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Tirando o pó…

Postado por Laély, no dia 17-02-2013 - Categoria: crônicas,filhos,sobre o blog,textos - 70 Comentários

O historiador, jornalista e crítico literário( além de, pai de Chico) Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil, descreveu o “desleixo” como uma “palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como ‘saudade’ e que, no seu entender, implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que ‘não vale a pena…’.” ( Destaque meu.)
A depressão, também um tipo de abandono( de desejos, planos e perspectivas…), poderia ser considerada “desleixo” emocional: um “dar de ombros” para o cotidiano, como se nada valesse realmente a pena.
O desânimo pode ser tanto, que não se tem vontade de explicá-lo. Como cantaria Lulu: “deixa assim ficar subentendido…”
Ou, como naquele samba antigo:
“Só melancolia os meus olhos trazem
Ah, quanta saudade a lembrança traz…”

O compositor exprime sentimentos através da sua música. Já eu, tento fazê-lo, escrevendo. Dessa vez, nem isso.
Não queria chamar atenção, despertar pena ou, indiferença.
Ao contrário de Paulinho da Viola, que ao ver sua Portela passar alegrou-se e cantou:
“Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar”, queria cantar o mesmo, mas sobre ela, a tristeza.

Se eu fosse um empresário abastado, ou líder político qualquer, poderia desembolsar R$22 mil e pagar pacote anti-stress num spa famoso: talvez, voltasse melhor. Como não sou, restam-me “terapias alternativas”: estourar plástico-bolha, ou enfiar a cara no trabalho( enfiar o pé na estrada e correr, também ajuda)!

Não sei se explica meu sumiço mas, espero, que me exima de culpa.
Porque, se até o papa se sente fraco, dobrado pelo peso da idade e responsabilidades, a ponto de abdicar de tão elevado cargo e ignorar um “chamado” divino, quanto mais, eu!
Fechei pra balanço, com direito à plaquinha na porta, de: “Não perturbe!”
Precisamos aprender com os gatos a lamber algumas feridas, sozinhos. Acho que nos devemos isso( e, aos outros), de vez em quando.

Pelo mais óbvio dos motivos( daqueles admissíveis, pelo menos…): o retorno do filho para a Alemanha.
Despedimos-nos no Rio, há cerca de 2 semanas. E parece que lá se foi parte de mim. Sobrou o vácuo…

Embora tudo tenha sido combinado previamente e, racionalmente, concordado e apoiado tal decisão, não sabia o quão difícil seria dessa vez. Da primeira, tinha certeza que voltaria…

Li a crônica da Danuza Leão, na Cláudia de janeiro. Tenho de concordar com ela: planos a curto, curtíssimo prazo podem salvar o dia, seu humor!
Sim, precisamos de planejamentos a médio e a longo prazo, de objetivos( e de buscar meios, para que os alcancemos!) mas, viver de expectativas futuras a perder de vista pode gerar frustrações. Pensemos longe porém, sem tirar os olhos do aqui-agora!

O blog completou 4 anos, final de janeiro.
Admito: fui mãe desnaturada e não lhe acendi nenhuma vela, não festejei; nem mesmo convencida estava de que haveria motivo para fazê-lo. Mas é importante lembrar.
Acho que aqueles me acompanham nesse tempo todo amadureceram, junto comigo e o SaladaLa.
Recebi e-mails, algumas mensagens pelo Facebook: todos, de simpatia. Sem cobrança. Apenas, recadinhos: “você faz falta”, “seu blog me inspira”…
Como continuar achando que “não vale a pena”?!
Então, pensei que uma hora precisaria sair do casulo e admitir, também: sou como o papa ou, depois dessa mudança de paradigma, como qualquer outro filho de Deus.
Pensei no recado indireto que a Danuza me deu( bem lembrado, pela amiga Rosana Sperotto) e comecei este post. Sendo coerente com o que escrevi, lá em cima, “desleixadamente” posterguei sua conclusão.
Há 1 semana, ensaio: abro o editor, escrevo, apago, fecho…releio, no outro dia. Acho tudo uma pieguice…
Talvez esteja enferrujada.
Dizem que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Não sou de folia, mas declaro oficialmente aberto o 5° ano do blog!
Não sei como será daqui pra frente, se “tudo diferente” mas, a curto prazo meu plano é este: desencantar, desencalhar, desempoeirar, desempoleirar, desopilar…
É hora, mesmo que atrasada, de festejar!

“Eu refleti na lição
Da minha vida insana:
Cuide bem daqueles que você chama de seus
E mantenha as boas companhias.”
( Queen)
Um abraço bem grande!

( E esse cara, aí de cima, foi aprovado no Studienkolleg bei den Universitäten des Freistaates Bayern, em Munich. Traduzindo: por enquanto, mais um ano longe. Propus-me, então, a não fazer planos num prazo maior que esse…)

    “Indiferença ou sabedoria”

    Postado por Laély, no dia 11-07-2012 - Categoria: crônicas,textos - 20 Comentários

    Voltei do Rio na segunda à noite, depois de 5 dias maravilhosos! De fato, foi quando me senti comemorando 43 anos. Em junho passava por uma daquelas crises existenciais, quando simplesmente recomendei( em tom de ordem) ao marido que não organiza-se nenhuma festa de aniversário pra mim.
    Estava aqui, ansiosa pra contar e mostrar os detalhes da prova, mas a máquina digital não aguentou correr 21 Km debaixo de chuva: depois da chegada, recusou-se a funcionar novamente. Um pequeno problema técnico para acessar os dados do cartão de memória que, espero, contornar o mais rápido possível.
    O trecho de avião Rio-Vitória é tão curto( cerca de 45′), que mal tive tempo de atualizar a leitura. Folheei calmamente a revista Cláudia deste mês, dando atenção, inclusive, à colunas que costumo pular.
    Quando vi a Danuza Leão falando sobre “desapego”, no Mais Você, passei a admirá-la mais.
     
    Este é um texto que eu gostaria muito de ter escrito, mas ela, sem saber, o fez pra mim, retratando em palavras muito do que tenho vivido ultimamente. Por isso gostaria de dividi-lo com vocês:

    “Indiferença ou sabedoria”
          Se alguém perguntar se sua vida foi, até agora, um sucesso ou um fracasso, o que você vai responder? Detalhe: se foi destaque da escola de samba na avenida e levantou a arquibancada, fique logo sabendo que não tem nada a ver. Aliás, dinheiro não tem nada a ver, ser deslumbrante também não, ter aparecido em várias capas de revista também não. Então, o que é ter tido uma vida de sucessos? Bem, depende.
          Todos nós já ouvimos da boca de uma mulher muito modesta a frase: “Criei meus filhos, estão todos encaminhados; posso me considerar muito feliz e realizada”. E quem nunca ouviu pessoas que aparentemente têm tudo – por “tudo” entenda-se família, saúde, dinheiro, amor, mesmo que não seja verdadeiro e não necessariamente nessa ordem – se queixando e tentando, inutilmente, entender o significado da vida?
         Temos, quase todos, razões para achar que nossa vida foi gloriosa ou um vale de lágrimas. Você, por exemplo, já deve ter passado por ótimos e por péssimos momentos. Quais ficaram no seu coração? Os melhores ou os piores? Difícil avaliar. Às vezes, a gente se acha uma pessoa privilegiada; outras vezes, uma coitada, dependendo do que mais valoriza naquele momento – pois, conforme a hora, os valores também mudam. Ou será que você se considera uma pessoa coerente?
        Houve um tempo em que seus sonhos se resumiam a passar a vida viajando pelo mundo em jatinhos, comprando tudo o que visse, num turbilhão que não deixasse tempo nem para pensar; isso, sim, seria a felicidade – só que não foi. Depois, tudo o que quis foi encontrar um bom marido, mesmo meio sem graça, que tivesse hora certa para chegar em casa, com um bando de crianças perturbando em volta, para não ter tempo de pensar se era feliz ou infeliz. Isso. sim, seria a felicidade – só que “também não foi.
           Aí, achou que o importante seria a realização pessoal, independentemente de um homem. Também não foi, mas conseguiu o que parecia impossível; viver sem estar permanentemente apaixonada, ou melhor, sem inventar que estava apaixonada.
          Hoje, se alguém perguntasse se sua vida foi – até agora – um sucesso ou um fracasso você não seria capaz de responder. Foram tantos bons momentos, e tão felizes, que prefere não lembrar. Quanto aos maus momentos, foram também tantos, e tão terríveis, que faz tudo para também não lembrar – e às vezes até consegue.
        Agora, já sabe; às vezes, você acorda feliz – se nem saber por quê -, sai de casa, na primeira esquina tropeça e fica no pior humor da vida. Já dia seguinte, acorda péssima, o telefone toca alguém de quem você gosta, e a vida se toma, ~ repente, boa de ser vivida. É essa certeza de tudo pode mudar em minutos, segundos, que nos ajudam a segurar a onda quando tudo fica difícil. Se as coisas estiverem indo mal, pense em quantas outras ocasiões elas estiveram tão mal quanto, ou até pior, e tudo passou. Não, não reclame, não chore, não se descabele, apenas espere;  se possível, com aquela quase indiferença que já viu tantas vezes nos olhos dos mais velhos, que sabiam que ia passar – porque sempre passa. Essa indiferença pode ser chamada de sabedoria ou experiência, o que, no fundo, é mais menos a mesma coisa.

                                  (Revista CLAUDIA,  julho  de  2012.)

      Meus segredos…

      Postado por Laély, no dia 02-07-2012 - Categoria: crônicas,educação,looks,sobre o blog - 40 Comentários

      “Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
      Isso depende muito de para onde queres ir – respondeu o gato.
      Preocupa-me pouco aonde ir – disse Alice.
      Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas – replicou o gato.”

      O diálogo entre Alice e o gato ilustra o quanto é importante estabelecer metas e planejar estratégias, quando se deseja atingir um determinado objetivo.

      Há cerca de 9 meses gestei uma ideia, aqui na cachola: precisava mudar! Insatisfeita com meu peso, não conseguia encontrar a “saída”, como a perdida Alice. (Relembrando minhas queixas sobre essa insatisfação, neste post aqui, de abril de 2011).
      Mesmo me empenhando nos exercícios, o corpo parecia não responder: resolveu entrar em greve e fazer birra comigo.
      Era necessário atuar noutra frente de batalha porque, emagrecer não é mágica: é matemática! Comer menos do que se consome ou, consumir mais do que se come.

      Reconheci que, depois dos 40, não seria tão fácil quanto imaginava.
      Difícil, sim, impossível, não!

      Achava que comia direitinho, mas resolvi procurar uma nutricionista. Assim, encarei um programa radical seca-gordura.
      O resultado desse comprometimento( e da dupla infalível: dieta&exercício) não poderia ser diferente: nos últimos meses consegui emagrecer 8Kg .
      O fechamento desse ciclo será no próximo domingo, quando participarei da minha primeira prova de longa distância(uma meia maratona), no Rio.

      “-Oh, certamente que hás de chegar, disse o gato, desde que caminhes o suficiente.”

      Concluir uma prova de 21 Km já é caminhar suficientemente. Porém, uma conquista que não se faz da noite para o dia: é quilômetro a quilômetro.

      Embora seja um projeto pessoal, muitas pessoas se identificaram com a minha história, contada em fotos aqui no blog. Notaram diferenças. Algumas me escreveram, querendo saber qual o “meu segredo”.
      Se tivesse descoberto algum, ou fórmula, dessas que propagam pela internet para emagrecer sem esforço, já estaria escrevendo um livro e ganhando muito dinheiro com isso.

      Pensei em contar minha experiência esperando ajudar aqueles que, como eu, ou Alice, procuram uma saída, um caminho, ou apenas, estímulo.

      Como naqueles programas de TV onde a pessoa passa por uma transformação radical, deixo aqui meu “antes&depois”:

      A foto da esquerda foi feita em abril de 2011. A da direita, hoje pela manhã.

      Alguém poderia estranhar o círculo preto no meu rosto, como se estivesse me escondendo. Estaria eu, com VERGONHA do que fui um dia?…
      Jamais porque, assim como o blog mudou de cara nesses 3 anos e meio, eu também posso mudar, ué! E mudar, da ideia de mudar!
      Mas a essência é a mesma! O Sala é da La, não da Le, nem da Li, nem de um fake qualquer. Tem nome, sobrenome, endereço de e-mail, uma família( de humanos, gatos e cachorro), adora música, moda, decoração, cozinhar…Se o que faço é relevante o suficiente para ser publicado?! Sinceramente, não sei.

      Numa entrevista sobre desapego Danuza Leão disse, no Mais Você, que todos deveriam escrever um diário, ou blog para registrar a própria história. Faço apenas isso.

      A foto da E foi “maquiada” e “estrelou” o post, num desses blog que vive de trollar os outros. Recebeu acalorados comentários, como (dentre os que eu poderia transcrever aqui): “cafona”, “brega”, “velha”, “zambeta”, “roupa feia do $%#*&##!”, “ridícula”, “sem valores”…

      Mas já disse, e repito: não tenho VERGONHA!
      Aliás, tenho: VERGONHA na cara e de ver, que muita gente que se diz descolada, de opinião, se esconde atrás do manto seguro do anonimato.

      (Não vou deixar o link do referido blog, porque nunca fez parte da minha política indicar trabalho que não admire e, porque trollagem é bicho faminto: quanto mais o alimentamos, mais nos consome!)

      Ponto.

      Então, como havia prometido, vamos falar de…
      Mas para o post não ficar cansativo, deixarei para contar “meus segredos” no próximo.

      O importante é o seguinte: se está acima do peso, ou foge aos padrões estéticos mas, de bem com a vida, não considerando isso um risco à própria saúde, casamento, bom-humor ou, seja lá o que for…”erga as mãos para o Céu e agradeça!” Seja feliz!
      Mas, se quiser mudar…é só querer!

      (Continua…)

        “Superpais?”

        Postado por Laély, no dia 07-04-2012 - Categoria: crônicas,educação - 11 Comentários

        O assunto já não é tão fresquinho.
        Wanderson nasceu para o anonimato, só interrompido temporariamente pelo rápido e trágico encontro com o carro de Thor.

        No entanto, a jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum(Época) levantou uma questão atemporal: qual é a nossa ética, como pais? Não se limitou ao pensamento pequeno, de: elevar um, em detrimento de outro, mas fez um reflexão profunda, sensata e desapaixonada sobre as atitudes do pai( qualquer pai!) numa situação, como a vivida recentemente por Eike Batista.

        O artigo foi reproduzido à íntegra, aqui:

        Eike Batista, um superpai?

        O comportamento do pai de Thor nos leva a refletir sobre o que é a paternidade em nossa época

        ELIANE BRUM

        Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)

        Na noite de sábado, 17/3, Thor Batista, 20 anos, atropelou Wanderson Pereira dos Santos, 30 anos, na rodovia Washington Luís, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Wanderson morreu na hora. De imediato, Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, passou a defender o filho de todas as maneiras – e também no microblog twitter. Com tanta veemência que o humorista Tutty Vasques comentou em sua coluna no Estadão, de 21/3: “Não satisfeito com o lugar de destaque que ocupa na mídia como o homem mais rico do Brasil, o insaciável Eike Batista tem se esforçado um bocado para virar capa de revista como o Pai do Ano em 2012”. A observação é aguda, como costuma ser o humor de qualidade. E é algo que vale a pena pensar: ao defender o filho com os melhores advogados, com assessores de imprensa e com seu próprio discurso público, Eike Batista é mesmo um superpai? O que se espera hoje de um pai, afinal?

        Ainda que a maioria tenha acompanhado o noticiário, é importante recordar os principais capítulos e seus protagonistas, antes de seguirmos adiante. Assim como é importante fazer algumas perguntas óbvias sobre a investigação.

        Thor é o mais próximo de um príncipe herdeiro que o Brasil atual pode ter: filho do homem mais rico do Brasil e da eterna musa do Carnaval. Como disse Eike Batista (@eikebatista) no twitter: “A mídia e todos vão já já perceber que o Rio tem um Príncipe Harry! O Thor”. Wanderson era ajudante de caminhoneiro e filho de criação de Maria Vicentina Pereira. Thor foi batizado com o nome de um deus nórdico. Ninguém se preocupou em perguntar qual é a origem do nome de Wanderson na mitologia familiar, mas com certeza existe uma história, sempre existe. Thor dirigia um Mercedes SLR McLaren, o mesmo que costumava ser exibido como obra de arte na sala da mansão de sua família. Wanderson, uma bicicleta. Na BR-040, Thor e Wanderson encontraram-se não apenas como dois brasileiros, mas como dois Brasis que raramente se encontrariam de outro modo.

        A vontade de condenar Thor, em um país tão desigual como o nosso, sempre pródigo em presentear os mais ricos com a impunidade, é imediata. É necessário, porém, resistir a ela. Ninguém pode ser condenado sem julgamento, sob hipótese alguma. Da mesma forma, pelos mesmos critérios e também pela sobriedade que a morte de uma pessoa exige, Eike Batista deveria ter resistido a condenar Wanderson.

        Em suas afirmações na imprensa e no twitter, o pai de Thor apressou-se em culpar o morto pela própria morte. E afirmou que Wanderson poderia ter matado não só a si mesmo, como também seu filho e o amigo que o acompanhava – o que é altamente improvável. Segundo pesquisa citada pela jornalista Maria Paola de Salvo, no Blog do Sakamoto, apenas 0,3% dos motoristas envolvidos em atropelamento com vítima fatal morrem.

        Enquanto as investigações não forem concluídas, nenhum de nós – e muito menos Eike – tem o direito de condenar alguém. Até agora, ninguém – nem mesmo Eike – pode afirmar se a morte de Wanderson foi fatalidade ou homicídio. Até agora, ninguém – nem mesmo Eike – pode declarar se a morte de Wanderson é responsabilidade exclusiva da vítima, é responsabilidade exclusiva de Thor ou é responsabilidade de ambos.

        Infelizmente para todos, já pairam dúvidas sobre as investigações. É difícil entender, por exemplo, por que um carro envolvido em uma morte está na casa de Thor, o investigado – e não nas dependências da polícia. Depois da perícia feita no local, o carro foi liberado. As demais diligências seriam feitas na mansão do Jardim Botânico. “No dia seguinte, meu advogado me informou que havia sido feita a perícia do carro no local do acidente, e que o carro teria sido liberado pela PRF para que pudéssemos trazê-lo para casa, garantindo deixá-lo intacto”, afirmou Thor.

        Segundo o próprio Thor relata na conta no twitter que criou para dar sua versão dos fatos, ele primeiro foi para casa, onde seria atendido pelo médico da família, e só depois, por iniciativa própria, foi a um posto da Polícia Rodoviária Federal próximo ao local do acidente para se submeter ao bafômetro e demais procedimentos exigidos em um caso de atropelamento com vítima fatal. O exame deu negativo para a presença de álcool, ao contrário do resultado de Wanderson, que revelou um índice elevado de álcool no sangue.

        Se Thor não fugiu do local – o que não é um ato louvável, como seu pai quer convencer a opinião pública que é, mas uma obrigação –, por que a polícia não fez o que devia fazer, na hora em que devia fazer, por sua própria iniciativa? A conta de Thor no twitter é esta: @Thor631. Nela, é narrada sua versão da cronologia dos fatos. Pensado para defendê-lo e escrito com método, o relato revela mais do que gostaria.

        É uma pena que as partes nebulosas darão, mais uma vez, algum grau de legitimidade às dúvidas sobre a lisura do inquérito policial, mesmo depois da sua conclusão – ou de seu arquivamento. Para o futuro em aberto de Thor, pelo futuro interrompido de Wanderson e para o Brasil, um país partido pela impunidade dos poderosos, seria fundamental que a polícia e o Estado demonstrassem total correção e transparência ao investigar uma morte que envolve o filho do homem mais rico da nação.

        A condenação prévia de Thor nas redes sociais e nas conversas de bar deve-se não apenas à raiva que parte da população teria dos ricos e poderosos, ou à tendência de se colocar ao lado dos mais fracos, mas também à percepção legítima de que os atos criminosos dos ricos e poderosos permanecem impunes. A pressa em acusar e condenar Thor não demonstra apenas histeria ou irresponsabilidade das “massas”, ou mesmo “inveja”, como chegou a ser dito, mas a ansiedade de fazer uma justiça que temem, com todas as razões históricas e objetivas para isso, que não seja feita por quem tem o dever constitucional de fazê-la. Seria, nesse sentido, uma espécie de antecipação e compensação pela justiça que não acreditam que aconteça. E aqui me limito a analisar o fenômeno – e não a defendê-lo.

        Quem é Thor, o filho de Eike Batista? Seu perfil é fascinante e quase obrigatório para compreender o Brasil atual. Basta procurar no Google para encontrar pelo menos uma matéria exemplar sobre sua vida, seus hábitos e seus pensamentos. Aqui, vou me deter apenas em quem é Thor como motorista. Em seu prontuário no Detran constam 51 pontos e 11 multas, parte delas causada por excesso de velocidade. Thor deveria ter perdido a carteira de habilitação por isso, mas não a perdeu. Se a tivesse perdido, como determina a lei, talvez não estivesse dirigindo na noite daquele sábado, e Wanderson possivelmente não estaria morto. Thor ama carros, velocidade e potência. Como declarou em uma entrevista  anterior ao acidente, ele já teve um Aston Martin: “Trouxe de São Paulo e fiz 280 quilômetros por hora na Dutra”.

        Segundo o colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo, em 27 de maio de 2011, a bordo de um Audi placa EBX 0001, Thor atropelou um homem de 86 anos, também em uma bicicleta, na Barra da Tijuca, no Rio. Thor prestou socorro, e sua família pagou todas as despesas médicas. A vítima fraturou o acetábulo (parte da bacia onde a cabeça do fêmur se encaixa) e teve de colocar duas placas e cinco parafusos, além de se submeter à fisioterapia, à hidroterapia e a sessões com psicólogo para superar o trauma. Em entrevista à coluna de Ancelmo Gois, um dos filhos da vítima afirmou não ter registrado queixa nem pedido indenização: “Estávamos preocupados em salvar nosso pai, que também não queria confusão”.

        No dia seguinte à publicação, a vítima, José Griner, hoje com 87 anos, manifestou-se através de uma nota na qual afirma que nem ele nem Thor tiveram culpa: “Houve uma colisão que envolveu a lateral do carro dele e a roda dianteira da minha bicicleta”. Disse mais: “Ele agiu com lisura e deu suporte à minha recuperação”. Que tudo isso nos faz pensar na excelência do “gerenciamento de crise”, faz. Mas o que podemos afirmar é que, em menos de um ano, Thor exibe uma estatística incomum como motorista: atropelou dois ciclistas. Um sobreviveu, o outro não.

        Qual é o papel de um pai em um momento crucial como este? Não há resposta fácil para isso, mas há muitas perguntas que podem ser feitas. E essas perguntas são pertinentes porque a defesa imediata e veemente que Eike Batista fez publicamente do filho ilustram bem o que hoje se acredita ser o papel de um pai.

        Um pai – ou um superpai – seria aquele que defende o filho contra tudo e contra todos, tenha ele ou não razão – e mesmo que ele já tenha 20 anos e seja moral e legalmente responsável por seus atos. Um pai – ou um superpai – afirma a inocência do filho e usa todos os recursos para convencer a opinião pública dela, mesmo que ele não possa garanti-la, já que ninguém ainda pode. Um pai – ou um superpai – usará todos os meios de que dispõe para impedir que o filho seja punido, mesmo se for provado que ele merece a punição.

        Pelo comportamento público de Eike Batista, me parece que ele acredita com sinceridade que esta é a função de um bom pai – ou mesmo de um superpai, já que, pelo que tem demonstrado em sua trajetória de vida, ele não aceitaria nada menos do que ser um supertudo. No twitter, ele assim definiu seu desempenho: “Vou defender como um Leão! Tenho certeza que todo Pai que ama seu Filho faria o mesmo!”. É interessante observar as palavras escolhidas por ele para colocar em maiúsculas.

        O cotidiano mostra que Eike Batista está longe de estar sozinho em sua crença sobre a educação de um filho – e a postura de um pai. Tenho certeza de que muitos leitores aqui compartilham da visão de Eike sobre a paternidade e acham sua defesa e suas ações dignas dos maiores elogios – e fariam o mesmo pelos seus filhos se tivessem a infelicidade de se encontrar em situação semelhante. Esses mesmos leitores afirmariam que isso é prova de amor verdadeiro – que só um superpai pode dar.

        Será?

        Tenho dúvidas. E me arrisco a discordar não só como mãe, mas como cidadã que tem de conviver com os filhos desses pais em todas as esferas da sociedade. Já havia me surpreendido com a atitude da mãe do menino que, em fevereiro, atropelou e matou com um jet ski Grazielly Lames, de 3 anos, que construía castelos de areia na praia de Bertioga, no litoral paulista. Segundo o advogado da família, o adolescente de 13 anos correu para a casa em que estavam hospedados em busca de orientação da mãe. Em vez de voltar e prestar socorro, junto com o filho menor de idade, dando o exemplo do que uma pessoa decente deve fazer, a mãe preferiu fugir com o garoto. A tese da defesa é a de que o adolescente não dirigia o jet ski, “apenas” o ligara. Ou seja, o menino não teria nenhuma responsabilidade e, se tudo der certo do ponto de vista do que os pais  desse menino entendem por dar certo, seu filho não será punido pelo fim da vida de uma criança.

        Os casos guardam diferenças. Mas também semelhanças. Tanto para a mãe do adolescente do jet ski, quanto para o pai de Thor, a proteção de filhos que podem ser responsáveis pelo fim de uma vida parece ser uma preocupação acima de todas as outras. Ambos já decretaram previamente a inocência dos respectivos filhos antes que ela fosse provada. Pode ser que a inocência seja mesmo provada, em um ou em ambos os casos, mas nenhum deles poderia tê-la garantido antes de a investigação ser concluída.

        Vivemos numa época em que se acredita que, ao dar limite para um filho, estamos comprometendo seu projeto de felicidade. E o que é entendido como felicidade? Ter tudo, ter gozo ilimitado. Qualquer imprevisto nesse percurso deve ser apagado, custe o que custar, para não virar trauma – e, assim, comprometer o futuro do filho, que deve passar pela vida sem ser marcado pela vida. Deve fazer marca na história, mas não ser marcado por ela. Neste cálculo, não são admitidos erros, covardias, irresponsabilidades, deslizes, excessos…. máculas.

        Na biografia futura de Thor Batista, que, como seu pai já disse, espera-se que supere a sua em feitos, as máculas devem ser apagadas. Se existirem máculas, é necessário “ligar o dispositivo de administração de crise” – e eliminá-las da linha do tempo. Se alguém errou, foi sempre o outro. Para ter certeza disso não é preciso nem apurar os fatos: o filho de um superpai é automática e previamente inocente. E não acho que essa mentalidade pertence apenas aos mais ricos, apenas que eles têm recursos para garantir essa inocência – e os mais pobres, raramente.

        É legítimo fazer algumas perguntas – que podem ser propostas tanto para Eike Batista como para nós mesmos. Se seu filho já atropelou uma pessoa, será que o melhor é emprestar a ele um dos carros mais velozes do mundo? Se seu filho tem 11 multas e 51 pontos na carteira de habilitação, será que você deveria permitir que ele dirigisse o seu carro, mesmo que o Detran não tenha cumprido seu dever e suspendido a licença? Se seu filho atropelou alguém e essa pessoa morreu, não seria o caso de silenciar até que os fatos fossem esclarecidos, ainda que fosse por respeito à enormidade do que é a morte de um ser humano? O que cada um de nós faria nessa situação? E por quê?

        Acho que é uma situação muito dura para qualquer pai – ou mãe. É duro dizer a um filho que ele errou. Em qualquer escala – e muito mais em uma escala dessa envergadura. É duríssimo. Mas é necessário. Não é fácil ser pai ou mãe exatamente porque a educação se dá nas escolhas difíceis. Educar é, em grande parte, ensinar aos filhos que eles são responsáveis pelos seus atos, dos mais simples aos mais complexos – e devem responder por eles. Mesmo que tudo o que gostaríamos, como pais amorosos, fosse voltar no tempo e apagar o passado.

        Penso que um pai ou uma mãe deve se colocar ao lado do filho não para absolvê-lo, mas para apoiá-lo enquanto ele assume as consequências dos seus atos. Você errou, vai responder por seus erros, e eu vou estar ao seu lado. Ou: não sabemos se você errou, então vamos aguardar a apuração dos fatos. Se for concluído que você não errou, ótimo, mas mesmo assim uma pessoa morreu e é preciso lidar com essa tragédia. Ou: se for concluído que você errou, você vai responder pelos seus erros como a lei determina e um cidadão decente deve fazer, e eu vou ajudá-lo a seguir em frente apesar e a partir disso, aprendendo com a tragédia e não a esquecendo.

        A revolta da opinião pública levou a muitas ironias – entre elas, as com o nome de Thor, o deus nórdico do trovão. Eike Batista seria uma versão contemporânea de Odin, o pai de Thor na mitologia, já que em nossa época é o dinheiro que concede algo próximo a uma divindade terrena. Nesse sentido, é curioso lembrar que nas histórias em quadrinhos inspiradas na mitologia nórdica, Odin expulsou Thor de Asgard. Thor, então um jovem arrogante e impulsivo, em uma de suas aventuras adolescentes invadira o reino dos gigantes de gelo, rompendo o tratado selado por Odin. A honra do pai e sua autoridade entre os deuses dependiam de punir exemplarmente o filho, que com suas ações havia prejudicado a todos e comprometido a segurança de Asgard.

        Thor foi enviado para a Terra – um exílio que significava punição e aprendizado. Ao expulsar Thor, Odin disse a ele: “Tu és o filho favorito de Odin! Além de valente e nobre, tua alma é imaculada! Mas ainda assim és incompleto! Não tens humildade! Para consegui-la deverás conhecer a fraqueza… sentir dor! E para isso necessitas deixar o Reino Dourado e despir-te de tua aparência divina! A Terra, lá aprenderás que ninguém pode ser verdadeiramente forte se, em realidade, não for humilde! Por  um tempo não mais serás o Deus do Trovão! A tua memória também tirarei! Agora, vai! Uma nova vida te espera!”. Thor transformou-se então em um mortal chamado Donald Blake, médico talentoso mas manco. Até que aprendesse o dom da humildade e estivesse apto a cumprir seu destino.

        Por que vale a pena lembrar esse episódio? Porque este é o Thor de Stan Lee, o grande criador da Marvel Comics. E Stan Lee é um homem nascido em 1922, que criou o seu deus do trovão no início da década de 60. Ao tecer o enredo, Lee revela a mentalidade da sua época. E nos mostra como a paternidade – e o que se compreendia como amor e como obrigação de um pai – já foi diferente. Nos lembra, portanto, que a construção da paternidade é cultural. E, portanto, mutante.

        Acredito valer a pena pensar sobre o que é ser pai hoje. E que tipo de consequências essa ideia de paternidade, tão bem ilustrada na relação de Eike Batista com seu Thor da vida real, acarreta para a sociedade como um todo. Este episódio nos leva a várias vertentes de reflexão – e uma das mais interessantes é a nossa relação com os limites na educação de um filho.

        Tenho muito cuidado em tocar em assuntos que envolvem tanta dor. Acho que testemunhar a morte de um ser humano – sendo ou não responsável por ela – é uma experiência devastadora, que deixa marcas profundas, para além da punição legal. Mesmo atropelar um homem de 80 anos e machucá-lo deve ser terrível. Não sei como é estar na pele de Thor. Tentei descobrir pelo twitter como ele se sentia em sua humanidade.

        Primeiro, percebi que Thor estava mais preocupado em garantir sua inocência, provar a culpa do morto e nos convencer da correção de seus atos, assegurando também o apoio material à família da vítima. Depois, na sexta-feira, 23/3, descobri que já tinha mudado de assunto. Thor estava dando a fãs no twitter o que chamou de “dica de endocrinologia do dia”: “Eu recomendo o uso da cabergolina (Dostinex) para baixar a prolactina. Comece com 0,25 mg por semana, por 4 semanas, e dose no sangue”, é um dos tuites. Na sexta-feira, copiei toda a página, como material de pesquisa para esta coluna. Pouco antes de publicá-la, voltei a entrar na sua conta de twitter e constatei que o post reproduzido acima havia sido apagado. Os demais permanecem lá.

        Depois de prescrever uma receita que só um médico poderia, sugerindo inclusive a dose, para seus milhares de seguidores, imagino que alguém o tenha alertado que a postagem era irresponsável e indevida. Thor então escreveu: “Meus comentários sobre endocrinologia são inúteis. Não sou médico, não posso recomendar nada. Apenas gosto de botar para fora conhecimento”.

        Em todo o episódio – trágico de várias maneiras, e de algumas outras que ainda vamos testemunhar – me chamou a atenção – positivamente – o silêncio de Luma de Oliveira, a mãe de Thor. Justamente ela, a celebridade, a ex-modelo, a musa do Carnaval, aquela que tudo expôs de si mesma. Procurada por repórteres, Luma pouco falou. Disse ao jornal O Globo, na sexta-feira 23/3: “Este não é o momento de dar entrevista. É o momento de sentimentos, de solidariedade”. Posso estar sendo ingênua, e a sobriedade de Luma seja apenas mais um cálculo, mas penso que a mãe de Thor estava sendo sincera.

        Thor afirmou no twitter: “A frase que mais admiro é ‘The truth sets you free’. Author: Jesus”. Imagino que a original tenha sido pronunciada em aramaico, mas a tradução da frase postada por Thor seria: “A verdade vos liberta”. É possível. Mas talvez pai e filho um dia descubram, ainda que em seus pesadelos noturnos, naqueles que não se pode controlar mesmo sendo um superpai ou um superfilho, que a verdade é uma criatura complexa e que pode levar a territórios imprevisíveis. Ela pode libertar, sim – mas dificilmente sem dor. E dificilmente sem um profundo e corajoso olhar para dentro.

        (Eliane Brum escreve às segundas-feiras.) 

         

          Flores e viagem grátis!

          Postado por Laély, no dia 11-03-2012 - Categoria: crônicas,natureza - 9 Comentários

          Essa semana foi festejado o “Dia Internacional da Mulher”, o que me fez pensar nas mulheres especiais e essenciais da minha vida, como minha mãe. Mas existem aquelas que aprendemos a admirar, sem obrigação nenhuma, por pura empatia!

          Assim fui apresentada à Silmara Franco, através de uma de suas crônicas: Brincadeira Séria foi a primeira que li e percebi, que estava diante de uma mulher consistente, com “sustança”.

          Passaram-se 3 anos e a admiração só aumentou. Até nos encontrarmos em Campinas, para selar a amizade virtual. Minhas impressões a respeito da pessoa, por trás da escritora, confirmaram-se: linda e elegante, sorriso meigo, delicada, como tudo o que escreve.

          Talvez porque ande numa fase mais sensível, com filho distante, repensando a vida, textos que falem sobre maternidade me toquem, mais ainda.

          Essa semana ela mostrou seu Curriculum mater vitae, engraçado e comovente.

          Mas gostaria de deixar um  presente de domingo:
          Orquídeas
          (Imagem do meu Flickr)

          Além das flores, outro delicioso texto da Silmara, que me fez embarcar numa viagem no tempo:

          Das lembrações essenciais

          Fecho os olhos por cinco segundos: tenho um metro e dez de altura. Visto uma camiseta tamanho 6, estou doida por um picolé e não sei quanto custa a boneca que fala que acabo de pedir para minha mãe. Isso mesmo: eu sou criança.

          Continuo. Ainda tenho um e dez, mas agora posso existir como se tivesse um e sessenta. Sinto como a primeira, penso como a segunda. E lembro, lembro, lembro.

          Este é o exercício das lembrações essenciais, capaz de transportar adultos à infância distante, porém, com os cinco sentidos e a sabedoria (qualquer que tenha acumulado) de hoje. Para que serve? Aprender a se colocar no lugar do outro. Precisamente, no lugar de um filho ou filha que tenha um metro e dez e use camiseta tamanho 6. Um pouco mais, um tanto menos, não faz diferença. O importante é a parte de lembrar.

          Suas memórias hão de se agitar e explodir igual pipoca no microondas. Ficarão cristalinas como a água da piscina onde você nadava com seu pai (e os dois pareciam muito maiores do que realmente eram, lembra?). Serão tão vivas quanto as cores da melhor fotografia que você já fez até hoje.

          E então se dará conta que, na idade que seu filho tem agora, você também tinha vergonhas bobas – de perguntar para o moço da videolocadora se tinha A Bela Adormecida – e medos paralisantes, como quando acabava a energia em casa e você não tinha certeza se sua mãe estava por perto, até que ela clareasse o breu da sua angústia, tocando sua mão e dizendo “Estou aqui, vamos pegar uma vela na cozinha?”. Se lembrará da fúria no olhar da sua avó ao ver os antúrios dela no vaso (ideia sua para enfeitar a mesa), quando encarar seu pequeno confessando ter sido o autor dos desenhos à canetinha nas almofadas, porque achou que assim elas ficariam mais bonitas.

          Vamos lá, você ainda está com um metro e dez de altura. Vai se lembrar, de repente, que também tinha dificuldade para cortar a pizza sozinha, e não entendia o olhar intolerante dos mais velhos.

          Lembrará do seu pânico, solitário e silencioso, no primeiro dia de aula do primeiro ano, quando você não sabia se professores eram pessoas legais ou não, e se você ia poder comprar lanche na cantina, como faziam os alunos mais velhos (os ‘homens’ e ‘mulheres’ de nove anos).

          Lembrará como os braços dos seus pais eram longos e alcançavam qualquer coisa no armário, e você se perguntava quando os seus também seriam assim.

          Se conseguir realizar esse exercício, talvez você saiba que tudo o que pode fazer hoje – dormir e tomar banho na hora que quiser, por exemplo – representa o máximo da liberdade para seu filho.

          Talvez saiba que o medo dele perder você é do mesmo tamanho que o seu de perdê-lo, embora ele ainda não saiba disso e apesar de cada um ter o seu motivo para.

          Talvez saiba por que ele não entende como brócolis pode ser mais importante que biscoito recheado, e que o significado de “fazer sala” não é tão óbvio assim.

          Confesso: eu havia me esquecido completamente de fazer esse exercício. Mas ontem o retomei. Passei o dia inteiro com um metro e dez de altura. E ainda não voltei ao meu tamanho normal.

          ( Silmara Franco-Blog Fio da Meada)

            Flores são vermelhas…

            Postado por Laély, no dia 16-10-2011 - Categoria: crônicas,datas especiais - 0 Comentário
            Outro dia ouvi minha cunhada, professora há muitos anos, contar uma história cujo autor desconhecia. Achei tão interessante que procurei na internet e resolvi reproduzi-la aqui, já que hoje é o dia do professor. 
            Para todos os educadores, não apenas professores, avaliarem como podem (por atitudes, exemplo e/ou palavras) tolher ou incentivar a criatividade e raciocínio daqueles que orientam:
            Le jardin de Monet, les iris, Claude Monet, 1900, Paris, musée d'Orsay, huile sur toile 81x 92 cm
            Le jardin de Monet, les iris
            Claude Monet, 1900

            No primeiro dia de escola do pequeno menino
            Ele pegou alguns lápis coloridos e começou a desenhar.
            Coloriu o papel inteirinho,
            porque é assim que via as cores…

            Mas chegou a professora e disse: 
            O que é que você está fazendo, meu rapaz?
            Estou pintando as flores, disse ele.
            Ela disse:

            Isso não é hora para artes, menino!
            E além do mais, flores são vermelhas e verdes!
            Existe um tempo definido para tudo, meu rapaz.
            Também há um jeito certo das coisas serem feitas.
            Você precisa ter respeito pelos outros,
            porque não é o único.
            Flores são vermelhas, meu rapaz,
            Folhas são verdes!
            Não existe porque ver as flores de outra forma,
            Além do jeito que elas sempre foram vistas!

            Mas o pequeno menino disse:
            Existem tantas cores no arco íris,
            Tantas cores no sol da manhã,
            Tantas cores em cada flor e eu vejo todas elas.

            Pois bem, disse a professora:
            Você é um respondão! 
            E o colocou de castigo.
            -Isso é para seu próprio bem!
            Você não vai sair daí, enquanto não aprender
            a dar suas respostas do jeito que elas devem ser!


            Então ele começou a sentir-se sozinho,
            pensamentos ruins encheram sua cabeça…
            Foi até a professora e disse:

            Flores são vermelhas, folhas são verdes.
            Não existe porque ver as flores de outra forma
            Além do jeito que elas sempre foram vistas!

            O tempo passou, como sempre acontece,
            Eles mudaram de cidade.
            Aquele pequeno menino foi para outra escola
            E isso foi o que ele encontrou:
            Uma professora sorrindo.
            Ela disse: pintar tem que ser divertido.
            Existem tantas cores numa flor,
            Então, vamos usar todas elas!

            Mas o pequeno menino pintou flores
            Em ordenadas fileiras de verde e vermelho.
            A professora perguntou porquê.
            Isto foi o que ele disse:
            Flores são vermelhas, folhas são verdes.
            Não existe porque ver as flores de outra forma,
            Além do jeito que elas sempre foram vistas.


            Fonte: dAqui.


            (Ainda bem , que a professora de Monet parecia gostar mais de cores…)

              Admirável Silmara

              Postado por Laély, no dia 01-10-2011 - Categoria: crônicas - 0 Comentário

              Conheço a Silmara Franco desse mundo virtual há mais ou menos 2 anos, “apresentada” pela Cris Guerra, do Hoje Vou Assim
              Foi paixão à primeira lida: Silmara é daquelas poucas pessoas que, de tanto respeito pelas letras( e pela paciência dos outros!), não desperdiçam palavras!
              Ano passado tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente, na minha passagem por Campinas: a admiração só aumentou porque, além de escrever muito bem, é doce, elegante e simpática.
              Nas mensagens curtas que trocamos pelo Facebook, deixei-lhe um recado esta semana: caso comprasse um caminhão, seria ela a escolhida para criar a frase do parachoque.
              O que escreve sempre me provoca: uma exclamação, ou interrogação, que reverberam lá dentro da minha cabeça.
              Já recomendei outras vezes por aqui, mas o que é bom é para ser divulgado. Portanto, o texto de hoje é dela:
              Admirável (des)mundo novo

              Imagem:dAqui

              Eu envelheço e o mundo vai ficando novo. Meus espelhos estão mais sinceros, e as propagandas, mais mentirosas. Às vezes, eu queria me trocar, me devolver; acho que vim com defeito. Minha translação é lenta, ando atrasada para viver. Parece que o sol se põe dum lado diferente a cada dia, brincando de ser e não ser. Me confundo toda nessa giração. De quantas rotações somos feitos, afinal, no admirável (des)mundo novo?

              Tenho e-mail, Facebook, Twitter, blog, celular 3G e o diabo a quatro ponto zero. Com quem ou o quê, exatamente, isso tudo me conecta? Agora tudo é descobrível, decifrável. (Exceto o coração de quem ama – ou desama.) Os segredos de Fátima só permanecem ocultos para quem não tem banda larga. As teias sociais capturam até os avisados. E longe, de fato, é um lugar que não existe. Só sei que dependo de água e fibra óptica para viver. Tem dias que preciso mais de uma que da outra. Não conto qual.
              Vivo, com expansões no lugar de contrações, num parto incessante de ideias desvairadas. Algumas já nascem mortas. Outras vingam; são amamentadas com fé, liberdade e imaginação. Tento escrever meu diário, mas o presente vira memória num piscar de olhos. Sei que a cabeça está cheia quando passo a me procurar, o tempo todo, para conversar. Qualquer hora, mando dizer que não estou.
              Me alimento de atualizações, bebo a pressa, sempre com pressa, e arroto posts aleatórios. Me embanano diante de tantas opções, no infinito self-service do admirável (des)mundo novo. No entanto, recuso o adoçante, o light, o diet. A vida precisa ser integral.
              Dei frutos. Mas eles continuam rente ao meu tronco, lambendo sua seiva diária. Eu os protejo e lhe dou sombra. São meus admiráveis filhos novos. Vou imprimindo em mim cicatrizes em forma de tatuagem, enquanto a da cesárea vai desaparecendo. É um recado.
              Na admirável (des)ordem nova, os pecados são mais complexos. Os dez mandamentos já se multiplicaram: “Não compartilharás em vão”. Desobedeço ao menos um, todos os dias. Deus, eternamente online, nem liga. Testo sua onisciência, imito sua onipresença e não espero pelo castigo. Ele é moderno. Eu, não.

              Silmara Franco, Fio da Meada

                Morre lentamente…

                Postado por Laély, no dia 10-09-2011 - Categoria: crônicas - 0 Comentário
                Acompanho diariamente as tirinhas da Samanta e do Gervásio, no jornal A Gazeta. Esta, particularmente, chamou minha atenção pela citação usada:

                Tirinha

                A frase foi pinçada de um texto atribuído* ao poeta chileno Pablo Neruda, mas, segundo outras fontes, foi a escritora brasileira Martha Medeiros que o publicou em 2000, sob o título “A Morte Devagar”:

                Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
                Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
                Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
                Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
                Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
                Morre lentamente quem destroi o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
                Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
                Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
                Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um feito muito maior que o simples fato de respirar. Somente a ardente paciência fará com que conquistemos uma esplêndida felicidade.


                *Editado e corrigido, após consultar os universitários.

                  "Coitadinho, tão estressado"

                  Postado por Laély, no dia 04-09-2011 - Categoria: crônicas - 0 Comentário

                  Reta final de preparação para o vestibular e muitas famílias enfrentam, junto com o jovem vestibulando, o stress comum a esse período.


                  O economista e especialista em Educação Cláudio de Moura e Castro, articulista de Veja, escreveu sobre o assunto na edição do dia 24 de agosto, nosso texto para hoje:


                  Coitadinho, tão estressado
                  Foto: Claudio de Moura Castro
                  “Se há stress entre nossos vestibulandos, não é por excesso de dedicação, por horas demais diante dos livros, mas por falta de hábito de estudar”.

                  A Senhora Deborah Stipek se preocupa com o stress dos seus alunos que tentam entrar em universidades hipercompetitivas. Poderiam ser mais felizes e tão bem-sucedidos se fossem para outras com menos nome. Corretamente interpretado, é um comentário pertinente. Contudo, ela é diretora do Departamento de Educação de Stanford e a nota saiu como editorial na revista Science, ambos prestigiadíssimos. Há o risco de ser mal interpretada no Brasil, onde alguns festejam as desculpas para a malandragem. Dito e feito, foi isso que lemos na nossa imprensa.

                  Entendamos o stress. Sentindo a ameaça de ser comido por uma onça, o corpo reage, reajustando o fornecimento de energia para cada órgão e preparando-se para fuga ou a luta. Hoje há menos perigos físicos, mas a reação é a mesma, diante de uma ameaça, seja o medo de levar bomba na escola ou perder a promoção. Porém, os caminhos do stress são tortuosos (além do que poderíamos explicar aqui). Em primeiro lugar, o que causa stress não é a ameaça em si, mas nossa insegurança de lidar com ela. Pesquisas mostraram baixo stress em advogados defendendo causas difíceis, o qual virava alto stress diante do trânsito engarrafado. Policiais de Los Angeles tomam facas de criminosos, perseguem bêbados na estrada e terminam o dia na delegacia fazendo seu relatório. Supressa! O stress só aparece na delegacia, absolutamente segura. A lógica é cristalina. O advogado passou anos se preparando para lidar como stress dos tribunais, mas não os imponderáveis do trânsito. O mesmo ocorre com o policial. Tomar facas é sua profissão. Escrever um relatório que pode ser criticado por seus superiores é terreno pantanoso.

                  Em segundo lugar, stress não é necessariamente uma coisa ruim. Pode ser boa. O ato de criação pode ser estressante. Tarefas desafiadoras podem ser estressantes e boas. Portanto, evitar o stress pode significar distanciar-se de realizações. Entras nas universidades de primeira linha é dificílimo. Mas é nelas que se concentram as melhores cabeças e de onde saem as melhores ideias e inovações. É por isso que ouvimos falar tanto de Harvard ou Stanford. Aliás, a professora Stipek trocaria seus orientandos por outros, de universidades mais fáceis?

                  Voltando à escola, o stress não tem a ver com o número de horas de estudo ou com a dificuldade do assunto ou sua chatice – mas com a falta de preparação para lidar com isso. Um coreano pode passar doze horas estudando, todos os dias, sem stress, pois é seu hábito. Um brasileiro que estuda dez minutos por dia vai ficar estressado se tiver que estudar meia hora. Uma pesquisa curiosa ilustra a desconexão entre o stress e suas causas. Verificou-se que alunos asiáticos ficavam estressados quando tiravam notas ruins, trazendo a vergonha à família e pondo em jogo sua reputação. Em contraste, americanos ficavam estressados quando tiravam notas boas, pois eram malvistos pelos colegas e xingados de nerds. Sofrer com o stress não é uma fatalidade. A solução é aprender a lidar com ele, como fazem os advogados e policiais citados. Achar que os alunos estão estressados porque estudam demais é parte do cacoete que explica nossos péssimos resultados nos testes internacionais.

                  Em uma pesquisa que realizei, foi possível notar que os alunos do supletivo dedicavam mais horas à televisão por dia do que ao estudo durante toda a semana. Outra pesquisa mostrou que, quanto mais elevada a série, menos o número de horas de estudos diários – com maior maturidade, deveriam estudar mais. Mesmo às vésperas do vestibular, as horas de preparação são poucas, até no ensino privado. Os números mostram: nossa educação combina uma jornada escolar curta com míseros minutos estudando em casa. É o pior dos mundos.

                  Previsivelmente, o editorial da Science logo despertou o instinto maternal nos nossos luminares: coitadinhos dos nossos alunos, tão estressados! Mas está errado, se há stress, não é por excesso de dedicação, por horas demais diante dos livros, mas por falta de hábito de estudar. Estressado é quem nunca estudou direito e, de repente, ouve dizer que para passar no vestibular é preciso mudar de vida. A solução não deve ser estudar pouco ou buscar um curso fácil, mas aprender a estudar e aprender a lidar produtivamente com o stress.

                    Vinha o filho ainda longe…

                    Postado por Laély, no dia 27-08-2011 - Categoria: crônicas - 0 Comentário

                    O filho do meio assistia com atenção a uma palestra, em DVD, quando me aproximei, curiosa. 

                    O orador era um barbudo com cara de “homem do saco”, guru, ou, coisa parecida.  Carismático, ele fazia uma reflexão baseada num texto bíblico, com uma profundidade e retórica que me prendeu, do início ao fim!

                    A princípio não reconheci mas logo o filho tratou de apresentar, aquele de quem muito ouvira falar nos meus tempos de adolescente, em Manaus: tratava-se do ex-pastor presbiteriano, agora intitulado, Reverendo Caio Fábio.

                    Figura pública festejada por intelectuais, artistas e políticos na década de 90, caiu no limbo depois de ter o nome envolvido em sucessivos escândalos, dentre eles, do “Dossiê Cayman“. 
                    Em seguida separou-se da mulher(após ela descobrir o caso que ele mantinha com a secretária), perdeu o título de pastor da Igreja Presbiteriana, dinheiro, peso, status, credibilidade, um filho, num acidente de carro…enfim, foi ao fundo do poço!

                    E alguém já deve estar se perguntando: por que eu faria uma preleção assim, tão negativa, aparentemente, a respeito de uma pessoa?

                    Primeiramente, os fatos a respeito de Caio Fábio são públicos, sendo confirmados pelo próprio: “sou um anjo caído”, chegou a declarar à Veja, em 1999.

                    Segundo: todos nós, em algum momento da vida derrapamos, perdemos o compasso. É difícil levantar. Principalmente: enfrentar a descrença dos que estão próximos, ou, dos que deveriam ser os “próximos”.

                    Pesquisando o site oficial de Caio Fábio encontrei um texto, lido ontem à noite, que me tocou. Pensei na história dele, na minha, na sua…
                    Uma história bastante conhecida mas que ele, de forma peculiar, conseguiu lançar uma nova luz.

                    Apesar de aqui não ser um blog religioso ele é pessoal, espelhando crenças minhas, religiosas ou não.
                    Gostaria então que deixassem possíveis preconceitos de lado e esquecessem o Fábio, ou a Laély. Apenas, reflitamos:
                    “Vinha o filho ainda longe…”


                    Ora, chegavam-se a Jesus todos os cobradores de impostos e os considerados pecadores para o ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles. Então Jesus lhes propôs esta parábola:


                    Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres.

                    Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades. Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada.

                    Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.

                    Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.

                    Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

                    Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés; trazei também o bezerro, cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se.

                    Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar.

                    Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me alegrar com meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.

                    Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.



                    PRIMEIRO ANO DO SITE.

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                    A parábola do Filho Pródigo todos conhecemos. Já preguei sobre ela centenas de vezes. Olhei-a sob inúmeros aspectos.

                    É minha história. É a história da humanidade. É a história de quem foi e nunca deixou de ser. É também a história de quem nunca foi mas nunca chegou a estar. Sobretudo, é a história do amor de Deus e do modo como Ele age como Pai.

                    Pai para quem foi e nunca deixou de ser. Pai para quem nunca foi mas nunca chegou a estar.

                    Hoje, no entanto, eu estava quase dormindo quando ouvi essa voz, que dizia: “Vinha ele ainda longe, e seu pai o avistou; e, correndo, o abraçou…”

                    O Pai não somente deixou ir e aguardou a volta… Ele viu de longe e fez o caminho de volta com o filho.

                    Entre o olhar do Pai e a volta para casa, existe um “ainda longe”. O Pai foi buscar o filho ainda longe. Longe de ida, longe de volta!

                    Em casa é que o problema começou: quem nunca foi mas nunca chegou a estar não gostou que aquele que foi e nunca deixou de ser tivesse voltado!

                    O Pai, todavia, só participa disso porque é Pai, mas não se deixa seqüestrar por nada e por ninguém. Quem não gostar, que não goste. O Pai, no entanto, vai longe buscar seu filho. E há um caminho que o Pai e esse filho precisam fazer só os dois.

                    Em casa, há muito ciúme, muita competição, muita doença.

                    Que bom que antes de ver os irmãos magoados, a gente pode ver o rosto do Pai.

                    Que bom que Ele vai se encontrar com a gente ainda longe de casa, antes que as impressões do ciúme e da inveja tentem estragar o encontro que vale: o encontro do Pai com o seu filho.

                    Que bom que quando quem nunca foi mas nunca chegou a estar só aparece depois que o filho quebrado havia se entendido com o Pai feliz.

                    Que bom que há esse “ainda longe”, pois assim tem-se tempo para chegar em casa tão cheio do amor do Pai que não se tem mais tempo e nem coração para ficar doente com o ciúme dos irmãos.

                    Vinha ele ainda longe… O Pai o avistou, e, correndo, o abraçou e o beijou!

                    Caio

                    (Escrito em junho de 2003)