Abro o jornal, todos os dias, e vejo tanta notícia ruim! Especialmente, em relação aos jovens.
Só neste sábado:
Jovem de 21 anos é presa ( depois de sair da cadeia há cerca de 6 meses), acusada de tráfico e suspeita de assassinato/ Duas amigas adolescentes, de 14 anos, fogem de casa e simulam sequestro pra justificar o sumiço à família/ Garoto de 15 anos é suspeito de chefiar quadrilha acusada de cometer sequestros relâmpago/ Seis adolescentes detidos por desacato à guarda/ Alunos de 13 anos levam arma à escola…
Depois de tudo isso eu poderia ser comparada àquelas mulheres ranzinzas, com uma das mãos no quadril, a outra ao céu, clamando: “No meu tempo não era assim! Aonde iremos parar?”
Mas recobro a esperança na humanidade, especialmente, nos jovens pensantes deste país, ao chegar à página 26 do jornal “A Gazeta” (ES), na seção “Política”, em “Outro Olhar”, e ler o artigo escrito por um universitário, de apenas 2o anos: Gabriel Tebaldi!
De tão bom, gostaria de reproduzi-lo, aqui. Ei-lo!
Legião Política
O cenário brasileiro mostrou-se afinado com as canções de Renato Russo, cujo filme estrou ontem, compondo uma trilha sonora digna de longa metragem
Ontem, a vida de Renato Russo tomou os cinemas do país. Foi a estreia do filme que conta a história do vocalista da Legião Urbana. Em homenagem, o cenário brasileiro mostrou-se afinado com as canções de Renato, compondo uma trilha sonora digna de longa metragem.
A educação é a primeira a receber os tons da Legião. De Mimoso do Sul vem o caos: enquanto a escola municipal não é reformada, alunos de 1ª a 5ª série estudam num antigo curral e bebem água de um córrego onde já se encontraram animais mortos. Ainda sem planilha de custos para obra, o máximo que a prefeitura garante é a construção de um poço artesiano. O descaso e a ineficiência do poder público com o chamado “futuro da nação” matam a esperança e levam aos acordes de “Mais uma vez”: “Se você quiser alguém em quem confiar / confie em si mesmo”.
O filme de Renato Russo declara: ?Somos tão jovens?. Já o nosso script do dia a dia não poderia ser outro: ?Que país é esse??
A certeza da beira do abismo ganhou a mídia nesta semana e tem nome: Gabriela Natália. Ou Lola Benvenutti. Formada em Letras, Gabriela é garota de programa e explica o porquê: “Dando aula você quase não se sustenta”. A professora diz que, quando ingressou na UFSCar, sonhava em mudar o país. Diante da realidade, Renato Russo cantou “Índios”: “Nos deram espelhos / e vimos um mundo doente. / Tentei chorar / e não consegui”.
A informação também vive ameaçada. E não só pela censura de quem diz já ter lutado por liberdade. Em 2012, o Brasil foi o terceiro país onde mais jornalistas foram mortos, perdendo apenas para Síria e Somália. Assim, vive-se o conflito entre a missão de informar e o desejo de viver. A canção “Há Tempos” compõe a vinheta do jornalismo: “Há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade / Só o acaso estende os braços / A quem busca abrigo e proteção”.
Indiferente a tudo e todos, os senhores de Brasília vivem o inacreditável, como Renan Calheiros (PMDB), que tem, em sua residência oficial, um mordomo cujo salário é de apenas R$ 18 mil. Despreocupadas com a realidade, as excelências comemoram os “avanços” que só os números veem. A música da festa é “Perfeição”: “Vamos celebrar a estupidez do povo / nossa polícia e televisão / Vamos celebrar nosso governo / e nosso estado que não é nação / Celebrar a juventude sem escolas / as crianças mortas / Celebrar nossa desunião”.
Por aqui, bandidos condenados têm Legião. Mas não Urbana, e sim de fanáticos que esqueceram o bom senso no mesmo lugar onde colocaram uma estrela no peito. Assim, os defensores de Dirceu, Delúbio e Paulo Cunha travam batalhas contra quem for, seja jornalista seja ministro do STF. As aberrações têm grito de guerra: “Dirceu, guerreiro do povo brasileiro”. Mas, para os soldados lunáticos, melhor seria “A Canção do Senhor da Guerra”: “Existe alguém / que está contando com você…/ Já que nessa guerra / não é ele quem vai morrer./ E quando longe de casa…/ O inimigo você espera / Ele estará com outros velhos / Inventando novos jogos de guerra”.
Além do exposto, uma questão instiga: como Renato, homossexual assumido, se manifestaria diante do levante fundamentalista no tema? Na próxima semana será votada a proposta que autoriza psicólogos a tratarem gays como doentes. A bancada religiosa, que esquece a laicidade do Estado, celebra a situação. Nosso vocalista também: “Vamos celebrar a intolerância, a incompreensão…/ Vamos celebrar a aberração / toda nossa falta de bom senso…/ Vamos celebrar o horror de tudo isso / com festa, velório e caixão”.
O longa metragem da política brasileira pode ser finalizado com “Os anjos”, que dá a receita do que aqui se vive: “Pegue duas medidas de estupidez / junte… partes de mentira / Coloque tudo numa forma…/ Com promessas não cumpridas. / Adicione a seguir o ódio e a inveja / as dez colheres cheias de burrice / Mexa tudo e misture bem / E não se esqueça: antes de levar ao forno / temperar com essência de espírito de porco / duas xícaras de indiferença / e um tablete e meio de preguiça”.
Com roteiro completo, falta-nos apenas o título da obra. O filme de Renato Russo declara: “Somos tão jovens”. Já o nosso script do dia a dia não poderia ser outro: “Que país é esse?”.
Gabriel Tebaldi (gab_meira@hotmail.com), 20 anos, é estudante de História da UFES( Universidade Federal do Espírito Santo)
Fonte: A Gazeta




















