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“O dente mole de todos nós”

Postado por Laély, no dia 29-11-2013 - Categoria: crônicas,Dicas de blogs - 8 Comentários

A gente se apega a tanta coisa que considera importante, indispensável, só por medo de  mudar.
Silmara Franco* tirou as palavras da minha boca. Fiquei sem, mas às vezes é preciso calar e pensar…

O dente mole de todos nós

Nina passou semanas com um dente-de-leite mole. Preso apenas por um fiapo, num cai-não-cai de dar aflição. Mas ela se recusava a deixá-lo ir. Não permitia que ninguém chegasse perto do dente moribundo. Enfrentou situações complicadas. O dente mole a atrapalhava para mastigar, beber, tomar sorvete, falar. Sem abrir mão dele, seu lema parecia ser: “Mais vale um dente velho, mole e conhecido que uma “janelinha” aberta para o (dente) novo e desconhecido.

Eu, encarnando a mãe-dentista, tentava persuadi-la, “Não vai doer nada”, “Vou bem devagar”. Nem. Ela travava os lábios, fazendo a guarda do dente frouxo.

Vaidade? Talvez. A Barbie nunca ficou banguela na vida.

Medo? Sim. De um possível sofrimento, de uma eventual dor. Medo do novo, enfim. Ou nem tanto, posto que não era o primeiro dente a cair. Mas o medo velhaco, às vezes, se traveste de novidade. Só para assustar quem não arrisca. Buuu.

***

Todo mundo tem um “dente mole” na vida. Ou mais de um. Vai dizer que não? Aquele incômodo – físico, mental, material – com o qual se aprendeu, ou se acostumou, a conviver. Aquele, tão de casa. Aquele, que passou da hora de ser resolvido. Aquele, que nem precisava mais estar ali, mas está. Aquele, que simplesmente vai ficando.

O MBA medíocre e sem sentido. O trabalho tedioso e o chefe massacrante. O namorado ogro e babaca. O apartamento mal iluminado e estreito, onde não cabe nem um sonho. A rede social viciante, sugadora de tempo e energia. A operadora de celular que age de má fé e a loja que atende mal. O excesso de peso e a falta de dinheiro. A dor nas costas, a enxaqueca, a alergia.

Tem pessoas que, tão logo a coisa fique antiga ou desconfortável, como um simbólico dente que começa a amolecer e implorar pelo caminho natural da renovação, o extraem, sem dó, nem piedade. Livram-se num piscar de olhos, sem dramas, sem delongas, sem chorumela. Xô!

E tem as que mantêm seus “dentes moles” ad aeternum. Numa espécie de validação do hábito, de apego à rotina, de receio do que vem depois. Ainda que seja um estorvo.

***

Acabou que o dente da Nina se foi. Estavam unidos por um breve fio de pensamento. Ela deixou, enfim, que eu o tocasse. O suficiente para que o pedaço de osso sem vida, ploc!, saísse na minha mão. Ela abriu um olhão deste tamanho, aliviada. Ela, que já tem outras janelinhas, agora exibe um sorriso-varanda.

***

Anda. Arranca você também o seu “dente mole”. Quem sabe a Fada, não a do Dente, mas a da Atitude, passe pela sua casa à noite e deixe um presente sob seu travesseiro.

( *Silmara Franco é paulistana, publicitária e escritora, autora do Fio da Meada.)

    “O tempero da minha mãe”

    Postado por Laély, no dia 06-11-2013 - Categoria: crônicas,filhos - 10 Comentários

    Admiro muito a Silmara Franco! A mulher, cronista, escritora, mãe, amante dos animais e amiga virtual( que tive o privilégio de conhecer pessoalmente, um tempo atrás)!
    Esta crônica, que ela escreveu há pouco, é apenas um preâmbulo para o post seguinte:

    O tempero da minha mãe
    Silmara Franco

    Junte cebola, alho, cheiro verde, óleo e sal. Ponha tudo no liquidificador e bata bem. Despeje a mistura em vidros vazios, tampe e leve à geladeira. Use para refogar qualquer coisa. Em cinco ingredientes, eis a receita das minhas lembranças. Rendimento: uma infância inteira.

    Dona Angelina preparava o próprio tempero. Para economizar tempo e dinheiro – talvez mais dinheiro que tempo. Lembro do óleo aquecendo na panela, afoito, esperando pelo tempero, que vinha em generosa colherada. Quando eles se encontravam, era uma farra, chiiiiiii. A casa inteira ficava sabendo do abraço dos dois. Logo em seguida, chegavam os grãos de arroz, lavados e escorridos. Noutra panela, outra farra, agora com centenas de feijões recém-cozidos na pressão. Era sempre festa no fogão da minha mãe. Na cozinha, sua oração. E o tempero, artesanal, era sua pegada. O rastro saboroso pontuando o alimento que nos fez crescer, feito planta.

    Bem que tento. Mas é impossível reproduzir o tempero dela. Por mais que eu siga o modo de fazer (afinal, cebola é cebola, alho é alho), falta um ingrediente etéreo, invisível, secreto. Falta ela.

    Liquidifiquei minhas recordações no turbilhão impiedoso do tempo. Misturei tudo, Natal com Páscoa, aniversário com Dia das Crianças. Mas o aroma do tempero dela está bem guardado no nariz da minha memória. De vez em quando, ele surge d’algum vento brincalhão. Inspiro o quanto posso, para tentar retê-lo e guardá-lo num vidro bem tampado, à prova de despedidas. Se eu fosse descrever a cor desse cheiro, seria verde.

    Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.

    Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo “Parece a torta de legumes da mamãe” ou “É igual ao creme de abóbora que ela fazia”?

    No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?

    Tantas coisas faço igual à minha mãe, e nem sei que faço. É a herança genética e silenciosa, a perpetuar a nossa espécie e algum tipo de amor. Talvez eu dobre roupas como ela, talvez eu lave pratos como ela, talvez eu abotoe um vestido como ela, talvez eu tenha um jeito de mexer nos cabelos como ela. Talvez até meu tempero guarde em seu DNA a centelha materna. Não podemos mais medir nossas semelhanças em tempo real. É uma constatação, não um lamento.

    Há quatro vidros repletos de tempero na geladeira, fiz no comecinho do mês. Ficou bom. Mas não é igual ao dela. É idêntico a mim. Sou eu, deixando a minha pegada no caminho da minha gente.

    O texto bem temperado é da Silmara, mas o filho é meu:
    IMG_20131025_122652
    Vinícius veio da Alemanha fazer uma prova e passar uns dias conosco. Foi uma semana intensa, que passou mais rápido do que desejaríamos…

      “O quase avesso de um elogio à beleza”

      Postado por Laély, no dia 27-10-2013 - Categoria: crônicas - 8 Comentários

      Em tempos de internet e redes sociais alimentando vaidades pessoais, vale a leitura da crônica da Maria Sanz Martins, na revista.AG de hoje:
      E só pra não nos cobrarmos tanto, gostar de ser “curtido”, “seguido”, “compartilhado” e elogiado vem de berço.
      Enjoy it!

      O quase avesso de um elogio à beleza
      Antes de conversarmos um pouco sobre o elogio, cuidemos mais da beleza

      MARIA SANZ MARTINS | marysnt@hotmail.com

       

      Encantadora, hipnotiza.

      Sedutora, suborna a atenção.

      Imperativa, provoca elogios – não necessariamente verbais, claro.

      Elogios são formas de gentileza, atenção, olhares, ou simples, cooperação. Tudo automático porque a beleza, literalmente, impulsiona.

      Para além do racional, reagimos quimicamente às substâncias que são instantaneamente produzidas no cérebro diante do sinal de qualquer coisa que nos pareça bela.

      Sabia que no livro “A lei do mais Belo”, escrito pela cientista norte-americana Nancy Etcoff, existe um dado curioso: “Da infância à idade adulta, as pessoas bonitas são tratadas preferencialmente e vistas positivamente (…). Indivíduos belos têm mais chance de obter clemência no tribunal e conseguir cooperação de estranhos”.

      Também dia desses uma amiga me contou sobre um estudo feito em colégios de ensino fundamental, onde foram colocadas câmeras dentro das salas de aula, sem o conhecimento dos professores, para observar seus comportamentos com relação aos alunos. O que se pode observar, e que chamou a atenção dos estudiosos, foi a diferença na atenção dispensada aos alunos bonitos. Constatou-se que, de forma inconsciente, os professores davam preferência às crianças mais bonitas. Mas como bem se sabe, não são apenas as crianças que gostam e imploram atenção.

      É da própria natureza… O pavão quer ser apreciado, a criança quer ser notada, o homem quer ser desejado e a mulher quer ser elogiada.

      Mas por que esperamos tanto por esse olhar que aplaude?

      Por causa da lei da ação e reação. Ora, assim como a beleza, um elogio também pode provocar uma reação bioquímica para além do racional. Uma sensação que colore, fazendo acender um sinal de que não estamos sozinhos – e não duvide, o mero fato de sermos “aceitos” é o bastante para nos fazermos sentir aquecidos.

      É que passada a infância, todos nós conhecemos um pouco da solidão (e deste ponto em diante, lutamos para afastá-la o quanto possível).

      Saímos de um útero quentinho, para sentir nos lábios a pele nua do seio e sermos banhados por um olhar que tudo premia – seja um sorriso ou um espirro. Somos beijados, abraçados e, mesmo sem saber falar uma única palavra, plenamente compreendidos. Mas com o passar do tempo, o seio é trocado por uma papinha nem-salgada-nem-doce, nem-quente-nem-fria (horrível). Pouco a pouco deixam de nos tocar e fazer carinho com a frequência que faziam. De repente passamos a ter vergonha do nosso corpo e de nossas partes íntimas. Passamos a ser cobrados e a receber castigos.

      Se olhássemos num gráfico, depois dos primeiros anos de vida os sinais de que nossa mera existência proporciona prazer a outras pessoas, declinam. (É drástico).

      O entusiasmo que nos é dispensado passa a depender exclusivamente da nossa performance. Se antes, cortar a franja com a tesoura de cozinha era engraçado, agora é preciso cuidar do que dizemos, do que vestimos, do que comemos e de como penteamos os cabelos. Viramos adultos, definitivamente expulsos do paraíso.

      Por isso, no fundo, no fundo, estamos sempre perseguindo o desejo de sermos amados, beijados, abraçados, aceitos, ou, simplesmente, elogiados.

      E quanto mais, melhor!

      (Será mesmo?)

      É perfeitamente possível dizer que a vaidade é capaz de gerar alguma insanidade. Ora, desde que o mundo é mundo mulheres (lindas) fazem de tudo em nome da beleza. Mas hoje em dia, o gato saiu do saco! Com a opulência de imagens que circulam nas redes sociais e na TV, mulheres e meninas entram em colapso para atingirem o último grito da moda ou da forma física.

      Imagino que para as mães de adolescentes a coisa deve estar difícil. Como explicar para um filho ou uma filha que, sim, é bom ser apreciado (curtido, seguido, aplaudido, elogiado, sei lá), mas o que realmente importa não é nada disso? E fazê-lo entender que ser bacana é muito, mas muito melhor (e mais interessante, mais surpreendente, mais gostoso e mais sabido) do que ser só bonito.

      Digo porque, pessoalmente, tenho olhos que checam o físico, mas só aplaudem o espírito.

        Tirando o pó…

        Postado por Laély, no dia 17-02-2013 - Categoria: crônicas,filhos,sobre o blog,textos - 70 Comentários

        O historiador, jornalista e crítico literário( além de, pai de Chico) Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil, descreveu o “desleixo” como uma “palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como ‘saudade’ e que, no seu entender, implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que ‘não vale a pena…’.” ( Destaque meu.)
        A depressão, também um tipo de abandono( de desejos, planos e perspectivas…), poderia ser considerada “desleixo” emocional: um “dar de ombros” para o cotidiano, como se nada valesse realmente a pena.
        O desânimo pode ser tanto, que não se tem vontade de explicá-lo. Como cantaria Lulu: “deixa assim ficar subentendido…”
        Ou, como naquele samba antigo:
        “Só melancolia os meus olhos trazem
        Ah, quanta saudade a lembrança traz…”

        O compositor exprime sentimentos através da sua música. Já eu, tento fazê-lo, escrevendo. Dessa vez, nem isso.
        Não queria chamar atenção, despertar pena ou, indiferença.
        Ao contrário de Paulinho da Viola, que ao ver sua Portela passar alegrou-se e cantou:
        “Foi um rio
        Que passou em minha vida
        E meu coração se deixou levar”, queria cantar o mesmo, mas sobre ela, a tristeza.

        Se eu fosse um empresário abastado, ou líder político qualquer, poderia desembolsar R$22 mil e pagar pacote anti-stress num spa famoso: talvez, voltasse melhor. Como não sou, restam-me “terapias alternativas”: estourar plástico-bolha, ou enfiar a cara no trabalho( enfiar o pé na estrada e correr, também ajuda)!

        Não sei se explica meu sumiço mas, espero, que me exima de culpa.
        Porque, se até o papa se sente fraco, dobrado pelo peso da idade e responsabilidades, a ponto de abdicar de tão elevado cargo e ignorar um “chamado” divino, quanto mais, eu!
        Fechei pra balanço, com direito à plaquinha na porta, de: “Não perturbe!”
        Precisamos aprender com os gatos a lamber algumas feridas, sozinhos. Acho que nos devemos isso( e, aos outros), de vez em quando.

        Pelo mais óbvio dos motivos( daqueles admissíveis, pelo menos…): o retorno do filho para a Alemanha.
        Despedimos-nos no Rio, há cerca de 2 semanas. E parece que lá se foi parte de mim. Sobrou o vácuo…

        Embora tudo tenha sido combinado previamente e, racionalmente, concordado e apoiado tal decisão, não sabia o quão difícil seria dessa vez. Da primeira, tinha certeza que voltaria…

        Li a crônica da Danuza Leão, na Cláudia de janeiro. Tenho de concordar com ela: planos a curto, curtíssimo prazo podem salvar o dia, seu humor!
        Sim, precisamos de planejamentos a médio e a longo prazo, de objetivos( e de buscar meios, para que os alcancemos!) mas, viver de expectativas futuras a perder de vista pode gerar frustrações. Pensemos longe porém, sem tirar os olhos do aqui-agora!

        O blog completou 4 anos, final de janeiro.
        Admito: fui mãe desnaturada e não lhe acendi nenhuma vela, não festejei; nem mesmo convencida estava de que haveria motivo para fazê-lo. Mas é importante lembrar.
        Acho que aqueles me acompanham nesse tempo todo amadureceram, junto comigo e o SaladaLa.
        Recebi e-mails, algumas mensagens pelo Facebook: todos, de simpatia. Sem cobrança. Apenas, recadinhos: “você faz falta”, “seu blog me inspira”…
        Como continuar achando que “não vale a pena”?!
        Então, pensei que uma hora precisaria sair do casulo e admitir, também: sou como o papa ou, depois dessa mudança de paradigma, como qualquer outro filho de Deus.
        Pensei no recado indireto que a Danuza me deu( bem lembrado, pela amiga Rosana Sperotto) e comecei este post. Sendo coerente com o que escrevi, lá em cima, “desleixadamente” posterguei sua conclusão.
        Há 1 semana, ensaio: abro o editor, escrevo, apago, fecho…releio, no outro dia. Acho tudo uma pieguice…
        Talvez esteja enferrujada.
        Dizem que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Não sou de folia, mas declaro oficialmente aberto o 5° ano do blog!
        Não sei como será daqui pra frente, se “tudo diferente” mas, a curto prazo meu plano é este: desencantar, desencalhar, desempoeirar, desempoleirar, desopilar…
        É hora, mesmo que atrasada, de festejar!

        “Eu refleti na lição
        Da minha vida insana:
        Cuide bem daqueles que você chama de seus
        E mantenha as boas companhias.”
        ( Queen)
        Um abraço bem grande!

        ( E esse cara, aí de cima, foi aprovado no Studienkolleg bei den Universitäten des Freistaates Bayern, em Munich. Traduzindo: por enquanto, mais um ano longe. Propus-me, então, a não fazer planos num prazo maior que esse…)

          “Indiferença ou sabedoria”

          Postado por Laély, no dia 11-07-2012 - Categoria: crônicas,textos - 20 Comentários

          Voltei do Rio na segunda à noite, depois de 5 dias maravilhosos! De fato, foi quando me senti comemorando 43 anos. Em junho passava por uma daquelas crises existenciais, quando simplesmente recomendei( em tom de ordem) ao marido que não organiza-se nenhuma festa de aniversário pra mim.
          Estava aqui, ansiosa pra contar e mostrar os detalhes da prova, mas a máquina digital não aguentou correr 21 Km debaixo de chuva: depois da chegada, recusou-se a funcionar novamente. Um pequeno problema técnico para acessar os dados do cartão de memória que, espero, contornar o mais rápido possível.
          O trecho de avião Rio-Vitória é tão curto( cerca de 45′), que mal tive tempo de atualizar a leitura. Folheei calmamente a revista Cláudia deste mês, dando atenção, inclusive, à colunas que costumo pular.
          Quando vi a Danuza Leão falando sobre “desapego”, no Mais Você, passei a admirá-la mais.
           
          Este é um texto que eu gostaria muito de ter escrito, mas ela, sem saber, o fez pra mim, retratando em palavras muito do que tenho vivido ultimamente. Por isso gostaria de dividi-lo com vocês:

          “Indiferença ou sabedoria”
                Se alguém perguntar se sua vida foi, até agora, um sucesso ou um fracasso, o que você vai responder? Detalhe: se foi destaque da escola de samba na avenida e levantou a arquibancada, fique logo sabendo que não tem nada a ver. Aliás, dinheiro não tem nada a ver, ser deslumbrante também não, ter aparecido em várias capas de revista também não. Então, o que é ter tido uma vida de sucessos? Bem, depende.
                Todos nós já ouvimos da boca de uma mulher muito modesta a frase: “Criei meus filhos, estão todos encaminhados; posso me considerar muito feliz e realizada”. E quem nunca ouviu pessoas que aparentemente têm tudo – por “tudo” entenda-se família, saúde, dinheiro, amor, mesmo que não seja verdadeiro e não necessariamente nessa ordem – se queixando e tentando, inutilmente, entender o significado da vida?
               Temos, quase todos, razões para achar que nossa vida foi gloriosa ou um vale de lágrimas. Você, por exemplo, já deve ter passado por ótimos e por péssimos momentos. Quais ficaram no seu coração? Os melhores ou os piores? Difícil avaliar. Às vezes, a gente se acha uma pessoa privilegiada; outras vezes, uma coitada, dependendo do que mais valoriza naquele momento – pois, conforme a hora, os valores também mudam. Ou será que você se considera uma pessoa coerente?
              Houve um tempo em que seus sonhos se resumiam a passar a vida viajando pelo mundo em jatinhos, comprando tudo o que visse, num turbilhão que não deixasse tempo nem para pensar; isso, sim, seria a felicidade – só que não foi. Depois, tudo o que quis foi encontrar um bom marido, mesmo meio sem graça, que tivesse hora certa para chegar em casa, com um bando de crianças perturbando em volta, para não ter tempo de pensar se era feliz ou infeliz. Isso. sim, seria a felicidade – só que “também não foi.
                 Aí, achou que o importante seria a realização pessoal, independentemente de um homem. Também não foi, mas conseguiu o que parecia impossível; viver sem estar permanentemente apaixonada, ou melhor, sem inventar que estava apaixonada.
                Hoje, se alguém perguntasse se sua vida foi – até agora – um sucesso ou um fracasso você não seria capaz de responder. Foram tantos bons momentos, e tão felizes, que prefere não lembrar. Quanto aos maus momentos, foram também tantos, e tão terríveis, que faz tudo para também não lembrar – e às vezes até consegue.
              Agora, já sabe; às vezes, você acorda feliz – se nem saber por quê -, sai de casa, na primeira esquina tropeça e fica no pior humor da vida. Já dia seguinte, acorda péssima, o telefone toca alguém de quem você gosta, e a vida se toma, ~ repente, boa de ser vivida. É essa certeza de tudo pode mudar em minutos, segundos, que nos ajudam a segurar a onda quando tudo fica difícil. Se as coisas estiverem indo mal, pense em quantas outras ocasiões elas estiveram tão mal quanto, ou até pior, e tudo passou. Não, não reclame, não chore, não se descabele, apenas espere;  se possível, com aquela quase indiferença que já viu tantas vezes nos olhos dos mais velhos, que sabiam que ia passar – porque sempre passa. Essa indiferença pode ser chamada de sabedoria ou experiência, o que, no fundo, é mais menos a mesma coisa.

                                        (Revista CLAUDIA,  julho  de  2012.)

            Meus segredos…

            Postado por Laély, no dia 02-07-2012 - Categoria: crônicas,educação,looks,sobre o blog - 40 Comentários

            “Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
            Isso depende muito de para onde queres ir – respondeu o gato.
            Preocupa-me pouco aonde ir – disse Alice.
            Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas – replicou o gato.”

            O diálogo entre Alice e o gato ilustra o quanto é importante estabelecer metas e planejar estratégias, quando se deseja atingir um determinado objetivo.

            Há cerca de 9 meses gestei uma ideia, aqui na cachola: precisava mudar! Insatisfeita com meu peso, não conseguia encontrar a “saída”, como a perdida Alice. (Relembrando minhas queixas sobre essa insatisfação, neste post aqui, de abril de 2011).
            Mesmo me empenhando nos exercícios, o corpo parecia não responder: resolveu entrar em greve e fazer birra comigo.
            Era necessário atuar noutra frente de batalha porque, emagrecer não é mágica: é matemática! Comer menos do que se consome ou, consumir mais do que se come.

            Reconheci que, depois dos 40, não seria tão fácil quanto imaginava.
            Difícil, sim, impossível, não!

            Achava que comia direitinho, mas resolvi procurar uma nutricionista. Assim, encarei um programa radical seca-gordura.
            O resultado desse comprometimento( e da dupla infalível: dieta&exercício) não poderia ser diferente: nos últimos meses consegui emagrecer 8Kg .
            O fechamento desse ciclo será no próximo domingo, quando participarei da minha primeira prova de longa distância(uma meia maratona), no Rio.

            “-Oh, certamente que hás de chegar, disse o gato, desde que caminhes o suficiente.”

            Concluir uma prova de 21 Km já é caminhar suficientemente. Porém, uma conquista que não se faz da noite para o dia: é quilômetro a quilômetro.

            Embora seja um projeto pessoal, muitas pessoas se identificaram com a minha história, contada em fotos aqui no blog. Notaram diferenças. Algumas me escreveram, querendo saber qual o “meu segredo”.
            Se tivesse descoberto algum, ou fórmula, dessas que propagam pela internet para emagrecer sem esforço, já estaria escrevendo um livro e ganhando muito dinheiro com isso.

            Pensei em contar minha experiência esperando ajudar aqueles que, como eu, ou Alice, procuram uma saída, um caminho, ou apenas, estímulo.

            Como naqueles programas de TV onde a pessoa passa por uma transformação radical, deixo aqui meu “antes&depois”:

            A foto da esquerda foi feita em abril de 2011. A da direita, hoje pela manhã.

            Alguém poderia estranhar o círculo preto no meu rosto, como se estivesse me escondendo. Estaria eu, com VERGONHA do que fui um dia?…
            Jamais porque, assim como o blog mudou de cara nesses 3 anos e meio, eu também posso mudar, ué! E mudar, da ideia de mudar!
            Mas a essência é a mesma! O Sala é da La, não da Le, nem da Li, nem de um fake qualquer. Tem nome, sobrenome, endereço de e-mail, uma família( de humanos, gatos e cachorro), adora música, moda, decoração, cozinhar…Se o que faço é relevante o suficiente para ser publicado?! Sinceramente, não sei.

            Numa entrevista sobre desapego Danuza Leão disse, no Mais Você, que todos deveriam escrever um diário, ou blog para registrar a própria história. Faço apenas isso.

            A foto da E foi “maquiada” e “estrelou” o post, num desses blog que vive de trollar os outros. Recebeu acalorados comentários, como (dentre os que eu poderia transcrever aqui): “cafona”, “brega”, “velha”, “zambeta”, “roupa feia do $%#*&##!”, “ridícula”, “sem valores”…

            Mas já disse, e repito: não tenho VERGONHA!
            Aliás, tenho: VERGONHA na cara e de ver, que muita gente que se diz descolada, de opinião, se esconde atrás do manto seguro do anonimato.

            (Não vou deixar o link do referido blog, porque nunca fez parte da minha política indicar trabalho que não admire e, porque trollagem é bicho faminto: quanto mais o alimentamos, mais nos consome!)

            Ponto.

            Então, como havia prometido, vamos falar de…
            Mas para o post não ficar cansativo, deixarei para contar “meus segredos” no próximo.

            O importante é o seguinte: se está acima do peso, ou foge aos padrões estéticos mas, de bem com a vida, não considerando isso um risco à própria saúde, casamento, bom-humor ou, seja lá o que for…”erga as mãos para o Céu e agradeça!” Seja feliz!
            Mas, se quiser mudar…é só querer!

            (Continua…)

              “Superpais?”

              Postado por Laély, no dia 07-04-2012 - Categoria: crônicas,educação - 11 Comentários

              O assunto já não é tão fresquinho.
              Wanderson nasceu para o anonimato, só interrompido temporariamente pelo rápido e trágico encontro com o carro de Thor.

              No entanto, a jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum(Época) levantou uma questão atemporal: qual é a nossa ética, como pais? Não se limitou ao pensamento pequeno, de: elevar um, em detrimento de outro, mas fez um reflexão profunda, sensata e desapaixonada sobre as atitudes do pai( qualquer pai!) numa situação, como a vivida recentemente por Eike Batista.

              O artigo foi reproduzido à íntegra, aqui:

              Eike Batista, um superpai?

              O comportamento do pai de Thor nos leva a refletir sobre o que é a paternidade em nossa época

              ELIANE BRUM

              Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)

              Na noite de sábado, 17/3, Thor Batista, 20 anos, atropelou Wanderson Pereira dos Santos, 30 anos, na rodovia Washington Luís, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Wanderson morreu na hora. De imediato, Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, passou a defender o filho de todas as maneiras – e também no microblog twitter. Com tanta veemência que o humorista Tutty Vasques comentou em sua coluna no Estadão, de 21/3: “Não satisfeito com o lugar de destaque que ocupa na mídia como o homem mais rico do Brasil, o insaciável Eike Batista tem se esforçado um bocado para virar capa de revista como o Pai do Ano em 2012”. A observação é aguda, como costuma ser o humor de qualidade. E é algo que vale a pena pensar: ao defender o filho com os melhores advogados, com assessores de imprensa e com seu próprio discurso público, Eike Batista é mesmo um superpai? O que se espera hoje de um pai, afinal?

              Ainda que a maioria tenha acompanhado o noticiário, é importante recordar os principais capítulos e seus protagonistas, antes de seguirmos adiante. Assim como é importante fazer algumas perguntas óbvias sobre a investigação.

              Thor é o mais próximo de um príncipe herdeiro que o Brasil atual pode ter: filho do homem mais rico do Brasil e da eterna musa do Carnaval. Como disse Eike Batista (@eikebatista) no twitter: “A mídia e todos vão já já perceber que o Rio tem um Príncipe Harry! O Thor”. Wanderson era ajudante de caminhoneiro e filho de criação de Maria Vicentina Pereira. Thor foi batizado com o nome de um deus nórdico. Ninguém se preocupou em perguntar qual é a origem do nome de Wanderson na mitologia familiar, mas com certeza existe uma história, sempre existe. Thor dirigia um Mercedes SLR McLaren, o mesmo que costumava ser exibido como obra de arte na sala da mansão de sua família. Wanderson, uma bicicleta. Na BR-040, Thor e Wanderson encontraram-se não apenas como dois brasileiros, mas como dois Brasis que raramente se encontrariam de outro modo.

              A vontade de condenar Thor, em um país tão desigual como o nosso, sempre pródigo em presentear os mais ricos com a impunidade, é imediata. É necessário, porém, resistir a ela. Ninguém pode ser condenado sem julgamento, sob hipótese alguma. Da mesma forma, pelos mesmos critérios e também pela sobriedade que a morte de uma pessoa exige, Eike Batista deveria ter resistido a condenar Wanderson.

              Em suas afirmações na imprensa e no twitter, o pai de Thor apressou-se em culpar o morto pela própria morte. E afirmou que Wanderson poderia ter matado não só a si mesmo, como também seu filho e o amigo que o acompanhava – o que é altamente improvável. Segundo pesquisa citada pela jornalista Maria Paola de Salvo, no Blog do Sakamoto, apenas 0,3% dos motoristas envolvidos em atropelamento com vítima fatal morrem.

              Enquanto as investigações não forem concluídas, nenhum de nós – e muito menos Eike – tem o direito de condenar alguém. Até agora, ninguém – nem mesmo Eike – pode afirmar se a morte de Wanderson foi fatalidade ou homicídio. Até agora, ninguém – nem mesmo Eike – pode declarar se a morte de Wanderson é responsabilidade exclusiva da vítima, é responsabilidade exclusiva de Thor ou é responsabilidade de ambos.

              Infelizmente para todos, já pairam dúvidas sobre as investigações. É difícil entender, por exemplo, por que um carro envolvido em uma morte está na casa de Thor, o investigado – e não nas dependências da polícia. Depois da perícia feita no local, o carro foi liberado. As demais diligências seriam feitas na mansão do Jardim Botânico. “No dia seguinte, meu advogado me informou que havia sido feita a perícia do carro no local do acidente, e que o carro teria sido liberado pela PRF para que pudéssemos trazê-lo para casa, garantindo deixá-lo intacto”, afirmou Thor.

              Segundo o próprio Thor relata na conta no twitter que criou para dar sua versão dos fatos, ele primeiro foi para casa, onde seria atendido pelo médico da família, e só depois, por iniciativa própria, foi a um posto da Polícia Rodoviária Federal próximo ao local do acidente para se submeter ao bafômetro e demais procedimentos exigidos em um caso de atropelamento com vítima fatal. O exame deu negativo para a presença de álcool, ao contrário do resultado de Wanderson, que revelou um índice elevado de álcool no sangue.

              Se Thor não fugiu do local – o que não é um ato louvável, como seu pai quer convencer a opinião pública que é, mas uma obrigação –, por que a polícia não fez o que devia fazer, na hora em que devia fazer, por sua própria iniciativa? A conta de Thor no twitter é esta: @Thor631. Nela, é narrada sua versão da cronologia dos fatos. Pensado para defendê-lo e escrito com método, o relato revela mais do que gostaria.

              É uma pena que as partes nebulosas darão, mais uma vez, algum grau de legitimidade às dúvidas sobre a lisura do inquérito policial, mesmo depois da sua conclusão – ou de seu arquivamento. Para o futuro em aberto de Thor, pelo futuro interrompido de Wanderson e para o Brasil, um país partido pela impunidade dos poderosos, seria fundamental que a polícia e o Estado demonstrassem total correção e transparência ao investigar uma morte que envolve o filho do homem mais rico da nação.

              A condenação prévia de Thor nas redes sociais e nas conversas de bar deve-se não apenas à raiva que parte da população teria dos ricos e poderosos, ou à tendência de se colocar ao lado dos mais fracos, mas também à percepção legítima de que os atos criminosos dos ricos e poderosos permanecem impunes. A pressa em acusar e condenar Thor não demonstra apenas histeria ou irresponsabilidade das “massas”, ou mesmo “inveja”, como chegou a ser dito, mas a ansiedade de fazer uma justiça que temem, com todas as razões históricas e objetivas para isso, que não seja feita por quem tem o dever constitucional de fazê-la. Seria, nesse sentido, uma espécie de antecipação e compensação pela justiça que não acreditam que aconteça. E aqui me limito a analisar o fenômeno – e não a defendê-lo.

              Quem é Thor, o filho de Eike Batista? Seu perfil é fascinante e quase obrigatório para compreender o Brasil atual. Basta procurar no Google para encontrar pelo menos uma matéria exemplar sobre sua vida, seus hábitos e seus pensamentos. Aqui, vou me deter apenas em quem é Thor como motorista. Em seu prontuário no Detran constam 51 pontos e 11 multas, parte delas causada por excesso de velocidade. Thor deveria ter perdido a carteira de habilitação por isso, mas não a perdeu. Se a tivesse perdido, como determina a lei, talvez não estivesse dirigindo na noite daquele sábado, e Wanderson possivelmente não estaria morto. Thor ama carros, velocidade e potência. Como declarou em uma entrevista  anterior ao acidente, ele já teve um Aston Martin: “Trouxe de São Paulo e fiz 280 quilômetros por hora na Dutra”.

              Segundo o colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo, em 27 de maio de 2011, a bordo de um Audi placa EBX 0001, Thor atropelou um homem de 86 anos, também em uma bicicleta, na Barra da Tijuca, no Rio. Thor prestou socorro, e sua família pagou todas as despesas médicas. A vítima fraturou o acetábulo (parte da bacia onde a cabeça do fêmur se encaixa) e teve de colocar duas placas e cinco parafusos, além de se submeter à fisioterapia, à hidroterapia e a sessões com psicólogo para superar o trauma. Em entrevista à coluna de Ancelmo Gois, um dos filhos da vítima afirmou não ter registrado queixa nem pedido indenização: “Estávamos preocupados em salvar nosso pai, que também não queria confusão”.

              No dia seguinte à publicação, a vítima, José Griner, hoje com 87 anos, manifestou-se através de uma nota na qual afirma que nem ele nem Thor tiveram culpa: “Houve uma colisão que envolveu a lateral do carro dele e a roda dianteira da minha bicicleta”. Disse mais: “Ele agiu com lisura e deu suporte à minha recuperação”. Que tudo isso nos faz pensar na excelência do “gerenciamento de crise”, faz. Mas o que podemos afirmar é que, em menos de um ano, Thor exibe uma estatística incomum como motorista: atropelou dois ciclistas. Um sobreviveu, o outro não.

              Qual é o papel de um pai em um momento crucial como este? Não há resposta fácil para isso, mas há muitas perguntas que podem ser feitas. E essas perguntas são pertinentes porque a defesa imediata e veemente que Eike Batista fez publicamente do filho ilustram bem o que hoje se acredita ser o papel de um pai.

              Um pai – ou um superpai – seria aquele que defende o filho contra tudo e contra todos, tenha ele ou não razão – e mesmo que ele já tenha 20 anos e seja moral e legalmente responsável por seus atos. Um pai – ou um superpai – afirma a inocência do filho e usa todos os recursos para convencer a opinião pública dela, mesmo que ele não possa garanti-la, já que ninguém ainda pode. Um pai – ou um superpai – usará todos os meios de que dispõe para impedir que o filho seja punido, mesmo se for provado que ele merece a punição.

              Pelo comportamento público de Eike Batista, me parece que ele acredita com sinceridade que esta é a função de um bom pai – ou mesmo de um superpai, já que, pelo que tem demonstrado em sua trajetória de vida, ele não aceitaria nada menos do que ser um supertudo. No twitter, ele assim definiu seu desempenho: “Vou defender como um Leão! Tenho certeza que todo Pai que ama seu Filho faria o mesmo!”. É interessante observar as palavras escolhidas por ele para colocar em maiúsculas.

              O cotidiano mostra que Eike Batista está longe de estar sozinho em sua crença sobre a educação de um filho – e a postura de um pai. Tenho certeza de que muitos leitores aqui compartilham da visão de Eike sobre a paternidade e acham sua defesa e suas ações dignas dos maiores elogios – e fariam o mesmo pelos seus filhos se tivessem a infelicidade de se encontrar em situação semelhante. Esses mesmos leitores afirmariam que isso é prova de amor verdadeiro – que só um superpai pode dar.

              Será?

              Tenho dúvidas. E me arrisco a discordar não só como mãe, mas como cidadã que tem de conviver com os filhos desses pais em todas as esferas da sociedade. Já havia me surpreendido com a atitude da mãe do menino que, em fevereiro, atropelou e matou com um jet ski Grazielly Lames, de 3 anos, que construía castelos de areia na praia de Bertioga, no litoral paulista. Segundo o advogado da família, o adolescente de 13 anos correu para a casa em que estavam hospedados em busca de orientação da mãe. Em vez de voltar e prestar socorro, junto com o filho menor de idade, dando o exemplo do que uma pessoa decente deve fazer, a mãe preferiu fugir com o garoto. A tese da defesa é a de que o adolescente não dirigia o jet ski, “apenas” o ligara. Ou seja, o menino não teria nenhuma responsabilidade e, se tudo der certo do ponto de vista do que os pais  desse menino entendem por dar certo, seu filho não será punido pelo fim da vida de uma criança.

              Os casos guardam diferenças. Mas também semelhanças. Tanto para a mãe do adolescente do jet ski, quanto para o pai de Thor, a proteção de filhos que podem ser responsáveis pelo fim de uma vida parece ser uma preocupação acima de todas as outras. Ambos já decretaram previamente a inocência dos respectivos filhos antes que ela fosse provada. Pode ser que a inocência seja mesmo provada, em um ou em ambos os casos, mas nenhum deles poderia tê-la garantido antes de a investigação ser concluída.

              Vivemos numa época em que se acredita que, ao dar limite para um filho, estamos comprometendo seu projeto de felicidade. E o que é entendido como felicidade? Ter tudo, ter gozo ilimitado. Qualquer imprevisto nesse percurso deve ser apagado, custe o que custar, para não virar trauma – e, assim, comprometer o futuro do filho, que deve passar pela vida sem ser marcado pela vida. Deve fazer marca na história, mas não ser marcado por ela. Neste cálculo, não são admitidos erros, covardias, irresponsabilidades, deslizes, excessos…. máculas.

              Na biografia futura de Thor Batista, que, como seu pai já disse, espera-se que supere a sua em feitos, as máculas devem ser apagadas. Se existirem máculas, é necessário “ligar o dispositivo de administração de crise” – e eliminá-las da linha do tempo. Se alguém errou, foi sempre o outro. Para ter certeza disso não é preciso nem apurar os fatos: o filho de um superpai é automática e previamente inocente. E não acho que essa mentalidade pertence apenas aos mais ricos, apenas que eles têm recursos para garantir essa inocência – e os mais pobres, raramente.

              É legítimo fazer algumas perguntas – que podem ser propostas tanto para Eike Batista como para nós mesmos. Se seu filho já atropelou uma pessoa, será que o melhor é emprestar a ele um dos carros mais velozes do mundo? Se seu filho tem 11 multas e 51 pontos na carteira de habilitação, será que você deveria permitir que ele dirigisse o seu carro, mesmo que o Detran não tenha cumprido seu dever e suspendido a licença? Se seu filho atropelou alguém e essa pessoa morreu, não seria o caso de silenciar até que os fatos fossem esclarecidos, ainda que fosse por respeito à enormidade do que é a morte de um ser humano? O que cada um de nós faria nessa situação? E por quê?

              Acho que é uma situação muito dura para qualquer pai – ou mãe. É duro dizer a um filho que ele errou. Em qualquer escala – e muito mais em uma escala dessa envergadura. É duríssimo. Mas é necessário. Não é fácil ser pai ou mãe exatamente porque a educação se dá nas escolhas difíceis. Educar é, em grande parte, ensinar aos filhos que eles são responsáveis pelos seus atos, dos mais simples aos mais complexos – e devem responder por eles. Mesmo que tudo o que gostaríamos, como pais amorosos, fosse voltar no tempo e apagar o passado.

              Penso que um pai ou uma mãe deve se colocar ao lado do filho não para absolvê-lo, mas para apoiá-lo enquanto ele assume as consequências dos seus atos. Você errou, vai responder por seus erros, e eu vou estar ao seu lado. Ou: não sabemos se você errou, então vamos aguardar a apuração dos fatos. Se for concluído que você não errou, ótimo, mas mesmo assim uma pessoa morreu e é preciso lidar com essa tragédia. Ou: se for concluído que você errou, você vai responder pelos seus erros como a lei determina e um cidadão decente deve fazer, e eu vou ajudá-lo a seguir em frente apesar e a partir disso, aprendendo com a tragédia e não a esquecendo.

              A revolta da opinião pública levou a muitas ironias – entre elas, as com o nome de Thor, o deus nórdico do trovão. Eike Batista seria uma versão contemporânea de Odin, o pai de Thor na mitologia, já que em nossa época é o dinheiro que concede algo próximo a uma divindade terrena. Nesse sentido, é curioso lembrar que nas histórias em quadrinhos inspiradas na mitologia nórdica, Odin expulsou Thor de Asgard. Thor, então um jovem arrogante e impulsivo, em uma de suas aventuras adolescentes invadira o reino dos gigantes de gelo, rompendo o tratado selado por Odin. A honra do pai e sua autoridade entre os deuses dependiam de punir exemplarmente o filho, que com suas ações havia prejudicado a todos e comprometido a segurança de Asgard.

              Thor foi enviado para a Terra – um exílio que significava punição e aprendizado. Ao expulsar Thor, Odin disse a ele: “Tu és o filho favorito de Odin! Além de valente e nobre, tua alma é imaculada! Mas ainda assim és incompleto! Não tens humildade! Para consegui-la deverás conhecer a fraqueza… sentir dor! E para isso necessitas deixar o Reino Dourado e despir-te de tua aparência divina! A Terra, lá aprenderás que ninguém pode ser verdadeiramente forte se, em realidade, não for humilde! Por  um tempo não mais serás o Deus do Trovão! A tua memória também tirarei! Agora, vai! Uma nova vida te espera!”. Thor transformou-se então em um mortal chamado Donald Blake, médico talentoso mas manco. Até que aprendesse o dom da humildade e estivesse apto a cumprir seu destino.

              Por que vale a pena lembrar esse episódio? Porque este é o Thor de Stan Lee, o grande criador da Marvel Comics. E Stan Lee é um homem nascido em 1922, que criou o seu deus do trovão no início da década de 60. Ao tecer o enredo, Lee revela a mentalidade da sua época. E nos mostra como a paternidade – e o que se compreendia como amor e como obrigação de um pai – já foi diferente. Nos lembra, portanto, que a construção da paternidade é cultural. E, portanto, mutante.

              Acredito valer a pena pensar sobre o que é ser pai hoje. E que tipo de consequências essa ideia de paternidade, tão bem ilustrada na relação de Eike Batista com seu Thor da vida real, acarreta para a sociedade como um todo. Este episódio nos leva a várias vertentes de reflexão – e uma das mais interessantes é a nossa relação com os limites na educação de um filho.

              Tenho muito cuidado em tocar em assuntos que envolvem tanta dor. Acho que testemunhar a morte de um ser humano – sendo ou não responsável por ela – é uma experiência devastadora, que deixa marcas profundas, para além da punição legal. Mesmo atropelar um homem de 80 anos e machucá-lo deve ser terrível. Não sei como é estar na pele de Thor. Tentei descobrir pelo twitter como ele se sentia em sua humanidade.

              Primeiro, percebi que Thor estava mais preocupado em garantir sua inocência, provar a culpa do morto e nos convencer da correção de seus atos, assegurando também o apoio material à família da vítima. Depois, na sexta-feira, 23/3, descobri que já tinha mudado de assunto. Thor estava dando a fãs no twitter o que chamou de “dica de endocrinologia do dia”: “Eu recomendo o uso da cabergolina (Dostinex) para baixar a prolactina. Comece com 0,25 mg por semana, por 4 semanas, e dose no sangue”, é um dos tuites. Na sexta-feira, copiei toda a página, como material de pesquisa para esta coluna. Pouco antes de publicá-la, voltei a entrar na sua conta de twitter e constatei que o post reproduzido acima havia sido apagado. Os demais permanecem lá.

              Depois de prescrever uma receita que só um médico poderia, sugerindo inclusive a dose, para seus milhares de seguidores, imagino que alguém o tenha alertado que a postagem era irresponsável e indevida. Thor então escreveu: “Meus comentários sobre endocrinologia são inúteis. Não sou médico, não posso recomendar nada. Apenas gosto de botar para fora conhecimento”.

              Em todo o episódio – trágico de várias maneiras, e de algumas outras que ainda vamos testemunhar – me chamou a atenção – positivamente – o silêncio de Luma de Oliveira, a mãe de Thor. Justamente ela, a celebridade, a ex-modelo, a musa do Carnaval, aquela que tudo expôs de si mesma. Procurada por repórteres, Luma pouco falou. Disse ao jornal O Globo, na sexta-feira 23/3: “Este não é o momento de dar entrevista. É o momento de sentimentos, de solidariedade”. Posso estar sendo ingênua, e a sobriedade de Luma seja apenas mais um cálculo, mas penso que a mãe de Thor estava sendo sincera.

              Thor afirmou no twitter: “A frase que mais admiro é ‘The truth sets you free’. Author: Jesus”. Imagino que a original tenha sido pronunciada em aramaico, mas a tradução da frase postada por Thor seria: “A verdade vos liberta”. É possível. Mas talvez pai e filho um dia descubram, ainda que em seus pesadelos noturnos, naqueles que não se pode controlar mesmo sendo um superpai ou um superfilho, que a verdade é uma criatura complexa e que pode levar a territórios imprevisíveis. Ela pode libertar, sim – mas dificilmente sem dor. E dificilmente sem um profundo e corajoso olhar para dentro.

              (Eliane Brum escreve às segundas-feiras.) 

               

                Flores e viagem grátis!

                Postado por Laély, no dia 11-03-2012 - Categoria: crônicas,natureza - 9 Comentários

                Essa semana foi festejado o “Dia Internacional da Mulher”, o que me fez pensar nas mulheres especiais e essenciais da minha vida, como minha mãe. Mas existem aquelas que aprendemos a admirar, sem obrigação nenhuma, por pura empatia!

                Assim fui apresentada à Silmara Franco, através de uma de suas crônicas: Brincadeira Séria foi a primeira que li e percebi, que estava diante de uma mulher consistente, com “sustança”.

                Passaram-se 3 anos e a admiração só aumentou. Até nos encontrarmos em Campinas, para selar a amizade virtual. Minhas impressões a respeito da pessoa, por trás da escritora, confirmaram-se: linda e elegante, sorriso meigo, delicada, como tudo o que escreve.

                Talvez porque ande numa fase mais sensível, com filho distante, repensando a vida, textos que falem sobre maternidade me toquem, mais ainda.

                Essa semana ela mostrou seu Curriculum mater vitae, engraçado e comovente.

                Mas gostaria de deixar um  presente de domingo:
                Orquídeas
                (Imagem do meu Flickr)

                Além das flores, outro delicioso texto da Silmara, que me fez embarcar numa viagem no tempo:

                Das lembrações essenciais

                Fecho os olhos por cinco segundos: tenho um metro e dez de altura. Visto uma camiseta tamanho 6, estou doida por um picolé e não sei quanto custa a boneca que fala que acabo de pedir para minha mãe. Isso mesmo: eu sou criança.

                Continuo. Ainda tenho um e dez, mas agora posso existir como se tivesse um e sessenta. Sinto como a primeira, penso como a segunda. E lembro, lembro, lembro.

                Este é o exercício das lembrações essenciais, capaz de transportar adultos à infância distante, porém, com os cinco sentidos e a sabedoria (qualquer que tenha acumulado) de hoje. Para que serve? Aprender a se colocar no lugar do outro. Precisamente, no lugar de um filho ou filha que tenha um metro e dez e use camiseta tamanho 6. Um pouco mais, um tanto menos, não faz diferença. O importante é a parte de lembrar.

                Suas memórias hão de se agitar e explodir igual pipoca no microondas. Ficarão cristalinas como a água da piscina onde você nadava com seu pai (e os dois pareciam muito maiores do que realmente eram, lembra?). Serão tão vivas quanto as cores da melhor fotografia que você já fez até hoje.

                E então se dará conta que, na idade que seu filho tem agora, você também tinha vergonhas bobas – de perguntar para o moço da videolocadora se tinha A Bela Adormecida – e medos paralisantes, como quando acabava a energia em casa e você não tinha certeza se sua mãe estava por perto, até que ela clareasse o breu da sua angústia, tocando sua mão e dizendo “Estou aqui, vamos pegar uma vela na cozinha?”. Se lembrará da fúria no olhar da sua avó ao ver os antúrios dela no vaso (ideia sua para enfeitar a mesa), quando encarar seu pequeno confessando ter sido o autor dos desenhos à canetinha nas almofadas, porque achou que assim elas ficariam mais bonitas.

                Vamos lá, você ainda está com um metro e dez de altura. Vai se lembrar, de repente, que também tinha dificuldade para cortar a pizza sozinha, e não entendia o olhar intolerante dos mais velhos.

                Lembrará do seu pânico, solitário e silencioso, no primeiro dia de aula do primeiro ano, quando você não sabia se professores eram pessoas legais ou não, e se você ia poder comprar lanche na cantina, como faziam os alunos mais velhos (os ‘homens’ e ‘mulheres’ de nove anos).

                Lembrará como os braços dos seus pais eram longos e alcançavam qualquer coisa no armário, e você se perguntava quando os seus também seriam assim.

                Se conseguir realizar esse exercício, talvez você saiba que tudo o que pode fazer hoje – dormir e tomar banho na hora que quiser, por exemplo – representa o máximo da liberdade para seu filho.

                Talvez saiba que o medo dele perder você é do mesmo tamanho que o seu de perdê-lo, embora ele ainda não saiba disso e apesar de cada um ter o seu motivo para.

                Talvez saiba por que ele não entende como brócolis pode ser mais importante que biscoito recheado, e que o significado de “fazer sala” não é tão óbvio assim.

                Confesso: eu havia me esquecido completamente de fazer esse exercício. Mas ontem o retomei. Passei o dia inteiro com um metro e dez de altura. E ainda não voltei ao meu tamanho normal.

                ( Silmara Franco-Blog Fio da Meada)

                  Flores são vermelhas…

                  Postado por Laély, no dia 16-10-2011 - Categoria: crônicas,datas especiais - 0 Comentário
                  Outro dia ouvi minha cunhada, professora há muitos anos, contar uma história cujo autor desconhecia. Achei tão interessante que procurei na internet e resolvi reproduzi-la aqui, já que hoje é o dia do professor. 
                  Para todos os educadores, não apenas professores, avaliarem como podem (por atitudes, exemplo e/ou palavras) tolher ou incentivar a criatividade e raciocínio daqueles que orientam:
                  Le jardin de Monet, les iris, Claude Monet, 1900, Paris, musée d'Orsay, huile sur toile 81x 92 cm
                  Le jardin de Monet, les iris
                  Claude Monet, 1900

                  No primeiro dia de escola do pequeno menino
                  Ele pegou alguns lápis coloridos e começou a desenhar.
                  Coloriu o papel inteirinho,
                  porque é assim que via as cores…

                  Mas chegou a professora e disse: 
                  O que é que você está fazendo, meu rapaz?
                  Estou pintando as flores, disse ele.
                  Ela disse:

                  Isso não é hora para artes, menino!
                  E além do mais, flores são vermelhas e verdes!
                  Existe um tempo definido para tudo, meu rapaz.
                  Também há um jeito certo das coisas serem feitas.
                  Você precisa ter respeito pelos outros,
                  porque não é o único.
                  Flores são vermelhas, meu rapaz,
                  Folhas são verdes!
                  Não existe porque ver as flores de outra forma,
                  Além do jeito que elas sempre foram vistas!

                  Mas o pequeno menino disse:
                  Existem tantas cores no arco íris,
                  Tantas cores no sol da manhã,
                  Tantas cores em cada flor e eu vejo todas elas.

                  Pois bem, disse a professora:
                  Você é um respondão! 
                  E o colocou de castigo.
                  -Isso é para seu próprio bem!
                  Você não vai sair daí, enquanto não aprender
                  a dar suas respostas do jeito que elas devem ser!


                  Então ele começou a sentir-se sozinho,
                  pensamentos ruins encheram sua cabeça…
                  Foi até a professora e disse:

                  Flores são vermelhas, folhas são verdes.
                  Não existe porque ver as flores de outra forma
                  Além do jeito que elas sempre foram vistas!

                  O tempo passou, como sempre acontece,
                  Eles mudaram de cidade.
                  Aquele pequeno menino foi para outra escola
                  E isso foi o que ele encontrou:
                  Uma professora sorrindo.
                  Ela disse: pintar tem que ser divertido.
                  Existem tantas cores numa flor,
                  Então, vamos usar todas elas!

                  Mas o pequeno menino pintou flores
                  Em ordenadas fileiras de verde e vermelho.
                  A professora perguntou porquê.
                  Isto foi o que ele disse:
                  Flores são vermelhas, folhas são verdes.
                  Não existe porque ver as flores de outra forma,
                  Além do jeito que elas sempre foram vistas.


                  Fonte: dAqui.


                  (Ainda bem , que a professora de Monet parecia gostar mais de cores…)

                    Admirável Silmara

                    Postado por Laély, no dia 01-10-2011 - Categoria: crônicas - 0 Comentário

                    Conheço a Silmara Franco desse mundo virtual há mais ou menos 2 anos, “apresentada” pela Cris Guerra, do Hoje Vou Assim
                    Foi paixão à primeira lida: Silmara é daquelas poucas pessoas que, de tanto respeito pelas letras( e pela paciência dos outros!), não desperdiçam palavras!
                    Ano passado tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente, na minha passagem por Campinas: a admiração só aumentou porque, além de escrever muito bem, é doce, elegante e simpática.
                    Nas mensagens curtas que trocamos pelo Facebook, deixei-lhe um recado esta semana: caso comprasse um caminhão, seria ela a escolhida para criar a frase do parachoque.
                    O que escreve sempre me provoca: uma exclamação, ou interrogação, que reverberam lá dentro da minha cabeça.
                    Já recomendei outras vezes por aqui, mas o que é bom é para ser divulgado. Portanto, o texto de hoje é dela:
                    Admirável (des)mundo novo

                    Imagem:dAqui

                    Eu envelheço e o mundo vai ficando novo. Meus espelhos estão mais sinceros, e as propagandas, mais mentirosas. Às vezes, eu queria me trocar, me devolver; acho que vim com defeito. Minha translação é lenta, ando atrasada para viver. Parece que o sol se põe dum lado diferente a cada dia, brincando de ser e não ser. Me confundo toda nessa giração. De quantas rotações somos feitos, afinal, no admirável (des)mundo novo?

                    Tenho e-mail, Facebook, Twitter, blog, celular 3G e o diabo a quatro ponto zero. Com quem ou o quê, exatamente, isso tudo me conecta? Agora tudo é descobrível, decifrável. (Exceto o coração de quem ama – ou desama.) Os segredos de Fátima só permanecem ocultos para quem não tem banda larga. As teias sociais capturam até os avisados. E longe, de fato, é um lugar que não existe. Só sei que dependo de água e fibra óptica para viver. Tem dias que preciso mais de uma que da outra. Não conto qual.
                    Vivo, com expansões no lugar de contrações, num parto incessante de ideias desvairadas. Algumas já nascem mortas. Outras vingam; são amamentadas com fé, liberdade e imaginação. Tento escrever meu diário, mas o presente vira memória num piscar de olhos. Sei que a cabeça está cheia quando passo a me procurar, o tempo todo, para conversar. Qualquer hora, mando dizer que não estou.
                    Me alimento de atualizações, bebo a pressa, sempre com pressa, e arroto posts aleatórios. Me embanano diante de tantas opções, no infinito self-service do admirável (des)mundo novo. No entanto, recuso o adoçante, o light, o diet. A vida precisa ser integral.
                    Dei frutos. Mas eles continuam rente ao meu tronco, lambendo sua seiva diária. Eu os protejo e lhe dou sombra. São meus admiráveis filhos novos. Vou imprimindo em mim cicatrizes em forma de tatuagem, enquanto a da cesárea vai desaparecendo. É um recado.
                    Na admirável (des)ordem nova, os pecados são mais complexos. Os dez mandamentos já se multiplicaram: “Não compartilharás em vão”. Desobedeço ao menos um, todos os dias. Deus, eternamente online, nem liga. Testo sua onisciência, imito sua onipresença e não espero pelo castigo. Ele é moderno. Eu, não.

                    Silmara Franco, Fio da Meada