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“Cinnamon rolls” pra te fazer feliz!

Postado por Laély, no dia 21-06-2014 - Categoria: pães,receitas,textos - 5 Comentários

Daquelas propagandas que chamam a atenção, essa, do Pão de Açúcar, com a Clarice Falcão:

Não é um produto que se vende, ali, mas, uma ideia: de que somos os maiores responsáveis pela nossa felicidade, de que podemos( e devemos!) interferir, agir, assumir-nos donos do próprio destino. Ficar de braços cruzados, esperando que um Chapolin Colorado venha nos salvar é cilada, um convite à frustração.
Atitudes simples podem mudar a vida, o entorno, torná-la mais leve.
E a perguntinha básica da música chiclete pode parecer boba mas, não é. Antes, um exercício de autoconhecimento:
O que faz você feliz e, você feliz, o que é que faz?
Parou, pra pensar?:
Quando, a última vez que deu gargalhadas( sem preocupar em parecer ridículo!) relaxou, gozou, gritou de excitação, deu pulinhos, fez dancinha, fechou os olhos e, sorriu por dentro…
Que ocasião foi isso, há quanto, quem, ou o que provocou?…
Porque felicidade não se resume num momento, euforia, ou devaneio. Antes, sim, uma atitude e compromisso em relação à vida e ao que nos traz, de bom e/ou ruim.
Você pode estar triste e, ser feliz. Pode estar alegre e, ao contrário…Pode se sentir feliz, em fazer alguém feliz e, ao contrário, de novo…quando estamos bem, como é mais fácil fazer com que os outros também se sintam!…
É simples, mas não é fácil, como se costuma dizer.
Então, proponha-se esse pequeno exercício:
“O que me faz feliz e, feliz, o que faço?”
É diferente, pra cada um. Pessoal, intransferível!
Eu, por exemplo, viajo numa música que me toca…na lembrança de um momento especial…sorrio, quando minha gatinha vem aninhar-se aos meus pés…converso numa linguagem infantil com ela, quando lhe acaricio a barriguinha peluda…sofro e me canso, numa corrida de longa distância, mas abro um sorriso, de orelha à orelha, quando ultrapasso a linha de chegada…
Assim, uma das ocasiões em que me defino “feliz”: ora corpo suado, molhado, esforçado num treino ou prova, ora coberto de trigo, à beira do balcão da cozinha, fazendo pão, ou outra receita gostosa…
Sovar a massa, esperar que levede, moldar pãezinhos como quem esculpe uma Pietà, depois, vê-los corar ao forno, como se fossem corpos de mulheres gostosas bronzeand0-se na praia de Ipanema…E o perfume, que invade a casa?…
Felicidade tem cheiro?
Tem. Muitos! Cheiro de pão, um deles! Mas pode ser cheiro de mato, cheiro de gente( uma “gente”, em especial…), cheiro de capim gordura( no caso do meu gatinho, que costuma embrenhar-se no mato)…

Quem me conhece um pouco sabe que me faz feliz falar de comida, de cozinha, trocar receitas, dicas…
Fez-me feliz fazer esta receitinha de ”cinnamon rolls de um site que, só de olhar as fotos, ler o texto delicioso que a Paula escreve já levanta o astral de qualquer mortal!
cinnamon-roll
(Foto: “The Cookie Shop“)

Meus rolinhos de felicidade, sem fondant:
CInnamon rolls
Isto é panificoterapia!
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Massa levinha, que desmancha na boca!
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Tá esperando o que, pra ser feliz?!

    Uma causa pra chamar de minha!

    Postado por Laély, no dia 25-01-2014 - Categoria: textos - 6 Comentários

    Em 1955, a prioridade nos assentos dos ônibus do Alabama não era para cadeirantes, mulheres grávidas ou idosos…
    rosa parks
    Como fazia rotineiramente depois do trabalho, a costureira Rosa Parks tomou um ônibus, de volta pra casa; devia estar cansada e, como os assentos no fundo já estavam todos ocupados por negros, sentou-se numa das cadeiras reservadas aos brancos, no meio do coletivo.
    Mas algo, naquele 1° de dezembro, sairia da rotina: ignorando a ordem do motorista para que cedesse lugar ao passageiro branco que acabara de entrar, permaneceu no lugar escolhido. Quando ele ameaçou chamar a polícia, a resposta dela foi: “Então, prenda-me!”.
    O protesto silencioso e solitário, a princípio, rendeu a Rose ficha na polícia e multa, mas foi o estopim de um movimento que cresceu e mudou a história de segregação racial, nos Estados Unidos!
    Depois do episódio, milhares de negros resolveram boicotar o sistema de transporte coletivo indo para o trabalho a pé( alguns, cantando, fazendo barulho), o que causou prejuízos financeiros aos empresários locais.
    Martin Luther King foi um dos que apoiou a atitude espontânea de Rosa Parks.
    Alguns anos depois, em 28 de agosto de 1963, ele liderou a “Grande Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade”, que reuniu 250.000 pessoas, vindas de todas as partes do país.
    Ao contrário do que temia o então presidente Kennedy, a megamanifestação transcorreu em clima pacífico e ajudou a aprovar leis de direitos civis dos negros( inclusive, direito a voto), em curso no Congresso.
    “I have a dream…” foi a frase inicial do discurso mais famoso da História, proferido por Luther King nesse dia.
    marcha
    Há exatos 30 anos, em pleno período de ditadura militar no Brasil, 300.000 reuniram-se na Praça da Sé, em São Paulo, liderados por políticos, artistas e intelectuais, a favor da aprovação da “Emenda Dante de Oliveira”.
    O “Movimento Diretas Já” ganhou corpo: um milhão de pessoas, no comício do Rio de Janeiro, 3 meses depois e, novamente em São Paulo, com mais de um milhão.
    A onda provocada pela pressão popular não demoveu os deputados de sua posição conservadora: a emenda não foi aprovada. Mas respingou no governo militar: demonstrando mais “sensibilidade”, propôs saída alternativa permitindo a participação de civis, no pleito indireto que elegeu Tancredo Neves( o triste fim dessa história e o início da era Sarney, todos conhecem…).
    tancredo-diretas-já-praça-da-sé-1984
    Um salto, no tempo e na história:
    Estamos em meados de 2013.
    Como rastilho de pólvora, o desconhecido Movimento Passe Livre consegue cooptar simpatizantes de todos os tipos, credos e bandeiras, numa série de manifestações que tomaram conta do país.
    Ao contrário da mulher, que procura o programa do Ratinho pra fazer teste e provar quem é o pai do filho dela, a manifestação não ficou muito tempo “bastarda”. Logo choveram candidatos a pai, mesmo sem DNA comprovando; muitas ideologias quiseram abraçar a “causa”, mesmo sem saber, ao certo, qual era.
    Do ponto de vista do MPL, o movimento foi um sucesso: além de São Paulo, outros estados cancelaram o aumento das passagens de ônibus.
    Na pluralidade de demandas, o movimento dissipou-se mais rápido que nuvem de chuva, em dia de verão.
    “Exercitamos nossa cidadania”( quem nunca escutou esse chavão?!), mas a pouco, ou nenhum resultado prático  chegamos.
    manifestacaocongresso407
    ( Ops! Esqueci da aprovação-relâmpago do projeto “Mais Médicos”, uma vitória do Governo!)
    Agora, são os “rolezinhos” que ocupam as manchetes e debates na internet, dando trabalho aos “especialistas” de plantão.
    Já quiseram batizar o “rolê” da periferia, nos centros de consumo, como um movimento social de inclusão, ou libertação. MST tirou casquinha. A ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), tentou a sua: “As manifestações são pacíficas. Os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens”. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”.
    Há pouco, novo movimento( financeiro) surgiu, na internet: uma vaquinha, para pagar a multa do mensaleiro Genoino que, recebendo a bagatela de R$23.000 mensais como deputado aposentado, não dispõe de recursos para quitar a dívida “imposta injustamente”.
    Não acreditei que fosse vingar mas, essa semana o ex-deputado publicou no seu Twitter:
    genoino
    Não são os resultados, que comprovam a relevância de uma causa.
    A curtíssimo prazo, a resistência de Rosa Parks só lhe trouxe dor de cabeça. Não imaginou que sua antiação provocasse tantas mudanças, a ponto de, em questão de poucos anos, um negro ocupar, não apenas um lugar no ônibus, mas um assento na Casa Branca.
    Os acontecimentos descritos aqui não são, necessariamente, uma evolução cronológica( uma involução ideológica, talvez…). Foram escolhidos a esmo, apenas para ilustrar uma ideia muito particular, que surgiu na cabeça desta que lhes escreve, mas não entende muito bem o que anda na cabeça dos outros; o que as move.
    Em 45 anos, o mundo mudou muito! Conquistamos espaços, até à Lua!
    Estamos ávidos por novas causas a defender!
    Hoje em dia, parece que elas é que desejam nos abraçar, adotar, como a um cachorrinho carente. Faltam-nos, entretanto, as boas. Restaram-nos, o que, mesmo?: Os 20 centavos, a multa de Genoíno, os rolezinhos?…
    O Ricardo III, de Shakespeare, adaptado aos novos tempos bradaria:
    “Uma causa! Uma causa! Meu reino por uma causa!”
    A pergunta que me faço, é: estamos mais sensíveis, ou ficaremos mais cínicos, diante da escassez delas( ou, do bom senso)?
    Uma música não me sai da cabeça. Dizem que Cartola a compôs para sua enteada, disposta a sair de casa precocemente e, cair na vida. Aconselhou-a, mostrando um mundo nada colorido e a dura realidade que a esperava:
    “…Ouça-me bem, amor
    Preste atenção, o mundo é um moinho
    Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
    Vai reduzir as ilusões a pó…”

    Encerra, com um vaticínio sobre nossos dias(?!):
    “De cada amor tu herdarás só o cinismo…”

    (Nem tudo está perdido. Até “maus agouros” podem ser poéticos):

      Antes que as luzes se apaguem…

      Postado por Laély, no dia 30-12-2013 - Categoria: textos - 4 Comentários

      Quer um plano simples, para o novo ano:
      Tire um tempo pra você.
      Pode até não ser um ano sabático. Podem não ser meses, dias, mas devem ser horas, minutos dedicados a fazer algo que fuja à sua rotina e que, realmente goste. Ou, que aprenda a gostar: um sabor a experimentar, um tipo de música que não está acostumado a ouvir, um caminho nunca percorrido, um novo penteado, ou roupa( por que não, lingerie?…), alguém com quem ainda não conversou, talvez, a hora de começar a praticar algum esporte…
      Hoje eu me dei esse tempo, umas horas sabáticas. Com a licença da família viajei pra cumprir um sonho antigo: correr a prova mais tradicional do país. As experiências que vêm, como bônus, depende do quanto a gente se dispõe.
      Acordei, na hora que o corpo achou que devia. Não contei calorias, no café da manhã, aliás, tomei café! Andei, sem rumo e sem contar o tempo, pela avenida mais famosa de São Paulo. Entrei numa grande livraria e, mais olhei, ouvi do que comprei. Comi num lugar, que nem sei o nome, refeição completa, digna de rainha: entrada de salada de folhas verdes salpicada de gergelim e granola salgada, cheeseburguer em bagel integral com linhaça e a sobremesa…Ah, a sobremesa!: Delicioso bolo de maçã que derretia na boca, de tão macio, com calda quente de açúcar mascavo e uma bola de sorvete de canela…Depois assisti a um filme. Nada digestivo mas, encantador!
      Não precisei rodar o mundo. Encontrei tantos prazeres, a poucas quadras de distância um do outro. Foi uma questão de, caminhar e aproveitar as chances.
      Prestenção, em 2014!
      010

      A gente continua por aqui. ( E, no Facebook! Pode me procurar, que lá me encontra!)

        “Legião Política”

        Postado por Laély, no dia 04-05-2013 - Categoria: textos - 12 Comentários

        Abro o jornal, todos os dias, e vejo tanta notícia ruim! Especialmente, em relação aos jovens.
        Só neste sábado:
        Jovem de 21 anos é presa ( depois de sair da cadeia há cerca de 6 meses), acusada de tráfico e suspeita de assassinato/ Duas amigas adolescentes, de 14 anos, fogem de casa e simulam sequestro pra justificar o sumiço à família/ Garoto de 15 anos é suspeito de chefiar quadrilha acusada de cometer sequestros relâmpago/ Seis adolescentes detidos por desacato à guarda/ Alunos de 13 anos levam arma à escola…
        Depois de tudo isso eu poderia ser comparada àquelas mulheres ranzinzas, com uma das mãos no quadril, a outra ao céu, clamando: “No meu tempo não era assim! Aonde iremos parar?”
        Mas recobro a esperança na humanidade, especialmente, nos jovens pensantes deste país, ao chegar à página 26 do jornal “A Gazeta” (ES), na seção “Política”, em “Outro Olhar”, e ler o artigo escrito por um universitário, de apenas 2o anos: Gabriel Tebaldi!
        De tão bom, gostaria de reproduzi-lo, aqui. Ei-lo!

        Legião Política

        O cenário brasileiro mostrou-se afinado com as canções de Renato Russo, cujo filme estrou ontem, compondo uma trilha sonora digna de longa metragem

        Ontem, a vida de Renato Russo tomou os cinemas do país. Foi a estreia do filme que conta a história do vocalista da Legião Urbana. Em homenagem, o cenário brasileiro mostrou-se afinado com as canções de Renato, compondo uma trilha sonora digna de longa metragem.

        A educação é a primeira a receber os tons da Legião. De Mimoso do Sul vem o caos: enquanto a escola municipal não é reformada, alunos de 1ª a 5ª série estudam num antigo curral e bebem água de um córrego onde já se encontraram animais mortos. Ainda sem planilha de custos para obra, o máximo que a prefeitura garante é a construção de um poço artesiano. O descaso e a ineficiência do poder público com o chamado “futuro da nação” matam a esperança e levam aos acordes de “Mais uma vez”: “Se você quiser alguém em quem confiar / confie em si mesmo”.

        O filme de Renato Russo declara: ?Somos tão jovens?. Já o nosso script do dia a dia não poderia ser outro: ?Que país é esse??
        A certeza da beira do abismo ganhou a mídia nesta semana e tem nome: Gabriela Natália. Ou Lola Benvenutti. Formada em Letras, Gabriela é garota de programa e explica o porquê: “Dando aula você quase não se sustenta”. A professora diz que, quando ingressou na UFSCar, sonhava em mudar o país. Diante da realidade, Renato Russo cantou “Índios”: “Nos deram espelhos / e vimos um mundo doente. / Tentei chorar / e não consegui”.

        A informação também vive ameaçada. E não só pela censura de quem diz já ter lutado por liberdade. Em 2012, o Brasil foi o terceiro país onde mais jornalistas foram mortos, perdendo apenas para Síria e Somália. Assim, vive-se o conflito entre a missão de informar e o desejo de viver. A canção “Há Tempos” compõe a vinheta do jornalismo: “Há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade / Só o acaso estende os braços / A quem busca abrigo e proteção”.

        Indiferente a tudo e todos, os senhores de Brasília vivem o inacreditável, como Renan Calheiros (PMDB), que tem, em sua residência oficial, um mordomo cujo salário é de apenas R$ 18 mil. Despreocupadas com a realidade, as excelências comemoram os “avanços” que só os números veem. A música da festa é “Perfeição”: “Vamos celebrar a estupidez do povo / nossa polícia e televisão / Vamos celebrar nosso governo / e nosso estado que não é nação / Celebrar a juventude sem escolas / as crianças mortas / Celebrar nossa desunião”.

        Por aqui, bandidos condenados têm Legião. Mas não Urbana, e sim de fanáticos que esqueceram o bom senso no mesmo lugar onde colocaram uma estrela no peito. Assim, os defensores de Dirceu, Delúbio e Paulo Cunha travam batalhas contra quem for, seja jornalista seja ministro do STF. As aberrações têm grito de guerra: “Dirceu, guerreiro do povo brasileiro”. Mas, para os soldados lunáticos, melhor seria “A Canção do Senhor da Guerra”: “Existe alguém / que está contando com você…/ Já que nessa guerra / não é ele quem vai morrer./ E quando longe de casa…/ O inimigo você espera / Ele estará com outros velhos / Inventando novos jogos de guerra”.

        Além do exposto, uma questão instiga: como Renato, homossexual assumido, se manifestaria diante do levante fundamentalista no tema? Na próxima semana será votada a proposta que autoriza psicólogos a tratarem gays como doentes. A bancada religiosa, que esquece a laicidade do Estado, celebra a situação. Nosso vocalista também: “Vamos celebrar a intolerância, a incompreensão…/ Vamos celebrar a aberração / toda nossa falta de bom senso…/ Vamos celebrar o horror de tudo isso / com festa, velório e caixão”.

        O longa metragem da política brasileira pode ser finalizado com “Os anjos”, que dá a receita do que aqui se vive: “Pegue duas medidas de estupidez / junte… partes de mentira / Coloque tudo numa forma…/ Com promessas não cumpridas. / Adicione a seguir o ódio e a inveja / as dez colheres cheias de burrice / Mexa tudo e misture bem / E não se esqueça: antes de levar ao forno / temperar com essência de espírito de porco / duas xícaras de indiferença / e um tablete e meio de preguiça”.

        Com roteiro completo, falta-nos apenas o título da obra. O filme de Renato Russo declara: “Somos tão jovens”. Já o nosso script do dia a dia não poderia ser outro: “Que país é esse?”.

        Gabriel Tebaldi (gab_meira@hotmail.com), 20 anos, é estudante de História da UFES( Universidade Federal do Espírito Santo)
        Fonte: A Gazeta

          O “feminismo” do Facebook

          Postado por Laély, no dia 27-04-2013 - Categoria: textos - 4 Comentários

          Rendi-me à facilidade e rapidez de comunicação do Facebook.
          Reitero o convite àqueles que quiserem acompanhar a extensão do blog por lá, com a Láely Fonseca.
          Mas, como toda ferramenta, precisa ser bem usada para render bons resultados.

          Sou contra formatações e estereótipos, mas o artigo a seguir não pretende estabelecer regras-o que fazer, ou não; é apenas um ponto de vista, que merece análise:

          A derrota do feminismo no Facebook
          (Por: KATIE ROIPHE)

          Se, do além-túmulo, Betty Friedan fosse analisar como as mulheres acima dos 30 se comportam no Facebook, temo que ficaria muito decepcionada conosco. Eu me refiro especificamente à tendência de as mulheres usarem fotos de seus filhos em vez de suas próprias nos perfis do Facebook. Você clica no nome de uma amiga e o que aparece na tela não é o rosto dela, mas a foto de uma lourinha de quatro anos dormindo ou de um garoto de boné, correndo na praia. Inofensivamente embutido em um dos nossos métodos preferidos de procrastinação está um poderoso símbolo do novo século. Onde foram parar todas essas mulheres? Um historiador perspicaz pode muito bem perguntar no futuro: o que todas essas crianças em nossas páginas do Facebook dizem sobre “a construção da identidade de mulher” nesse momento específico?

          Muitas dessas mulheres trabalham. Muitas fazem parte de clubes de leitura. Muitas são militantes de determinada causa ou têm interesses que vão além de suas casas. Mas é assim que elas preferem se representar. Essa opção pode parecer trivial, mas a ideia do Facebook é criar uma persona social, uma imagem de quem você é projetada em centenas de quartos, cafés e escritórios em todo o país. Por que então essa imagem seria a de qualquer outra pessoa, não importa o quão ligada ela seja a você, geneticamente ou por qualquer outro laço? Essa escolha parece um retrocesso a uma velha forma de identidade, a uma época em que mulheres eram chamadas de “Senhora John Smith”, em que meninas saudáveis saídas de Vassar enlouqueciam entre aspiradores de pó e caixas de areia. Não que eu não entenda a tentação de botar no Facebook fotos de seus lindos filhos. Eu entendo. Afinal, assim ficamos livres do peso de nos arrumar para aparecer minimamente decentes numa foto e sobretudo nos livramos de todo o trabalho excruciante que envolve sermos nós mesmas. E seu filho de três anos gosta de posar para a câmera. Mas mesmo assim.

          Essas fotos do Facebook sinalizam um autoapagamento mais amplo e ameaçador, um estreitamento de horizonte. Lembre de um jantar ao qual você foi há pouco tempo, e de sua amiga, que na faculdade escreveu um trabalho de conclusão de curso sobre Proust, a mesma que aos 20 anos bebia até as cinco da manhã, uma mulher brilhante e bem-sucedida. Lembre de como, durante todo o jantar, das azeitonas à musse de chocolate, ela só falou dos filhos. Você foi paciente, e porque você ama essa mulher ficou esperando que ela conversasse sobre… o quê? Um livro? Um filme? O noticiário? É verdade que ela fala sobre os filhos com riqueza de detalhes e impressiona pelo rigor, profundidade analítica e graça com que trata o tema; ela poderia mesmo, é inevitável pensar, escrever toda uma dissertação sobre o efeito preciso do estilo pedagógico de um determinado professor sobre seu filho de quatro anos. Mas mesmo assim. Você percebe que do outro lado da mesa, um lado mais animado, estão os homens, falando sobre algo que não são modelos de carrinhos de bebê. Esta cena poderia estar num romance de Jane Austen ou Anthony Trollope, em que os homens se retiram para uma outra sala para beber brandy e falar sobre política ou os acontecimentos recentes. E você volta a prestar atenção na conversa, e a mulher está contando como prepara a merenda do filho. Todas nós, em algum momento, somos esta mulher? É claro que não há nada de errado com um pouco desse papo de criancinha. Mas não chega uma hora em que nos interessamos, também, por outra coisa?

          O mistério é que a mulher que botou a criança em seu lugar no Facebook certamente foi leitora de A mística feminina, O segundo sexo e O mito da beleza e dos blogs Double X ou Jezebel. Está em dia com o papo-cabeça sobre em qual onda do feminismo nos encontramos. E ainda assim assimila com naturalidade esse tipo de apagamento, essa voluntária perda de identidade. Parece dizer: aqui está minha família feliz, nada mais me importa.

          A filha de uma amiga usou durante muito tempo aqueles tênis que apitam. Para um adulto, era inacreditavelmente insuportável o barulho que faziam a cada passo da menina. Uma vez perguntei à minha amiga por que ela não proibia os tais tênis, e ela respondeu: “Porque ela gosta deles!”. Imagine fazer parte dessa nova geração, descobrindo a cada alegre apitada de seus tênis que Galileu estava errado: é você, e não o sol, o centro do universo!

          Não posso deixar de pensar que nossos pais jamais teriam suportado tênis que apitam ou conversas que giram inteiramente em torno de crianças. Eles nos amavam tanto quanto amamos nossos filhos, mas, até onde me lembro, tinham suas próprias vidas, e nós brincávamos em torno delas. Eles não planejavam fins de semana inteiramente em torno de teatro infantil, aulas de arte para crianças, aulas de piano e festinhas de aniversário. Por que, muitos de nós nos perguntamos, nossos filhos não brincam sozinhos? Por que eles não têm a vida interior que, ainda vagamente, lembramos ter em nossas próprias infâncias? A resposta parece óbvia: porque, cheios de boas intenções, nos devotamos excessivamente à educação, ao entretenimento e à formação em geral de nossos filhos. Porque deixamos de lado a ideia de uma vida adulta independente, por não permitirmos que nossos filhos imaginem um lugar para si em seus quartos, no tapete ou no jardim; em suma, por não permitirmos que tenham uma vida própria.

          É claro que o Facebook passa pelo exibicionismo: é uma forma de transformar em espetáculo a sua vida, ou pelo menos a parte dela que você escolhe para mostrar ao mundo lá fora. Os filhos são uma importante realização na vida de alguém e, indiscutivelmente, a mais importante realização – o que não significa que eles sejam quem você é. Pode-se argumentar, é claro, que a vaidade das novas gerações representa um tipo de narcisismo ainda pior e mais sinistro, com as postagens sobre o tipo de chá que estão bebendo. Mas essa forma específica de narcisismo, a exposição destes querubins para criar uma imagem do eu, é para mim mais perturbadora pela verdade que revela. A mensagem subliminar é clara: Eu sou os meus filhos.

          O Facebook sem dúvida facilitou a vida dos mais jovens, pois favorece naturalmente a aproximação de quem não se conhece em festas ou a paquera nos bares. É também perturbadora na troca das fotos dos perfis a clara e deliberada subversão dessa finalidade: essa geração abre mão da própria sexualidade ao substituir o rosto de uma mãe atraente pelo de uma criança inocente. Essa atitude sinaliza um incômodo em ter um mínimo de vaidade. Assim como só usar tênis ou esquecer de cortar o cabelo, essa é uma forma de se tornar desajeitada e invisível, refletindo uma espécie de mommy culture em que é ponto de honra mostrar quão pouco resta em você de uma mulher saudável, articulada, engajada e bem-vestida.

          E se as páginas do Facebook forem apenas o começo? E se depois vierem os passaportes e as carteiras de motorista? E se subitamente as caras de uma geração desaparecerem e bebês radiantes tomarem seus lugares? Quem ficará de luto por essas mulheres desaparecidas? Quando Betty Friedan descansará em paz?

          KATIE ROIPHE (1968) é escritora, jornalista e professora da New York University. Publicou quatro livros de não ficção, dentre eles The morning after: sex, fear and feminism on campus, e o romance Still she haunts me, inspirado na relação entre Lewis Carroll e Alice Lidell. Este artigo faz parte da antologia In praise of messy lives (2012) e foi cedido pela autora para publicação no blog da serrote.

            Tá rindo de quê?…

            Postado por Laély, no dia 17-04-2013 - Categoria: textos - 10 Comentários

            “Quando o gato sai os ratos fazem a festa”. No meu caso saiu a humana, assumiu a felina( ou, a felina que existe na humana)!
            Fizemos uma DR( Discussão da Relação), com direito a muitas afofadas na barriguinha dela, amassar pãozinhos na minha e…decidimos, eu e Chanel, que ela poderá ser uma colunista esporádica do blog, talvez, como comentarista de moda, o que acham?
            Mas, falando mais sério, vamos tratar de humor? Humor, com respeito e dignidade.
            O assunto veio à tona, depois da polêmica cena da “mão boba” de Gerald Thomas subindo, invasivamente, sob o vestido curto e colante de Nicole Bahls, numa matéria para o programa “Penico”(ops!), quer dizer, “Pânico”. A cena repercutiu como uma bomba! Pra quem pegou o bonde andando, entenda, vendo as fotos, aqui!
            A própria Nicole relevou o ato desrespeitoso do diretor de teatro( apesar de, visivelmente constrangida, como provam as imagens), justificando que o trabalho no programa exigiria tolerância à humilhações, inclusive(?!).
            Já Gerald (Mãos de Machista) Thomas, contestador por natureza, comenta em seu blog:
            “TUDO BRINCADEIRA, GENTALIA HIPOCRITA!”
            Seu ato, portanto, deveria ser compreendido ( por nós, “gentalia hipócrita”) como algum tipo de performance contra a objetificação da mulher(?!).
            Então, tá, senhor!
            Deixo a(s) palavra(s) com gente mais sabida que eu, num post do jornalista e doutor em Ciência Política, Leonardo Sakamoto:

            Achou normal o ato de Gerald Thomas? Saiba o que é machismo”

            Tempos atrás uma jornalista levou, sem autorização, um bebê de uma maternidade para provar que o local não tinha segurança. Justificou-se que aquilo era uma reportagem. Não, não era. Era sequestro. Lembro-me dessa história quando li a justificativa do diretor de teatro Gerald Thomas para a cena que protagonizou enfiando a mão sob o vestido de Nicola Bahls sem permissão. ”A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal”, escreveu em sua defesa. Justificou-se que era um alerta à hipocrisia da sociedade, uma performance intimidatória. Não, não era. Era violência.

            “Essa imprensa careta de um sensacionalismo careta. A gente leva tudo da brincadeira e eles não”, reclamou após toda a polêmica levantada. O apresentador do “Pânico”, Emílio Surita, concordou: “estamos em um programa de humor e vamos fazer brincadeiras”.

            Brincadeira, brincadeiras… Pedi a seis comunicadoras (para permanecer no mesmo campo de atuação de Gerald e Emílio) e militantes pelos direitos das mulheres explicarem o que é machismo para quem não vê problemas no comportamento do diretor de teatro. Seguem as respostas:

            E se você, amiga jornalista, sentisse as mãos de um colega apalpar sua bunda enquanto vocês sobem o elevador de um prédio a caminho de mais uma entrevista? Putz, talvez você tenha engordado e aquela calça jeans tenha ficado muito apertada… mais atenção da próxima vez! E você, professora, o que acharia se, no meio de uma reunião com o diretor da escolar, ele espiasse o seu decote (que você jurava que era discreto) e, na sequência, arrumasse um jeitinho de roçar os braços nos seus seios ao se abaixar para apanhar uma caneta? Puxa, talvez você tenha exagerado… aquele decote não era tão discreto. Ou você, doutora advogada, que no meio da reunião sentiu os pés do colega sentado ao seu lado subir por suas canelas, e de repente as mãos dele já estavam nos seus joelhos… por que foi mesmo que você inventou em ir de saia a uma reunião? E você, estudante, que saiu da aula às 11 da noite e, naquela esquina escura, já perto de casa, foi surpreendida por um cara que tapou tua boca, levantou teu vestido, te segurou com força e meteu o pau na tua vagina? Quanta dor! Mas não importa, a culpa foi tua, que usava aquele vestido curto tão tarde… Machismo é muitas coisas. Mas é sobretudo uma violência apoiada na naturalização das desigualdades sociais entre homens e mulheres. É o machismo que, diariamente, tenta se apropriar do nosso corpo e nos subtrair algo que é caro a qualquer ser humano: a nossa autonomia.

            Mariana Pires, jornalista

            Machismo é pensar que o corpo feminino é um território livre para os homens se divertirem, que está à disposição sempre que quiserem entrar. É encarar que um vestido curto e decotado dá permissão para apalpar uma mulher. É se considerar esperto por supostamente estar invertendo a postura inconveniente e intimidadora dos apresentadores de um programa de TV, quando na realidade está reproduzindo a cultura do estupro, que lutamos para denunciar e eliminar. É achar graça de uma situação que invade a intimidade de uma mulher sem o consentimento dela, é considerar uma brincadeira válida “conferir” se a entrevistadora não é uma travesti, causando visível constrangimento a ela. É achar que foi uma ação contra a caretice dos dias de hoje, que fez uma grande performance artística, que abriu os olhos para a hipocrisia da nossa sociedade, quando o que fez foi simplesmente reiterar em frente às câmeras de TV, e banalizar ainda mais, a violência sexual que as mulheres enfrentam cotidianamente, nas ruas, no trabalho, dentro de casa.

            Fernanda Sucupira, jornalista

            O que Gerald Thomas e aquele babaca que passou a mão na sua bunda no ônibus lotado tem em comum? Fácil: os dois acham que têm o direito de violar o corpo da mulher da maneira como bem entenderem. A diferença é apenas o glamour com que tal ação é executada. No primeiro caso, o artista utilizou um argumento relativamente elaborado para forçar sua entrada embaixo da saia da entrevistadora. Segundo ele, o programa “Pânico” objetifica a mulher e, portanto, nada mais natural (?) que protestar contra isso fazendo exatamente a mesma coisa e sendo tão ou mais perverso. Mas, ao fim e ao cabo, o que ele fez não é diferente de todo assédio cotidiano que as mulheres sofrem porque parte do mesmo princípio: vou usar o corpo da mulher para provar meu ponto de vista, seja bulinando, estuprando, batendo ou torturando. E isso é machismo.

            Maíra Kubik Mano, jornalista e cientista política

            O comediante entra na livraria vestido como Adão – é assim que ele trabalha, dia após dia, no seu programa de humor. Usa apenas uma sunguinha cor da pele, com uma folha plástica de parreira cobrindo a genitália. A autora do livro, moça que gosta de fazer polêmica, faz pose de intellectual, mas fala uns palavrões (de nível aceitável, claro, que ela sabe bem como manejar a mídia), o recebe simpaticamente. De repente, Zaz!, ela enfia a mão por baixo da folha de parreira e lhe aplica um pouco gentil afago nos bagos. Consegue imaginar a cena? Não? E sabe por que não? Porque, no mundo este em que vivemos, determinado pela soberania do macho sobre a fêmea, é inaceitável que uma mulher exponha um homem a esse ridículo. Tão inaceitável que você sequer consegue imaginar que existe uma mulher capaz de dar um apertão no saco alheio em rede nacional de TV. Assim, só pra denunciar a cotidiana e dolorida violência contra o homem, não é?

            Cristina Charão, jornalista

            Machismo é um sistema de mentiras que enfraquece o senso crítico, fazendo com que você veja o “mal” em um lugar e o “bem” em outro, se tornando um consumidor-perpetrador que não questiona injustiças sociais. Vejo pessoas demonstrando isso no caso do Gerald Thomas. Dizer que não houve machismo na atitude dele não é dar uma opinião de autoria própria. Não se ganha nada em ver agressões misóginas como “normais”, ganha-se apenas um falso e frágil senso de pertencimento à nossa sociedade patriarcal. Por questões de sobrevivência, a maioria das mulheres é obrigada cotidianamente a transformar e quebrar as regras dessa mesma sociedade machista. É impossível conter essa força. Aos poucos, todos estão se dando conta que feminismo é também uma ciência econômica e social. Mesmo dando outros nomes a ele, o feminismo é praticado por todas as mulheres brasileiras.

            Elisa Gargiulo, documentarista

            O machismo se manifesta de inúmeras – e cada vez mais surpreendentes – maneiras. Mas, uma vez presente, nem o supostamente mais subversivo artista “escapa” de uma de suas formas mais tradicionais: a transformação do corpo da mulher em um objeto a ser utilizado e explorado pelo homem a seu bel prazer. Gerald Thomas pretendeu “responder” a um “jogo de sedução” de Nicole Bahls, mas o fez cometendo uma violência tradicional, no melhor estilo Idade Média, ainda em voga, e nada engraçada. Não ver problemas neste comportamento também não surpreende. O machismo é tão estruturante da identidade brasileira – de homens e mulheres, diga-se de passagem – que há quem veja só piada numa cena dantesca como esta. O humor, neste caso, é um aliado importante da perpetuação do machismo em nossa sociedade. Ele cria uma espécie de redoma de vidro dentro da qual tudo é permitido, inclusive enfiar a mão entre as pernas de uma entrevistadora contra a sua vontade. Não há como ser mais explícito e violento. Manter um sorriso sacana no rosto não muda a agressividade das mãos. E não enxergar isso também é uma manifestação de machismo. Quem não vê onde está o problema, é hora de revisitar seus valores e práticas.

            Bia Barbosa, jornalista

            (Post de Leonardo Sakamoto, em 15/04/2013)

            O assunto renderia uma extensão pra discutir não apenas o machismo, como também os limites éticos do humor. Seria, mesmo, a atitude de Thomas apenas mais uma inocente “brincadeirinha”?
            Pertinente é este documentário, de Pedro Arantes, com a participação de Laerte e do deputado federal Jean Wyllis, “O Riso dos Outros“( são 51′ bem empregados, podem ter certeza):

            E que cada um tire suas conclusões…

              Mulher: respeito e dignidade

              Postado por Laély, no dia 15-03-2013 - Categoria: textos - 13 Comentários

              Entendo que a função de um bom cronista é mostrar um olhar diferente sobre o cotidiano, o comum. Ou então, traduzir, numa linguagem clara e cristalina, aquilo que pensamos, mas não conseguimos expressar tão bem em palavras. Foi essa segunda opção que me fez apreciar este texto, da Lya Luft( embora prefira outros colunistas, como o Roberto Pompeu de Toledo, Reinaldo Azevedo e aquele que não escreve mais para a revista Veja: Diogo Mainardi. E sei que, admitindo essa admiração, publicamente, atrairei desafetos lulistas…). Independente da forma dela escrever, os temas abordados são atuais e casam com meus pensamentos a respeito. Vejamos:


              Mulher: respeito e dignidade

              Algumas datas festivas não me agradam pela mercantilização, pelos presentes excessivos, diversão sem emoção e abraço sem afeto. Quem dá bola para professor, mãe e pai quando há a praia, a balada, bastante bebida? Repito, para não ser mal interpretada, que não é a maioria que age assim, mas cada vez mais sentimos nos ares o aroma da grana fluindo: haja propaganda! Bem antes da Páscoa, coelhos já pululam nas cidades e papais noéis apontam suas belas barbas meses antes do Natal. Mal terminada a temporada de caça a compradores do Dia das Mães, começará a do Dia dos Namorados. Sou contra? Sou muito a favor da troca de carinho, gentileza, pequenas lembranças, de curtir o dia e as pessoas. Sou da banda da vida, dos afetos, da alegria.

              No Dia da Mulher celebra-se a dita liberdade? Nela eu não creio. O que aconteceu com as mulheres nestas décadas foi saírem do jugo do pai, irmãos, marido, até filhos, e começarem a se enxergar, sentir e agir como pessoas. Podem estudar, morar sozinhas, casar com quem quiserem ou não casar, ter filho ou não, dirigir empresas ou ônibus, pilotar aviões, fazer doutorados, brilhar nas ciências ou finanças, enfim: somos gente. Há muito que fazer, um longo caminho a percorrer. Altas executivas ainda são olhadas com desconfiança e às vezes lidam com condições desfavoráveis, culpas atávicas, falta de estrutura da sociedade para aliar profissão a vida pessoal, sobretudo a maternidade. Ainda há quem ganhe menos que homem na mesma função. Ainda há quem tenha de “caprichar dobrado”. Mas as coisas vão se resolvendo na medida em que nos fazemos respeitar.

              É aí que quero chegar: mais do que direitos e liberdade, falar em dignidade e respeito. Minha querida Lygia Fagundes Telles, grande escritora brasileira, já disse que muitas vezes aparecemos “feito pedaços de carne em gancho de açougue antigo”. A mulher despida cada vez mais é objeto de propagandas. Vender automóvel? Mulher de biquíni. Vender comida? Mulher de biquíni. Vender qualquer produto? Mulher meio pelada. Mulher fazendo trejeitos ditos sensuais, caras e bocas, exibindo plásticas nem sempre naturais. Já escrevi que quanto mais falamos em natureza mais distantes dela estamos. Propagandas em que mulheres fazem o marido passar por idiota: ele é preguiçoso demais, mas meu intestino já não é. O inseticida funciona, meu marido dorme no sofá de boca entreaberta…

              Se a propaganda em geral nos usa desse jeito, raramente favorável, é de pensar em que medida nós contribuímos para isso. O sonho de muitas meninas é ser um dia a mulher-maçã, a mulher-melancia, a mulher-melão, ter aqueles assustadores peitos falsos e imensos, aquele traseiro deformado, aquela musculatura de levantador de peso. O ideal de algumas é estar no Big Brother com outros debaixo de um sugestivo edredom. Os homens não nos respeitam, dizemos. É preciso fazer-se tratar como parceira, não como gueixa desejosa de cartões de crédito polpudos ou homéricas cantadas, muito menos acrobacias sexuais que pouco têm a ver com sexo verdadeiro. Acrescento que andamos iludidas com uma avassaladora onda de mitos sobre sexualidade, sensualidade, beleza, resultando em corpos e rostos por vezes deformados, e almas aflitas. Somos bombardeadas por mentiras sobre transas épicas e mil delírios, rapidinho aqui, depressa ali, vendo receitas bizarras sobre segurar seu homem, a literatura dita pornô soft impressionando milhões pelo mundo afora; por toda parte, muito mais ansiedade do que prazer.

              Aqui e ali, meninas precocemente sexualizadas, maquiadas e requebrando inseguras em incongruentes sapatos de salto… jogos de fundo sexual entre pré-adolescentes em festinhas sem a presença de adultos… adolescentes praticamente coagidas a experimentar intimidades que mal entendem… Nisso talvez valesse a pena pensar, rever, quem sabe transformar, na data que nos é dedicada: expor menos carne e cultivar mais sentimentos, pensamentos, valores. Mas talvez eu pareça um fantasma ancestral falando um idioma estranho.

              (Lya Luft é escritora. Artigo extraído da revista Veja [ http://www.veja.com.br ], 13.3.2013, pág. 24.)

                Titica filosófica

                Postado por Laély, no dia 27-02-2013 - Categoria: textos - 3 Comentários


                Todos o dias uma enorme carreta atravessa as apertadas ruas de paralelepípedos da pequena cidade onde moro. Não é necessário vê-la, pra notar sua presença. Apenas, senti-la. Percebe-se no ar…
                Numa dessas manhãs de sorte tive o privilégio de segui-la, devidamente protegida na minha cápsula de vidro hermeticamente fechada, o carro.
                O caminhão passava mas, ninguém passava incólume por ele; eram notórias as reações, sem disfarces: alguns tapavam o nariz, outros abanavam à sua frente, como se pudessem espantar de si o fedor que costuma tomar conta não só dos narizes, mas também das ruas…Não é uma carreta qualquer. É uma carreta lotada, até fazer uma montanha em cima, de titica de galinha!
                É que a cidade mais próxima, a 28km, “é o maior pólo avícola do Estado e segundo produtor de ovos do país, possuindo um plantel de 4 milhões de aves poedeiras.”
                Como jamantas costumam deslocar-se com lentidão, tive tempo para refletir. Siiim! Porque, se sisudos cientistas da Dinamarca e Reino Unido não se acanharam em revelar curioso estudo sobre a flatulência durante voos de avião, por que não fazer elucubrações sobre o odorífico caminhão?!
                Talvez convocássemos os mesmos catedráticos para outra pesquisa: “O Efeito dos eflúvios odorantes das fezes dos galináceos na mente humana”. Alguém poderia questionar a relevância e seriedade de mais essa. Ao menos o título é pomposo e eu teria uma justificativa, com embasamento científico, para meus devaneios. Só garanto uma coisa: não tenho titica na cabeça!
                Mas, voltando ao assunto ou, mergulhando de cabeça nele( se é pra se sujar, que seja por uma boa causa!), pensei: quantas galinhas são necessárias para encher uma caçamba daquelas? Porque, se uma titica incomoda muita gente, um caminhão de titica incomoda muito mais!
                A pergunta foi respondida no terceiro parágrafo: uma andorinha só não faz verão, e nem uma galinha só enche um caminhão mas, 4 milhões dão conta do recado facinho, facinho! A união faz a força ou, o fedor!
                É o caminho de progresso: o que ninguém quer, agricultores pagam caro.
                Você pode até fazer cara feia mas, deveria agradecer a essas pobres galinhas poedeiras e seus excrementos, a bonita alface que acabou de comprar na feira e serviu no almoço. É um ciclo de renascimento. É por uma boa causa.

                Se a experiência acima não lhe pertence, muito bem, meus parabéns! Todavia, sinto informá-lo: pode ter se esquivado dessa mas não, de ter esbarrado, ou até conviver com alguém que, como aquele caminhão de granja, deixa um rastro malcheiroso por onde passa.
                São pessoas que abrem a boca e você sabe que vai precisar tapar o nariz, para uma crítica que só desconstroi, uma observação maliciosa, uma intriguinha aqui, uma fofoca ali, humilhações…O clima pesa.
                Lembrou de alguém?
                Pode ser um colega de trabalho, um chefe que assedia moralmente o empregado, um parente próximo…E, se for você? Já parou pra pensar na influência que exerce para o bem, ou para o mal?
                A questão é relevante o suficiente, a ponto de Paulo lembrar aos cristãos, em Corinto:
                “Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo”( II Coríntios 2:15).
                Mas às vezes saímos por aí efluindo odores mais fedorentos que aquele caminhão de titica, sendo que, como lembrado anteriormente, o segundo cumpre um propósito mais nobre: encher sua barriga!

                Pensei em concluir com alguma citação pertinente, de algum filósofo notório, mas deixo isso pra vocês.
                A propósito: este post deverá concorrer, assim como a pesquisa dos gastroenterologistas europeus, ao “Ig Noble Awards”, na categoria “Literatura”.

                p.s.
                Pra compensar, próximo post (que, espero, seja realmente mais próximo): receita de uma deliciosa e perfumada barrinha de limão!
                Meu sincero agradecimento às carinhosas e respeitosas manifestações de apoio recebidas em meu último post. É por causa disso que a gente insiste e não desiste.
                Chero( bom)!

                  Tirando o pó…

                  Postado por Laély, no dia 17-02-2013 - Categoria: crônicas,filhos,sobre o blog,textos - 70 Comentários

                  O historiador, jornalista e crítico literário( além de, pai de Chico) Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil, descreveu o “desleixo” como uma “palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como ‘saudade’ e que, no seu entender, implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que ‘não vale a pena…’.” ( Destaque meu.)
                  A depressão, também um tipo de abandono( de desejos, planos e perspectivas…), poderia ser considerada “desleixo” emocional: um “dar de ombros” para o cotidiano, como se nada valesse realmente a pena.
                  O desânimo pode ser tanto, que não se tem vontade de explicá-lo. Como cantaria Lulu: “deixa assim ficar subentendido…”
                  Ou, como naquele samba antigo:
                  “Só melancolia os meus olhos trazem
                  Ah, quanta saudade a lembrança traz…”

                  O compositor exprime sentimentos através da sua música. Já eu, tento fazê-lo, escrevendo. Dessa vez, nem isso.
                  Não queria chamar atenção, despertar pena ou, indiferença.
                  Ao contrário de Paulinho da Viola, que ao ver sua Portela passar alegrou-se e cantou:
                  “Foi um rio
                  Que passou em minha vida
                  E meu coração se deixou levar”, queria cantar o mesmo, mas sobre ela, a tristeza.

                  Se eu fosse um empresário abastado, ou líder político qualquer, poderia desembolsar R$22 mil e pagar pacote anti-stress num spa famoso: talvez, voltasse melhor. Como não sou, restam-me “terapias alternativas”: estourar plástico-bolha, ou enfiar a cara no trabalho( enfiar o pé na estrada e correr, também ajuda)!

                  Não sei se explica meu sumiço mas, espero, que me exima de culpa.
                  Porque, se até o papa se sente fraco, dobrado pelo peso da idade e responsabilidades, a ponto de abdicar de tão elevado cargo e ignorar um “chamado” divino, quanto mais, eu!
                  Fechei pra balanço, com direito à plaquinha na porta, de: “Não perturbe!”
                  Precisamos aprender com os gatos a lamber algumas feridas, sozinhos. Acho que nos devemos isso( e, aos outros), de vez em quando.

                  Pelo mais óbvio dos motivos( daqueles admissíveis, pelo menos…): o retorno do filho para a Alemanha.
                  Despedimos-nos no Rio, há cerca de 2 semanas. E parece que lá se foi parte de mim. Sobrou o vácuo…

                  Embora tudo tenha sido combinado previamente e, racionalmente, concordado e apoiado tal decisão, não sabia o quão difícil seria dessa vez. Da primeira, tinha certeza que voltaria…

                  Li a crônica da Danuza Leão, na Cláudia de janeiro. Tenho de concordar com ela: planos a curto, curtíssimo prazo podem salvar o dia, seu humor!
                  Sim, precisamos de planejamentos a médio e a longo prazo, de objetivos( e de buscar meios, para que os alcancemos!) mas, viver de expectativas futuras a perder de vista pode gerar frustrações. Pensemos longe porém, sem tirar os olhos do aqui-agora!

                  O blog completou 4 anos, final de janeiro.
                  Admito: fui mãe desnaturada e não lhe acendi nenhuma vela, não festejei; nem mesmo convencida estava de que haveria motivo para fazê-lo. Mas é importante lembrar.
                  Acho que aqueles me acompanham nesse tempo todo amadureceram, junto comigo e o SaladaLa.
                  Recebi e-mails, algumas mensagens pelo Facebook: todos, de simpatia. Sem cobrança. Apenas, recadinhos: “você faz falta”, “seu blog me inspira”…
                  Como continuar achando que “não vale a pena”?!
                  Então, pensei que uma hora precisaria sair do casulo e admitir, também: sou como o papa ou, depois dessa mudança de paradigma, como qualquer outro filho de Deus.
                  Pensei no recado indireto que a Danuza me deu( bem lembrado, pela amiga Rosana Sperotto) e comecei este post. Sendo coerente com o que escrevi, lá em cima, “desleixadamente” posterguei sua conclusão.
                  Há 1 semana, ensaio: abro o editor, escrevo, apago, fecho…releio, no outro dia. Acho tudo uma pieguice…
                  Talvez esteja enferrujada.
                  Dizem que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Não sou de folia, mas declaro oficialmente aberto o 5° ano do blog!
                  Não sei como será daqui pra frente, se “tudo diferente” mas, a curto prazo meu plano é este: desencantar, desencalhar, desempoeirar, desempoleirar, desopilar…
                  É hora, mesmo que atrasada, de festejar!

                  “Eu refleti na lição
                  Da minha vida insana:
                  Cuide bem daqueles que você chama de seus
                  E mantenha as boas companhias.”
                  ( Queen)
                  Um abraço bem grande!

                  ( E esse cara, aí de cima, foi aprovado no Studienkolleg bei den Universitäten des Freistaates Bayern, em Munich. Traduzindo: por enquanto, mais um ano longe. Propus-me, então, a não fazer planos num prazo maior que esse…)

                    “Borges, o gato”

                    Postado por Laély, no dia 13-01-2013 - Categoria: gatinhos,textos - 2 Comentários

                    Blog, em ritmo de férias…
                    Os ailurófilos (amantes de gatos) provavelmente já conhecem, mas gostaria de indicar um blog que é prato cheio para amantes e simpatizantes dos felinos: trata-se do Borges, o gato.
                    “Borges é o gato subcelebridade da web que vive o maior Reality Cat do mundo. Foi adotado por @emanoelleoname e @cacofonias em 26 de setembro de 2011. É exímio caçador de mouses e adora ler os livros de seu xará, o escritor Jorge Luís Borges.”
                    Borges, o gato, assume a autoria dos posts, que vão desde fotos de suas travessuras, memes até historinhas pra cat dormir.
                    13
                    Então, a dica cultural de hoje é um texto felino muito interessante:

                    A madeira ganhou vida e voou

                    Fãs,

                    Quando eu era pequeno, vovó tinha um tucano em sua casa (veja aqui: http://borgesogato.com/2012/02/04/que-passarinho-grande/) e eu não conseguia caçar o tucano porque ele era muito grande. Com o tempo, eu cresci e já não queria caçar o tucano, não por causa do seu tamanho, mas porque descobri que ele era de madeira. O tio Grey quando chegou em seu castelo, transformou o tucano de madeira em um adorno seu.

                    É de surpreender que, outro dia, tio Grey entrou assustado em nossa suíte e disse que seu pássaro de madeira tinha ido embora. Quando olhamos pra casa do vizinho, tava lá o tucano em carne, osso e bico. Tio Grey perguntou como podia ser, se ontem ele era madeira pura, agora tava por aí voando. E eu expliquei pro Grey que já tinha lido nos livros várias histórias assim, de homem que era de barro e saiu andando; de um menino que foi esculpido em madeira e saiu falando… o tucano era mais uma história dessas que são tão verdade que parecem contos de fadas.

                    Ass.: Borges, o gato – @borgesogato
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                    O tucano de madeira era o adorno do tio Grey
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                    Nós ficamos impressionados quando o tucano de madeira saiu voando e nos deixou
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                    O tucano ganhou vida, deixou o castelo do tio Grey e foi pousar na varanda do vizinho

                    Prazer em conhecê-lo, Borges!
                    Pra quem quiser acompanhar as peripécias do gato no Facebook é só curtir a Fan Page dele!