que vão nascer.

Sou mãe solteira e levanto a bandeira pela causa. Não consigo acreditar que minha filha TENHA QUE TER um modelo masculino em sua criação, necessariamente. Principalmente um modelo com o qual discordo pessoalmente em questões, inclusive, morais. O que eu gostaria de saber é qual a sua consideração sobre esse assunto de modelo masculino e feminino e também sobre a educação de crianças por casais homossexuais.

Eu acho que isso não é uma questão. Eu lembro de que antigamente as pessoas se referiam assim às mulheres, mas hoje? Depois de toda a libertação que vivemos? Quem ainda vai se referir a uma mulher como “mãe solteira”? Não falamos em “pais solteiros”. Nem em “mães divorciadas”. Acho que estas designações são frutos de preconceitos que recaem sobre mulheres. Mas se é sua bandeira tomara que seja como afirmação e não como falta de um pai que tornaria esta mãe não solteira. Como já falei a binariedade sexual bem como o paradigma da heterossexualidade estão cada vez mais ultrapassados. Não vejo como educar afirmando isso tudo. A única saída é a desconstrução desse paradigma.

Qual seu maior medo em relação à mulher e à maternidade?

Medo? Agora me pergunto, será que tenho um? Talvez, que as mulheres banquem o machismo que as oprime como o fazem em muitos casos. Medo em relação à maternidade? Que ela continue sendo uma armadilha.

Quais mães você destacaria como modelos de sua admiração?

Não tenho admiração, tenho mesmo é pena. Pena da minha mãe e das minhas avós que não puderam ser outra coisa na vida. A admiração só reforça a mística materna e o mito da maternidade.

O que perguntaria para sua mãe? E para sua filha?

Para minha mãe: por que vc não nos abandonou?
Para minha filha eu não perguntaria nada. Mas eu já pedi desculpas por tê-la colocado neste mundo. Ela, gentil, me respondeu” relaxa, mãe, eu to gostando”.

Como o homem pode (e até deve) participar da criação dos filhos?

Eu realmente acho que essa questão não tem outro sentido senão este: um homem pode ser uma mãe!!!

Por que temos tanto medo de errar?

Qualquer pessoa sensata e que não sofra de onipotência tem medo de errar. É um medo que não é de todo ruim…

Essa entrevista não teve qualquer edição à pedidos da entrevistada – o que fez todo sentido dentro de qualquer coerência possível e imaginável!

Sinceridade conta!

E durma com um barulho desses você também!

(Também compartilhado no Facebook, pela amiga Silmara Franco, artigo pra ser lido logo após essa entrevista: “Ter filhos traz mesmo felicidade?)

Boa leitura!
Boa semana!

 

    “O Poder do Perdão”

    Postado por Laély, no dia 09-11-2012 - Categoria: textos - 20 Comentários

    Preparando-me para uma palestra na igreja encontrei vários textos sobre o perdão, na sua maioria, rasos. Destrinchar o tema é como atirar uma pedra num poço profundo…
    Lembrei da recente passagem da vietnamita Kim Phúc, mais conhecida como a “menina do napalm”, pelo Brasil.

    A imagem eloquente, que ajudou a dar fim numa guerra, ganhou o mundo e modificou profundamente o destino daquela menina: hoje, com 49 anos, Kim mora com o marido e filhos em Toronto, Canadá. Em 1997 tornou-se embaixadora da boa vontade da Unesco e criou uma fundação para ajudar outras crianças vítimas de guerras.
    Em entrevista ao Fantástico ela disse ter perdoado o capitão americano que ordenou o ataque à sua aldeia.
    Atitude corajosa mas, difícil. Mais fácil é para nós falar que, fazer como Kim, praticar.

    Assistindo ao Jornal Hoje vi a notícia chocante de um pai que, esquecendo o filho de 10 meses dentro do carro, encontrou-o já sem vida, asfixiado.
    Coloquei-me no lugar dele por um instante e, não foi nada confortável.
    Custamos a perdoar os outros; também, a nós mesmos.
    A falta de perdão, certamente, fomenta muitas doenças psicológicas e até, físicas.

    Encontrei um texto, na Seleções Readers Digest, que gostaria de dividir com vocês:
    O poder do perdão
    Perdão: os benefícios que a resiliência traz para nossa saúde física e mental
    Por Ágata Székely

    Quando me sugeriram o tema deste artigo, pensei: E se fizéssemos um sobre “O valor da vingança”? Eu me lembraria de mais exemplos…

    Como canta Sir Elton John, o perdão parece ser um dos conceitos mais difíceis de se pôr em prática. Além disso, pelo que consegui investigar, é uma palavra mal-entendida.

    Muitas vezes não perdoamos porque acreditamos que o perdão contribui para a injustiça. Quem causa dano não merece perdão, pensamos. Se perdoarmos, voltarão a nos ferir, vão se aproveitar da “nossa nobreza”. Às vezes, o desgosto com os prejuízos e as ofensas não se reduz nem com o passar do tempo. Podemos ficar enfurecidos com nossos pais pelos erros cometidos durante a nossa infância, com quem já abusou da nossa boa-fé, com aquela cunhada que nos chamou de “gorda” (ou assim deu a entender) num Natal há dez anos.

    Não perdoamos ninguém. Nem sequer a nós mesmos.

    Guardamos a ferida dentro da alma como um tesouro precioso, para tirá-la da memória de vez em quando e fitá-la, absortos, como se fosse um álbum de fotografias, uma joia de vitrine. Nesse momento, passamos outra vez pela mente o filme triste do episódio imperdoável e o revivemos. O desgosto com o passado se alimenta de grandes porções do presente. Eis aí o rancor.

    Mas, na verdade…

    … por que valeria a pena perdoar?

    Só por uma questão religiosa, por puro altruísmo? Em um mundo tão absolutamente cruel em tantas ocasiões, há alguma questão que seja impossível de desculpar?

    As informações a respeito disso são ricas e variadas. Os especialistas se dedicaram a estudar cientificamente o perdão e descobriram alguns fatos bastante surpreendentes. 

    Para conhecer e dominar o perdão, primeiro temos de saber de que “matéria” ele é composto, o que é verdadeiramente e o que não faz parte desse sentimento transformador.

    Do que é feito o perdão

    Fred Luskin é conselheiro, psicólogo da saúde e diretor do Projeto do Perdão, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Em seu guia O poder do perdão, que reúne casos e estudos tirados desse programa, Luskin explica que os problemas não solucionados são como aviões que voam dias e semanas sem parar e sem pousar, consumindo recursos que podem ser necessários em caso de emergência. “Os aviões do rancor se convertem em fonte de estresse e, muitas vezes, o resultado é um choque”, afirma Luskin. “Perdoar é a tranquilidade que se sente quando os aviões pousam.”

    O especialista explica que perdão não é aceitar a crueldade, esquecer que algo doloroso aconteceu nem aceitar o mau comportamento. Também não significa reconciliar-se com o agressor. “O perdão é para nós, não para quem nos ofendeu”, diz Luskin. “Aprendemos a perdoar como aprendemos a chutar uma bola. Minha pesquisa sobre o perdão demonstra que todos têm a capacidade de se incomodar, mas a usam sabiamente. Não desperdiçam energia valiosa enredando-se em fúria e dor quando nada se pode fazer. Ao perdoar, admitimos que nada se pode fazer pelo passado, e isso permite que nos libertemos dele. Perdoar ajuda os aviões a pousar para que sejam feitos os ajustes necessários.”

    Segundo Luskin, o perdão serve para relaxarmos e não significa que o agressor “se dê bem”, nem que aceitamos algo injusto. Ao contrário, significa não sofrer eternamente pela ofensa ou pela agressão.

    Mas, e se a agressão tiver sido grave demais?

    A lição de Kim

    Era 8 de novembro de 1972, durante a guerra do Vietnã. A família de Kim Phuc tentou proteger-se num templo próximo quando ouviu o barulho dos aviões americanos. Mas o refúgio não foi suficiente contra as bombas de napalm que caíam do céu, e tudo explodiu em chamas. 

    Nick Ut, correspondente da agência de notícias Associated Press, tirou nesse momento a foto tristemente famosa que percorreu o mundo todo. Ali estava Kim, aos 9 anos, nua e em prantos, com grande parte do corpo coberta de queimaduras de terceiro grau. Apesar disso, a menina sobreviveu. Passou por 17 cirurgias e, depois de ser usada durante anos como símbolo da resistência do seu país, pediu asilo no Canadá. Mas o notável de sua história é que Kim perdoou o capitão John Plummer, oficial que ordenou o bombardeio de sua aldeia.

    Em El don de arder [O dom de queimar], Kim conta à jornalista Ima Sanchís que, ao encontrar-se com o militar num evento, não o esbofeteou; preferiu abraçá-lo: “A guerra faz com que todos sejamos vítimas. Eu, quando menina, fui vítima, mas ele, que fazia o seu trabalho de soldado, também foi. Tenho dores físicas, mas ele tem dores emocionais, que são piores do que as minhas.” 

    Kim capitalizou suas antigas feridas de forma positiva. Hoje, viaja pelo mundo em campanha pela paz e é presidente da Fundação Kim Internacional, dedicada a dar assistência a vítimas de conflitos armados.

    Mas qual o segredo para agir com tanta integridade moral? 

    Resiliência, a palavra mágica

    Boris Cyrulnik sofreu com a morte dos pais num campo de concentração nazista, do qual conseguiu fugir quando tinha apenas 6 anos. Depois que a guerra acabou, ele ficou vagando de um campo a outro até chegar a uma fazenda controlada por uma instituição de caridade. Durante sua permanência, os vizinhos lhe ensinaram o amor pela vida e pela literatura. Mais tarde, ele decidiu ser médico e estudar os mecanismos da sobrevivência. Hoje é psiquiatra, neurologista, escritor, psicanalista e especialista em resiliência, um conceito psicológico que define a capacidade de superar as adversidades e ser forte durante as crises. “A resiliência é o antidestino”, diz Boris. “Dá trabalho, não é fácil, mas é um espaço de liberdade interior que permite não se submeter às feridas.”

    Quem consegue superar tragédias ou sair de períodos difíceis de dor emocional pode abandonar o papel de vítima e começar uma vida nova, como Boris e Kim. Você já se perguntou por que algumas pessoas, oprimidas pelo desamparo na infância, caem na delinquência e se tornam agentes de agressão, ao passo que outras se recuperam, tornam-se pessoas de bem e são felizes, fortes, prósperas e bem-sucedidas? A resposta é a resiliência e, para consegui-la, o perdão é um dos ingredientes necessários. 

    De acordo com a psicoterapeuta Rosa Argentina Rivas Lacayo, presidente da Associação Latino-americana de Desenvolvimento Humano e da Associação de Orientação Holística do México, “sem perdão não podemos crescer nem ficar mais fortes com a adversidade. Também não conseguiremos ser flexíveis e resilientes. Algumas pessoas ‘cozinham’ a dor em fogo brando para mostrar ao mundo como foram maltratadas, e não querem perceber que assim se prejudicam. Ao mundo, não interessa o nosso passado, só o que somos capazes de fazer e dar agora. Quando nos apegamos à dor antiga, a autocomiseração embota a capacidade de dar e, quando assumimos o papel de mártires, ficamos à espera de que alguém resolva milagrosamente a nossa vida.”

    Para Rivas Lacayo, o perdão nos aju­da a reconhecer e admitir que somos frágeis e que não precisamos esconder essa fragilidade. Quando nos tornamos conscientes dos nossos limites, evitamos que a experiência se repita. 

    Não é pouco, porém há mais: e se houvesse…

    …provas científicas da utilidade do perdão?

    O perdão, proteção contra as doenças

    Além da saúde espiritual, existem várias provas de que deixar para trás a hostilidade protege a saúde física. E não é metáfora nem “modo de dizer”. Um estudo chamado Perdão e Saúde Física, realizado pela Universidade do Wisconsin, mostrou que aprender a perdoar pode ajudar indivíduos de meia-idade a evitar doenças cardíacas. Nessa pesquisa, foi descoberto que, quanto maior a capacidade de perdoar, menos problemas nas artérias coronárias surgem no decorrer da vida. Por outro lado, quanto menor a capacidade de perdoar, mais frequentes os episódios de doenças cardiovasculares.

    Em relação à recordação das feridas, eis aqui outra informação importante: uma pesquisa indicou que pensar cinco minutos em algo que provoca agitação, raiva ou desgosto pode diminuir a variabilidade da frequência cardíaca (VFC), parâmetro da saúde do sistema nervoso que mostra a flexibilidade do sistema cardiovascular. 

    Para enfrentar e reagir ao estresse em boas condições, o coração precisa de flexibilidade. O mesmo estudo mostrou que esses cinco minutos de pensamento negativo desaceleram a reação do sistema imunológico, que defende o organismo.

    Os benefícios do perdão (tanto os que protegem o corpo quanto os que aliviam e “limpam” a alma) não se aplicam só aos outros, mas também a n&ooacute;s mesmos, quando, apesar dos erros e culpas, somos capazes de nos perdoar e deixar de nos sentir merecedores de castigo. Perdoar não é esquecer nem persistir no erro. É começar de novo, com a experiência adquirida, sem os rancores a sobrevoar e confundir as possibilidades do presente.

    Assim como o amor, o perdão não é al­go que se “dê” ao outro, mas um pre­sente vital que damos a nós mesmos.

      Mudanças à vista…

      Postado por Laély, no dia 04-11-2012 - Categoria: Minha cozinha,textos - 38 Comentários

      A notícia foi discretamente publicada no blog do Centro de Estudos Borjanos, início de agosto, mas em pouco tempo estourou na mídia e redes sociais do mundo inteiro: a “restauração’ feita por uma octagenária estragara o afresco “Ecce Homo”, pintado no século XIX por Elías Garcia Martinez, numa das paredes do Santuário da Misericórdia de Borja, Espanha.
      Idosa tenta recuperar pintura do século 19 e acaba estragando a tela. Na montagem, é possível ver a pintura em boas condições (esq.), a obra danificada pelo tempo (meio), e, por fim, a "restauração" feita pela idosa (dir.)

      Na montagem é possível ver a pintura em boas condições (esq.), a obra danificada pelo tempo (meio) e, por fim, a danificada pelas mãos da idosa de Borja(dir.). (Mais imagens e informações a respeito, aqui.)
      Pode-se constatar que nem toda mudança é aceita, compreendida, bem-vinda, ainda que,  movida por boas intenções.
      A mudança desejada, nesse caso específico: restaurar a pintura ao seu estado original, dessa vez, com a intervenção de especialistas no assunto.
      Mas, tirando-se o patrimônio histórico, nada tem a obrigação de permanecer como está.
      Relembrando post anterior em que citei um artigo do Eugênio Mussak “É errando que se aprende“: “a humanidade evoluiu, antes mesmo da ciência existir, a partir das tentativas, errando muito e acertando às vezes.”
      Imagem do afresco "restaurado" por idosa na Espanha, ganha inúmeras versões na internet
      A velhinha de Borja com certeza aprendeu! Pelo menos, como não restaurar uma pintura!
      No entanto, tendemos a ser refratários a mudanças pelo simples fato de assumir riscos, ao tentar empreendê-las.
      Temendo insucesso, frustração, muitas vezes optamos pela segurança do que já é conhecido e, acomodamo-nos.

      Quando comecei o blog( há quase 4 anos) estava num período de mudanças, na vida pessoal e profissional. Minha casa pedia transformações urgentes e dei ouvidos porque havia um clamor íntimo, muito mais eloquente! Então, coloquei a mão na massa, nas tintas, pincéis, furadeira, martelo…pesquisei na internet ideias que me inspirassem e, dentro do que me foi possível fazer sozinha, fiz.
      Mas na vida, assim como nos games, as fases mudam. Às vezes, mudam-nos.
      Nesse período de tempo adotei gatos, perdi gatos, larguei um emprego, engordei, meu filho mais velho entrou na faculdade, o do meio viajou para a Alemanha, o mais novo tá virando um rapaz( ontem, completou 13 anos!). O do meio, que ficaria fora apenas 1 ano, agora já pensa em estender os estudos por lá, talvez, por mais 3 anos! Tantas reviravoltas que, ficamos até atordoados! Mas nesse caso “proteção desprotege”, já dizia Erasmo Carlos:
      “Ei, mãe, não sou mais menino
      Não é justo que também queira parir meu destino
      Você já fez a sua parte me pondo no mundo
      Que agora é meu dono, mãe…”
      O jeito é adaptar-nos. Tentando, mesmo que, falhando às vezes.

      Havia reformado a casa; algumas coisas, pelo menos. Chegara a hora de me reformar( e isso parece até slogan de propaganda política)!
      “Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço.” (Immanuel Kant)

      (Treino funcional, em Santa Teresa.)
      Em 1 ano mudei a dieta, intensifiquei treinos e exercícios, perdi 9Kg, ganhei massa magra, corri uma meia maratona, preparando-me para a segunda, domingo que vem…o que demanda tempo e esforço.
      Lembrando que este é um blog pessoal, portanto, em constantes mudanças, inclusive, de humores. Pode até ser que, como na “reforma” de Borja, não tenha sido para melhor, principalmente, para o leitor.
      Evidente: antes, as atualizações eram praticamente diárias, agora, 1-2 x/semana. Não é o ideal mas, o real. O que tenho dado conta: “dentro do que me é possível fazer sozinha, faço“.
      Essa passagem talvez não tenha sido muito bem compreendida e aceita, por muitos que acompanham o blog há mais tempo. Entendo. Normal ser cobrada, ainda que, de forma carinhosa: “ah, mas eu preferia, quando…”
      Citando novamente Erasmo:
      “…quem tá na chuva tem que se molhar
      No início vai ser difícil
      Mas depois você vai se acostumar.”
      (Tô contando com isso!…)
      Mencionado no post anterior, um lugar que resume essa minha inquietude e necessidade de mudanças é a cozinha: ela já foi branca, amarela…

      Turquesa…mas, “nada é permanente, exceto a mudança.”(Heráclito)

      Pode ser que eu não tenha mudado, tanto assim…

        Ser criança…

        Postado por Laély, no dia 12-10-2012 - Categoria: crianças,textos - 2 Comentários

        Ser criança é continuar brincando“, por Eugênio Mussak.*

        Alguns mitos precisam ser derrubados. Um deles é que a infância termina quando ficamos grandes. Quem pensa assim considera que infância é apenas uma fase da vida, um ciclo biológico durante o qual o corpo cresce rápido e importantes mudanças fisiológicas acontecem. Mas há quem ache que infância é mais do isso, que é um estado de espírito, cheio de qualidades valiosas, e, ao pensar dessa forma, aceitam que ela não termina com o tempo; ao contrário, persiste por toda a vida, convivendo com a fase adulta. Estou neste grupo.

        Há pelo menos três qualidades na criança, necessárias para permitir sua interação com mundo em que acabou de chegar: a curiosidade, a imaginação e a transgressão criativa. A primeira serve para que ela acelere o processo de percepção e entendimento do mundo; a segunda para que ela crie, em sua cabecinha, o mundo que ela deseja, sem as mazelas que ele vai percebendo que existem; e a terceira para que ela ouse modificá-lo para dar lugar a esse mundo ideal.

        O problema é que nós teimamos em acabar com essas qualidades quando crescemos, porque alguém – provavelmente um adulto chato –, disse que elas não combinam com ser sério e responsável. Ora, o que seria dos inventores, dos artistas, dos poetas, dos cientistas e dos grandes promotores de mudanças se eles não tivessem conservado em si a curiosidade, a imaginação e a transgressão?

        Aliás, foi Einstein que disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento. E depois foi tirar aquela foto de língua para fora, brincando com o fotógrafo, e com o mundo.
        Dia das crianças

        *Eugenio Mussak é professor, palestrante e escritor brasileiro. Apesar de formado em Medicina dedicou sua vida à educação e, desde 1998, à educação corporativa. É articulista da revista Vida Simples.
        Página no Facebook: Eugenio Mussak 

        (A linguaruda à D sou eu, muito antes de conhecer Einstein…)

          “A raiva constroi”

          Postado por Laély, no dia 24-09-2012 - Categoria: textos - 5 Comentários

          Vivemos num país “cristão” de tradição católica e, de uns tempos pra cá, cada vez mais evangélico. Isso não significa que não haja hipocrisia: um certo discurso falado, que nem sempre é praticado.
          Vendo a cascata de protestos furiosos de alguns radicais islâmicos provocada por um vídeo que atacava Maomé, pensei: mas que profeta e religião é essa, que precisa ser “defendido” com tanto ódio?
          Não muito diferente da perseguição que houve na Idade Média, durante a Inquisição, engendrada por “cristãos”.
          É a raiva a serviço da religião. Religião que prega a paz, que manda amar nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem.
          Isso é possível? E, quando não for? Alivia-me, um certo texto bíblico:
          “Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.” Romanos 12:18
          E um outro texto, dessa vez, de Danuza Leão, publicado na Folha de São Paulo, em 08 de julho de 2007 e republicado, na última revista Cláudia.
          Defende a “boa raiva”.
          Será possível?
          Pensei em começar a semana falando em decoração mas, mudei de ideia. Quero tratar de raiva mas, com certa lucidez. É possível.
          Quando se sentir culpado e curvado por esse “sentimento negativo”, pense que ele pode ser usado como uma força a seu favor.

          “A raiva constroi”
          Quando alguém nos magoa e nos faz sofrer, o que acontece? Ou se sofre, o que em grande parte das vezes termina em depressão, ou se fica com muita raiva, o que é bem melhor. Mas a raiva -foi o que nos ensinaram- é um sentimento feio, baixo, que pessoas superiores não devem ter. Mas vamos discordar: uma boa raiva com motivos é saudável, e faz muito bem à pele, ao coração e à alma, além de evitar o infarto. E quem está querendo ser superior?
          Conseguir ter raiva é excelente para a saúde física e mental; a depressão nos leva para a cama e tira a vontade das coisas mais banais, como tomar banho, passar uma escova no cabelo, comer, ler, quem não sabe? Já a raiva faz com que se façam coisas, mesmo que sejam coisas erradas. Na depressão você não se levanta nem para ir a um cabeleireiro; já na hora da raiva você pinta o cabelo de vermelho, o que é muito melhor do que ficar prostrada olhando para o teto.
          Exemplos são sempre ótimos: se uma mulher é abandonada por um homem, entre a tristeza e o ódio, o que é melhor? O ódio, claro. Por raiva e ódio as pessoas querem e devem mostrar que não é qualquer coisa que as derrubam.
          A primeira providência de uma mulher (saudável) com raiva é pensar: “Como é que vou me vingar?”
          Em primeiro lugar, mostrando que não está sofrendo. Para isso é preciso estar na sua melhor forma, razão mais do que suficiente para perder aqueles três quilinhos, comprar um vestido novo, pegar um sol, aposentar definitivamente o uniforme tênis e jeans e voltar a usar um bom salto alto. Parece bobagem? Pois não é. Dificilmente você vai ver uma mulher se equilibrando num salto oito com depressão. De salto, automaticamente se encolhe a barriga, se levanta o queixo, e os ombros ficam na posição certa, como se desafiasse o mundo. Se cruzar com ele, não é melhor estar maravilhosa do que arrasada?
          Uma coisa leva a outra: por sentimentos nobres como o amor próprio, o orgulho, a vaidade e a raiva, não se deixa a peteca cair -em público, pelo menos-, e com isso vem o hábito de não deixar a peteca cair nunca, a não ser no divã do analista.
          Pense um pouco: se você é normal, deve ter raiva de alguém. O que deve fazer para irritar esses alguéns? Ficar linda, maravilhosa, ter sucesso, ser vista sorrindo, vibrando, enfim, ser feliz.
          Digamos que você seja uma desenhista de moda e que esteja sem a menor inspiração. Faz o quê? Pensa numa pessoa que detesta e imagina a glória de fazer um trabalho elogiado, que faça com que você se torne a melhor de todas. Só de pensar nesse delicioso prazer, é capaz de baixar em você o espírito de Balenciaga e o trabalho fluir fácil, só de raiva.
          Quando for ao jornaleiro da esquina, pense que pode se encontrar com ele -aquele que fez você sofrer tanto-, e é claro que vai se realçar antes de descer. Se acontecer, não vai ser ma-ra-vi-lho-so ele ver como você está muito mais linda agora, sem ele? Deve estar sendo muito bem tratada, ele vai pensar. E pode ser ainda melhor: encontrar na esquina outro que te faça feliz para sempre por uns tempos -ou não?
          Por isso, querida, quando vier aquela raiva cega, aquela vontade de gritar, de xingar, de matar, transforme toda essa energia a seu favor. Assim como o amor constrói para a eternidade, a raiva pode construir a prazo bem mais curto -e de superior e inferior, afinal, todos nós temos um pouco.
          Uma delícia, ter uma boa raiva; e sobretudo, muito construtivo.

          http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0807200706.htm

            “Como escrever um bom artigo”

            Postado por Laély, no dia 18-09-2012 - Categoria: textos - 9 Comentários

            Geralmente deixo para publicar textos que aprecio no fim de semana, mas como o cansaço já é grande( ainda no início de uma), compartilho este artigo do Stephen Kanitz* porque acho de grande valia pra quem precisa escrever, e bem. São dicas úteis e as levo sempre em consideração.
            *Stephen Kanitz é consultor de empresas, conferencista, articulista, escritor.
            Embora antigo, o interesse é atemporal.

            Como escrever um bom artigo
            Escrever um bom artigo é bem mais fácil do que
            a maioria das pessoas pensa. No meu caso, português foi sempre a minha pior matéria. Meu professor de português, o velho Sales, deve estar se revirando na cova.

            Ele que dizia que eu jamais seria lido por alguém. Portanto, se você sente que nunca poderá escrever, não desanime, eu sentia a mesma coisa na sua idade.

            Escrever bem pode ser um dom para poetas e literatos, mas a maioria de nós está apta para escrever um simples artigo, um resumo, uma redação tosca das próprias idéias, sem mexer com literatura nem com grandes emoções humanas.

            O segredo de um bom artigo não é talento, mas dedicação, persistência e manter-se ligado a algumas regras simples. Cada colunista tem os seus padrões. Eu vou detalhar alguns dos meus e espero que sejam úteis para você também.

            1. Eu sempre escrevo tendo uma nítida imagem da pessoa para quem eu estou escrevendo. Na maioria dos meus artigos para a Veja, por exemplo, eu normalmente imagino alguém com 16 anos de idade ou um pai de família.

            Alguns escritores e jornalistas escrevem pensando nos seus chefes, outros escrevem pensando num outro colunista que querem superar, alguns escrevem sem pensar em alguém especificamente.

            A maioria escreve pensando em todo mundo, querendo explicar tudo a todos ao mesmo tempo, algo na minha opinião meio impossível. Ter uma imagem do leitor ajuda a lembrar que não dá para escrever para todos no mesmo artigo. Você vai ter que escolher o seu público alvo de cada vez, e escrever quantos artigos forem necessários para convencer todos os grupos.

            O mundo está emburrecendo porque a TV em massa e os grandes jornais não conseguem mais explicar quase nada, justamente porque escrevem para todo mundo ao mesmo tempo. E aí, nenhum das centenas de grupos que compõem a sociedade brasileira entende direito o que está acontecendo no país, ou o que está sendo proposto pelo articulista. Os poucos que entendem não saem plenamente ou suficientemente convencidos para mudar alguma coisa.

            2. Há muitos escritores que escrevem para afagar os seus próprios egos e mostrar para o público quão inteligentes são. Se você for jovem, você é presa fácil para este estilo, porque todo jovem quer se incluir na sociedade.

            Mas não o faça pela erudição, que é sempre conhecimento de segunda mão. Escreva as suas experiências únicas, as suas pesquisas bem sucedidas, ou os erros que já cometeu.

            Querer se mostrar é sempre uma tentação, nem eu consigo resistir de vez em quando de citar um Rousseau ou Karl Marx. Mas, tendo uma nítida imagem para quem você está escrevendo, ajuda a manter o bom senso e a humildade. Querer se exibir nem fica bem.

            Resumindo, não caia nessa tentação, leitores odeiam ser chamados de burros. Leitores querem sair da leitura mais inteligentes do que antes, querem entender o que você quis dizer. Seu objetivo será deixar o seu leitor, no final da leitura, tão informado quanto você, pelo menos na questão apresentada.

            Portanto, o objetivo de um artigo é convencer alguém de uma nova idéia, não convencer alguém da sua inteligência. Isto, o leitor irá decidir por si, dependendo de quão convincente você for.

            3. Reescrevo cada artigo, em média, 40 vezes. Releio 40 vezes, seria a frase mais correta porque na maioria das vezes só mudo uma ou outra palavra, troco a ordem de um parágrafo ou elimino uma frase, processo que leva praticamente um mês.

            Ninguém tem coragem de cortar tudo o que tem de ser cortado numa única passada. Parece tudo tão perfeito, tudo tão essencial. Por isto, os cortes são feitos aos poucos.

            Depois tem a leitura para cuidar das vírgulas, do estilo, da concordância, das palavras repetidas e assim por diante. Para nós, pobres mortais, não dá para fazer tudo de uma vez só, como os literatos.

            Melhor partir para a especialização, fazendo uma tarefa BEM FEITA por vez.

            Pensando bem, meus artigos são mais esculpidos do que escritos. Quarenta vezes talvez seja desnecessário para quem for escrever numa revista menos abrangente. Vinte das minhas releituras são devido a Veja, com seu público heterogêneo onde não posso ofender ninguém.

            Por exemplo, escrevi um artigo “Em terra de cego quem tem um olho é rei”. É uma análise sociológica do Brasil e tive de me preocupar com quem poderia se sentir ofendido com cada frase.

            O Presidente Lula, apesar do artigo não ter nada a ver com ele, poderia achar que é uma crítica pessoal? Ou um leitor achar que é uma indireta contra este governo? Devo então mudar o título ou quem lê o artigo inteiro percebe que o recado é totalmente outro?

            Este é o tipo de problema que eu tenho, e espero que um dia você tenha também.

            O meu primeiro rascunho é escrito quando tenho uma inspiração, que ocorre a qualquer momento lendo uma idéia num livro, uma frase boba no jornal ou uma declaração infeliz de um ministro. Às vezes, eu tenho um bom título e nada mais para começar. Inspiração significa que você tem um bom início, o meio e dois bons argumentos. O fechamento vem depois.

            Uma vez escrito o rascunho, ele fica de molho por algum tempo, uma semana, até um mês. O artigo tem de ficar de molho por algum tempo. Isso é muito importante.

            Escrever de véspera é escrever lixo na certa. Por isto, nossa imprensa vem piorando cada vez mais, e com a internet nem de véspera se escreve mais. Internet de conteúdo é uma ficção. A não ser que tenha sido escrito pelo próprio protagonista da notícia, não um intermediário.

            A segunda leitura só vem uma semana ou um mês depois e é sempre uma surpresa. Tem frases que nem você mais entende, tem parágrafos ridículos, mas que pelo jeito foi você mesmo que escreveu. Tem frases ditas com ódio, que soam exageradas e infantis, coisa de adolescente frustrado com o mundo. A única solução é sair apagando.

            O artigo vai melhorando aos poucos com cada releitura, com o acréscimo de novas idéias, ou melhores maneiras de descrever uma idéia já escrita.

            Estas soluções e melhorias vão aparecendo no carro, no cinema ou na casa de um amigo. Por isto, os artigos andam comigo no meu Palm Top, para estarem sempre à disposição.

            Normalmente, nas primeiras releituras tiro excessos de emoção. Para que taxar alguém de neoliberal, só para denegri-lo? Por que dar uma alfinetada extra? É abuso do seu poder, embora muitos colunistas fazem destas alfinetadas a sua razão de escrever.

            Vão existir neoliberais moderados entre os seus leitores e por que torná-los inimigos à toa? Vá com calma com suas afirmações preconceituosas, seu espaço não é uma tribuna de difamação.

            4. Isto leva à regra mais importante de todas: você normalmente quer convencer alguém que tem uma convicção contrária à sua. Se você quer mudar o mundo você terá que começar convencendo os conservadores a mudar.

            Dezenas de jornalistas e colunistas desperdiçam as suas vidas e a de milhares de árvores, ao serem tão sectários e ideológicos que acabam sendo lidos somente pelos já convertidos. Não vão acabar nem mudando o bairro, somente semeando ódio e cizânia.

            Quando detecto a ideologia de um jornalista eu deixo de ler a sua coluna de imediato. Afinal, quero alguém imparcial noticiando os fatos, não o militante de um partido. Se for para ler ideologia, prefiro ir direto na fonte, seja Karl Marx ou Milton Friedman. Pelo menos, eles sabiam o que estavam escrevendo.

            É muito mais fácil escrever para a sua galera cativa, sabendo que você vai receber aplausos a cada “Fora Governo” e “Fora FMI”. Mas resista à tentação, o mercado já está lotado deste tipo de escritor e jornalista. Economizaríamos milhares de árvores e tempo se graças a um artigo seu, o Governo ou o FMI mudassem de idéia.
            5. Cada idéia tem de ser repetida duas ou mais vezes. Na primeira vez você explica de um jeito, na segunda você explica de outro. Muitas vezes, eu tento encaixar ainda uma terceira versão.

            Nem todo mundo entende na primeira investida, a maioria fica confusa. A segunda explicação é uma nova tentativa e serve de reforço e validação para quem já entendeu da primeira vez.

            Informação é redundância. Você tem que dar mais informação do que o estritamente necessário. Eu odeio aqueles mapas de sítio de amigo que se você errar uma indicação você estará perdido para sempre. Imagine uma instrução tipo: “se você passar o posto de gasolina, volte, porque você ultrapassou o nosso sítio”.

            Ou seja, repeti acima uma idéia mais ou menos quatro vezes, e mesmo assim muita gente ainda não vai saber o que quer dizer “redundância” e muitos nunca vão seguir este conselho.

            Neste mesmo exemplo acima também misturei teoria e dois exemplos práticos. Teoria é que informação para ser transmitida precisa de alguma redundância, o posto de gasolina foi um exemplo.

            Não sei porque tanto intelectual teórico não consegue dar a nós, pobres mortais, um único exemplo do que ele está expondo. Eu me recuso a ler intelectual que só fica na teoria, suspeito sempre que ele vive numa redoma de vidro.

            6. Se você quer convencer alguém de alguma coisa, o melhor é deixá-lo chegar à conclusão sozinho, em vez de você impor a sua. Se ele chegar à mesma conclusão, você terá um aliado. Se você apresentar a sua conclusão, terá um desconfiado.

            Então, o segredo é colocar os dados, formular a pergunta que o leitor deve responder, dar alguns argumentos importantes, e parar por aí. Se o leitor for esperto, ele fará o passo seguinte, chegará à terrível conclusão por si só, e se sentirá um gênio.

            Se você fizer todo o trabalho sozinho, o gênio será você, mas você não mudará o mundo, e perderá os aliados que quer ter.

            Num artigo sobre erros graves de um famoso Ministro, fiquei na dúvida se deveria sugerir que ele fosse preso e nos pagar pelo prejuízo de 20 bilhões que causou, uma acusação que poderia até gerar um processo na justiça por difamação.

            Por isto, deixei a última frase de fora. Mostrei o artigo a um amigo economista antes de publicá-lo, e qual não foi a minha surpresa quando ele disse indignado: “um ministro desses deveria ser preso”. A última frase nem foi necessária.

            Portanto, não menospreze o seu leitor. Você não estará escrevendo para perfeitos idiotas e seus leitores vão achar seus artigos estimulantes. Vão achar que você os fez pensar.

            7. O sétimo truque não é meu, aprendi num curso de redação. O professor exigia que escrevêssemos um texto de quatro páginas. Feita a tarefa, pedia que tudo fosse reescrito em duas páginas sem perder conteúdo.
            Parecia impossível, mas normalmente conseguíamos. Têm frases mais curtas, têm formas mais econômicas, tem muita lingüiça para retirar.

            Em dois meses aprendemos a ser mais concisos, diretos, e achar soluções mais curtas. Depois, éramos obrigados a reescrever tudo aquilo novamente em uma única página, agora sim perdendo parte do conteúdo.
            Protesto geral, toda frase era preciosa, não dava para tirar absolutamente nada. Mas isto nos obrigava a determinar o que de fato era essencial ao argumento, e o que não era.

            Graças a esse treino, a maioria das pessoas me acha extremamente inteligente, o que lamentavelmente não sou, fui um aluno médio a vida inteira. O que o pessoal se impressiona é com a quantidade de informação relevante que consigo colocar numa única página de artigo, e isto minha gente não é inteligência, é treino.

            Portanto, mãos à obra. Boa sorte e mudem o mundo com suas pesquisas e observações fundamentadas, não com seus preconceitos.

            Stephen Kanitz

              O “X” da questão

              Postado por Laély, no dia 15-09-2012 - Categoria: dicas de livros,textos - 12 Comentários

              Certa vez levei ao marido um texto para que lesse, esperando provocar nele, também excelente escritor e argumentador, ao menos metade de meu entusiasmo. Em vez disso uma observação seca, mais ou menos, assim:
              “Escreve como mulher.”
              Entre decepcionada e estupefata, fiquei com aquilo na cabeça: “como assim?…”
              Respondeu como homem, concluí.
              Mas, onde estaria o DNA daquelas letras? O duplo cromossomo “X” escondido nas entrelinhas, o estrogênio escorrendo pela folha?…
              Talvez ele quisesse me dizer: escreve com sensibilidade.
              Melhor, assim. Sosseguei.

              Elegância, concisão, ironia são algumas características que aprecio em bons escritores, independente de sexo, hormônios ou, seja lá o que for. Características de Luís Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes e deste, que revelou um lado diferente, “feminino”, mais sensível num texto publicado na revista Veja, onde era colunista, em 09 de maio de 2001.
              Gostaria de escrever como homens. Como esses.

              Já conhecia essas linhas, e a história por trás delas, mas nessa semana outra escritora, Lya Luft, o citou por causa do último livro dele “A Queda-As Memórias de um Pai em 424 Passos“. O “enfant terrible” Diogo Mainardi.

              Meu pequeno búlgaro
              TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO - O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual

              “Eu achava que as palavras
              eram inofensivas. Para mim,
              o politicamente correto era
              folclore. Já não penso assim”

              Diagnosticaram uma paralisia cerebral em meu filho de 7 meses. Vista de fora, uma notícia do gênero pode parecer desesperadora. De dentro, é muito diferente. Foi como se me tivessem dito que meu filho era búlgaro. Ou seja, nenhum desespero, só estupor. Se eu descobrisse que meu filho era búlgaro, minha primeira atitude seria consultar um almanaque em busca de informações sobre a Bulgária: produto interno bruto, principais rios, riquezas minerais. Depois tentaria aprender seus costumes e sua língua, a fim de poder me comunicar com ele. No caso da paralisia cerebral, fiz a mesma coisa. Passei catorze horas por dia diante do computador, fuçando o assunto na internet. Memorizei nomes. Armazenei dados. Conferi estatísticas. Pelo que entendi, a paralisia cerebral confunde os sinais que o cérebro envia aos músculos. Isso faz com que a criança tenha dificuldades para coordenar os movimentos. Meu filho tem uma leve paralisia cerebral de tipo espástico. Os músculos que deveriam alongar-se contraem-se. Algumas crianças ficam completamente paralisadas. Outras conseguem recuperar a funcionalidade. É incurável. Mas há maneiras de ajudar a criança a conquistar certa autonomia, por meio de cirurgias, remédios ou fisioterapia.

              Um dia meu filho talvez reclame desta coluna, dizendo que tornei público seu problema. O fato é que a paralisia cerebral é pública. No sentido de que é impossível escondê-la. Na maioria das vezes, acarreta algum tipo de deficiência física, fazendo com que a criança seja marginalizada, estigmatizada. Eu sempre pertenci a maiorias. Pela primeira vez, faço parte de uma minoria. É uma mudança e tanto. Como membro da maioria, eu podia me vangloriar de meu suposto individualismo. Agora a brincadeira acabou. Assim que soube da paralisia cerebral de meu filho, busquei apoio da comunidade, entrando em tudo que é fórum da internet para ouvir o que outros pais em minha condição tinham a dizer sobre os efeitos colaterais do Baclofen ou sobre a eficácia de tratamentos menos ortodoxos, como a roupa de elásticos dos astronautas russos usada numa clínica polonesa.

              A paralisia cerebral de meu filho também me fez compreender o peso das palavras. Eu achava que as palavras eram inofensivas, que não precisavam de explicações, de intermediações. Para mim, o politicamente correto era puro folclore americano. Já não penso assim. Paralisia cerebral é um termo que dá medo. É associado, por exemplo, ao retardamento mental. Eu não teria problemas se meu filho fosse retardado mental. Minha opinião sobre a inteligência humana é tão baixa que não vejo muita diferença entre uma pessoa e outra. Só que meu filho não é retardado. E acho que não iria gostar de ser tratado como tal.

              Considero-me um escritor cômico. Nada mais cômico, para mim, do que uma esperança frustrada. Esperança frustrada no progresso social, na força do amor, nas descobertas da ciência. Sempre trabalhei com essa ótica antiiluminista. Agora cultivo a patética esperança iluminista de que nos próximos anos a ciência invente algum remédio capaz de facilitar a vida de meu filho. E, se não inventar, paciência: passei a acreditar na força do amor. Amor por um pequeno búlgaro.

               

                “Seu apartamento é feliz?”

                Postado por Laély, no dia 10-09-2012 - Categoria: textos - 7 Comentários

                Cheguei hoje, da viagem ao Sul. Cansada, não tenho ânimo pra escrever um post.
                Deixo um texto que li no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, da Martha Medeiros. Assunto que a Vivianne Pontes, vez ou outra, trata no Dcoração:
                Seu apartamento é feliz?

                Dia desses fui acompanhar uma amiga que estava procurando um apartamento para comprar. Ela selecionou cinco imóveis para visitar, todos ainda ocupados por seus donos, e pediu que eu fosse com ela dar uma olhada. Minha amiga, claro, estava interessada em avaliar o tamanho das peças, o estado de conservação do prédio, a orientação solar, a vizinhança. Já eu, que estava ali de graça, fiquei observando o jeito que as pessoas moram.

                Li em algum lugar que há uma regra de decoração que merece ser obedecida: para onde quer que se olhe, deve haver algo que nos faça feliz. O referido é verdade e dou fé. Não existe um único objeto na minha casa que não me faça feliz, pelas mais variadas razões: ou porque esse objeto me lembra de uma viagem, ou porque foi um presente de uma pessoa bacana, ou porque está comigo desde muitos endereços atrás, ou porque me faz reviver o momento em que o comprei, ou simplesmente porque é algo divertido e descompromissado, sem qualquer função prática a não ser agradar aos olhos.

                Essa regra não tem nada a ver com elitismo. Pessoas riquíssimas podem viver em palácios totalmente impessoais, aristocráticos e maçantes com suas torneiras de ouro, quadros soturnos que valem fortunas e enfeites arrematados em leilões. São locais classudos, sem dúvida, e que devem fazer seus monarcas felizes, mas eu não conseguiria morar num lugar em que eu não me sentisse à vontade para colocar os pés em cima da mesinha de centro.

                A beleza de uma sala, de um quarto ou de uma cozinha não está no valor gasto para decorá-los, e sim na intenção do proprietário em dar a esses ambientes uma cara que traduza o espírito de quem ali vive. E é isso que me espantou nas várias visitas que fizemos: a total falta de espírito festivo daqueles moradores. Gente que se conforma em ter um sofá, duas poltronas, uma tevê e um arranjo medonho em cima da mesa, e não se fala mais nisso. Onde é que estão os objetos que os fazem felizes? Sei que a felicidade não exige isso, mas pra que ser tão franciscano? Um estímulo visual torna o ambiente mais vivo e aconchegante, e isso pode existir em cabanas no meio do mato e em casinhas de pescadores que, aliás, transpiram mais felicidade do que muito apê cinco estrelas. Mas grande parte das pessoas não está interessada em se informar e em investir na beleza das coisas simples. E quando tentam, erram feio, reproduzindo em suas casas aquele estilo showroom de megaloja que só vende móveis laqueados e forrados com produtos sintéticos, tudo metido a chique, o suprassumo da falta de gosto. Onde o toque da natureza? Madeira, plantas, flores, tecidos crus e, principalmente, onde o bom humor? Como ser feliz numa casa que se leva a sério?

                Não me recrimine, estou apenas passando adiante o que li: pra onde quer que se olhe, é preciso alguma coisa que nos deixe feliz. Se você está na sua casa agora, consegue ter seu prazer despertado pelo que lhe cerca? Ou sua casa é um cativeiro com o conforto necessário e fim?

                Minha amiga ainda não encontrou seu novo lar, mas segue procurando, só que agora está visitando, de preferência, imóveis já desabitados, vazios, onde ela possa avaliar não só o tamanho das peças, a orientação solar, o estado geral de conservação, mas também o potencial de alegria que os ex-moradores não souberam explorar.

                  Morrer na praia…

                  Postado por Laély, no dia 29-08-2012 - Categoria: looks,textos - 43 Comentários

                  É como nos sentimos quando, empenhados num projeto e, em vias de realizá-lo, precisamos abortá-lo.
                  Pesquisando para escrever este post cheguei a um interessante texto do Eugênio Mussak( Vida Simples, nº20, 01/09/2004), “É errando que se aprende“. Segundo esse a humanidade evoluiu, antes mesmo da ciência existir, a partir das tentativas, errando muito e acertando às vezes.
                  “Errar é próprio da condição humana. Aprender também. Infelizmente algumas pessoas não estabelecem conexão entre essas duas qualidades. Este sim é um grande erro. Na verdade, o erro só é erro quando não é percebido; quando é, torna-se aprendizado. Sem essa percepção, você corre dois riscos: o de continuar repetindo seus erros sem aproveitá-los para evoluir, ou o de parar de tentar por medo de errar.”
                  Citou o psicólogo e filósofo suíço Jean Piaget, defensor de que o homem é o construtor do seu próprio conhecimento e que, nesse processo, o erro é uma ferramenta importante.
                  O “erro bom” seria aquele que “abre alternativas”. Consta que Thomas Edison, após ter sido intimado pelo seu patrocinador a interromper suas experiências disse: ‘por que desistir agora, se já sabemos muitos modos de como não fazer uma lâmpada? Estamos hoje mais próximos de saber como fazer uma lâmpada que antes!’ Isto é, errar é a possibilidade de acertar na próxima tentativa.”
                  E dá o exemplo do cubo mágico. De tantos erros, poucos acertos, somos tentados a desmontá-lo e montá-lo certo. Mas essa trapaça não vale no jogo da vida. “A única alternativa é aprender a viver, o que pressupõe tentar, errar e tentar novamente.”
                  “Você quer um atalho? Ele existe sim: aprenda também com o erro dos outros.”

                  Meu sogro costumava repetir: “o sábio aprende com os erros dos outros. O bobo, nem com os próprios!”

                  “O erro não nos afasta da virtude. A maneira como lidamos com ele, sim…
                  Errou? Não faz mal, desde que você:
                  - Seja lúcido para admitir que errou;
                  - Seja humilde para assumir a responsabilidade;
                  - Seja esperto para consertar o resultado;
                  - Seja sábio para incorporar o aprendizado.”
                  “…Paulo Vanzolini, cientista e poeta, é autor da célebre música Volta por Cima, em que ele dá conselhos àquele que, como ele, e como todos, errou mas, por ser um ‘homem de moral, não fica no chão’. O que faz, então? Ora: ‘Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima’.”

                  Essa antiga música foi interpretada por Noite Ilustrada. Numa análise superficial da letra poderíamos achá-la até arrogante, mas não: é apenas a construção do conhecimento, o crescimento, a partir da consciência dos erros cometidos, tomando coragem pra acertar na tentativa seguinte ou, pelo menos, errar menos, e menos, e menos…

                  Fiz um resumo (acrescentando algumas impressões pessoais) do texto do Mussak, mas vale a pena conferi-lo na íntegra, aqui.

                  Durante alguns meses venho me preparando pra correr. Isso mudou radicalmente a minha rotina: treinos, dieta, corpo mas, principalmente, a cabeça. Exercitar a sensibilidade, entretanto, é necessário. Reavaliar estratégias, um ato contínuo…
                  No início da semana precisei ser hospitalizada. É de uma cama de hospital que faço este post, na condição de paciente, não de médica. Enquanto me dirigia ao consultório do colega, curvada de dor, pouco antes da internação, não conseguia conter as lágrimas. Não sei se tanto pela dor, ou mais pela frustração. A frustração de “morrer na praia”. Foi treinando para a corrida mais tradicional do estado, a “10 milhas Garoto”, a ser realizada no próximo domingo, que adoeci. Um erro de estratégia, talvez, que ainda está em avaliação.
                  Por conta disso estou proibida de esforço físico, até me recuperar completamente.
                  Passado o susto, volto pra casa hoje, com a recomendação expressa de manter o repouso.
                  Depois de quase 4 dias no hospital não me restaram muitos looks a mostrar, a não ser os da semana passada. Vesti pijama e soro, nos últimos dias.

                  Saia lápis e scarpin é sempre um clássico:
                  Lápis e scarpinLápis e scarpin
                  Blusa de seda: Sacada
                  Cardigã: Cantão
                  Saia lápis
                  Scarpin: Carmen Steffens.
                  Numa semana em que apostei no vermelho:
                  Bege e vermelhoBege e vermelho
                  Camisa de seda e algodão
                  Cinto: Maria Filó
                  Saia: Sacada
                  Bota cano alto
                  Bolsa: Uncle K
                  Com tempo chuvoso, também nas botas:
                  Preto e cinzaPreto e cinza
                  Regata mullet: Afghan
                  Legging: Track&Field
                  Bota cano alto
                  Bolsa: ELLUS
                  No sábado, pra (não) variar, vestidinho:
                  QuimonoQuimono
                  Vestido de crepe: Laranja Lima
                  Peep toe anabela: Schutz

                  Já sentia dor, quando combinei de me encontrar com a Katia Bonfadini, do blog Casos e Coisas da Bonfa, no sábado à noite. Mesmo assim, não quis falhar o compromisso, marcado em Vitória. E foi uma noite de bate-papo muito agradável!
                  Da série encontros
                  Esse encontro foi uma decisão acertada!

                    Como domar um gato

                    Postado por Laély, no dia 25-08-2012 - Categoria: facebook,gatinhos,textos - 20 Comentários

                    Essa semana passei pela traumatizante tarefa de dar um comprimido à Chanel. Não, que nunca tivesse feito isso antes: com os outros, mais dóceis, achara que fosse capaz. Mas a gata é praticamente uma selvagem!
                    A situação foi desanimadora. Tentei, sozinha, enfiar-lhe o comprimido goela abaixo: entre mortos e feridos saí arranhada e ela, assustada, correu pra longe, depois de cuspir o remédio.
                    Segunda tentativa…também frustrada.
                    Então, pedi ajuda aos universitários!
                    O Facebook é praticamente um oráculo! Um reduto de gateiros, onde fui ganhar confiança e dicas que me ajudassem.
                    As orientações foram diversas. Houve até quem sugerisse usar uma armadura( minhas mãos agradeceriam!), mas em uma coisa foram unânimes: não é “fácil, extremamente fácil” como parece!
                    Chanel e o raio de Sol
                    (Mó cara, de: “tô nem aí, tô nem aí!…”)

                    Então a Fátima Zapella compartilhou um texto, muito interessante, que aproveito pra dividir com vocês:

                    “COMO DAR COMPRIMIDO A UM GATO”

                    1. Pegue o gatinho e aninhe-o no seu braço esquerdo como se segurasse um bebê.
                    Coloque o indicador e o polegar da mão direita nos dois lados da boquinha do bichano e aplique uma suave pressão nas bochechas enquanto segura o comprimido na palma da mão. Quando o amorzinho abrir a boca atire o comprimido lá para dentro. Deixe-o fechar a boquita e engolir.2. Recupere o comprimido do chão e o gato de detrás do sofá. Aninhe o gato no braço esquerdo e repita o processo.3. Vá buscar o gato no quarto e jogue fora o comprimido meio desfeito.

                    4. Retire um novo comprimido da embalagem, aninhe o gato no seu braço enquanto segura firmemente as patas traseiras com a mão esquerda.
                    Obrigue o gato a abrir as mandíbulas e empurre o comprimido com o indicador direito até ao fundo da boca. Mantenha a boca do gato fechada enquanto conta até dez.

                    5. Recupere o comprimido de dentro do aquário e o gato de cima do guardarroupa. Chame a sua esposa.

                    6. Ajoelhe-se no chão com o gato firmemente preso entre os joelhos, segure as patas da frente e de trás.
                    Ignore os rosnados baixos emitidos pelo gato. Peça à sua esposa que segure firmemente a cabeça do gato com uma mão enquanto força a ponta de uma régua para dentro da boca do gato com a outra.
                    Deixe cair o comprimindo ao longo da régua e esfregue vigorosamente o pescoço do gato.

                    7. Vá buscar o gato no trilho da cortina e retire outro comprimido da embalagem. Tome nota para comprar
                    outra régua e consertar as cortinas.
                    Cuidadosamente varra os cacos das estatuetas e dos vasos do meio da terra e guarde-os para colar mais tarde.

                    8. Enrole o gato numa toalha grande e peça à sua esposa para se deitar por cima de forma que apenas a cabeça do gato apareça por debaixo do sovaco.
                    Coloque o comprimido na ponta de um canudinho de beber, obrigue o gato a abrir a boca e mantenha-a aberta com um lápis. Assopre o comprimido do canudinho para dentro da boca do gato.

                    9. Leia a bula inclusa na embalagem para verificar se o comprimido faz mal a humanos, beba uma cerveja para retirar o gosto da boca.
                    Faça um curativo no antebraço da sua esposa e remova as manchas de sangue do carpete com o auxílio de água
                    fria e sabão.

                    10. Retire o gato do barracão do vizinho. Vá buscar outro comprimido.
                    Abra outra cerveja. Coloque o gato dentro do armário e feche a porta até o pescoço de forma que apenas a cabeça fique de fora. Force a abertura da boca do gato com uma colher de sobremesa. Utilize um elástico como estilingue para atirar o comprimido pela garganta do gato abaixo.

                    11. Vá buscar uma chave de fendas na garagem e coloque a porta do armário de novo nos eixos. Beba a cerveja.
                    Vá buscar uma garrafa de whisky.
                    Encha um copo e beba. Aplique uma compressa fria na bochecha e verifique a data de quando tomou a última vacina contra tétano. Aplique compressas de whisky na bochecha para desinfetar. Beba mais um copo.
                    Jogue a camiseta fora e vá buscar uma nova no quarto.

                    12. Telefone aos bombeiros para virem retirar o desgraçado do gato de cima da árvore do outro lado da rua. Peça desculpa ao vizinho que se espatifou contra o poste, enquanto tentava desviar-se do gato em fuga.
                    Retire o último comprimido de dentro da embalagem.

                    13. Amarre as patas da frente às patas de trás do filho da puta do gato, com a mangueira do jardim, e em seguida prenda firmemente à perna da mesa da sala de jantar. Vá buscar as luvas de couro para trabalhos de jardinagem na garagem. Empurre o comprimido para dentro da boca da besta seguido de um grande pedaço de carne. Seja suficientemente bruto, segure a cabeça do corno na vertical e despeje-lhe um litro de água pela goela abaixo para que o comprimido desça.

                    14. Beba o restante whisky.
                    Peça à sua esposa que o leve ao pronto-socorro e sente-se muito quieto enquanto o médico lhe costura os dedos, o braço e lhe remove os restos do comprimido de dentro do seu olho direito. A caminho de casa ligue para a loja de móveis para encomendar uma nova mesa de jantar.

                    15. Trate de tudo, para que a sociedade protetora dos animais venha buscar o gato mutante fugido do inferno.
                    Telefone para a loja de animais e pergunte se têm tartaruguinhas.

                    Não precisa levar ao pé da letra. É só uma brincadeirinha.
                    Mas, resumindo a história: desisti do comprimido. Apelarei a outra forma de apresentação, mais fácil de aplicar.
                    Se todas as dicas anteriores não ajudarem, a Suzan Afonso enviou-me um video( dessa vez, sério!), com dicas úteis de uma veterinária:

                    Que tipo de gato é o seu: anjo, demônio?
                    Todos iguais: indispensáveis!
                    Aninhados