Precisamos falar de…

Ele cuidava do gado de um grande fazendeiro da região. A vida era modesta mas, digna.

Certa manhã, enquanto ordenhava as vacas, armou-se tempestade.
Um raio abriu grande e profunda fenda no chão, próximo ao curral, expondo o que parecia ser uma caixa mortuária. Curioso, pulou no buraco e afastou cuidadosamente a tampa. Da fresta avistou ossos porém, algo mais chamou-lhe a atenção. Esticou o braço o máximo que pode e, alcançou seu “precioso”: um anel.

Voltou pra casa, mas não contou a ninguém sobre o ocorrido, nem mesmo à mulher.
Mensalmente,  os trabalhadores da fazenda apresentavam-se ao patrão, numa reunião de prestação de contas( contextualizando: àquela época não havia internet, e-mail, Whatsapp ou Bankphone).
Na sala de espera, acomodou-se entre os colegas e ficou ali, quieto, absorto em pensamentos; enquanto os outros conversavam, ele examinava o estranho anel, no dedo anular. Rodou a única pedra incrustada em direção à palma da mão. Imediatamente ficou imperceptível, invisível. Rodou novamente a pedra ao dorso e, tudo voltou ao normal.
Ciente do grande trunfo que tinha nas mãos, literalmente, perpetrou uma “virada” na vida valendo-se da sua invisibilidade.
Infiltrou-se na casa do fazendeiro, nos negócios, seduziu a mulher dele, promoveu intrigas…assim, apoderou-se de todos os bens do antigo patrão, deixando-o na miséria…
Tal preâmbulo foi apenas uma paráfase à história original contada por Platão, em “A República”, sobre o “anel de Giges”.
O filósofo francês André Comte-Sponville também a evoca ao introduzir o tema “moral”, em seu livro “Apresentação da Filosofia”.
A questão que inevitavelmente provoca, é:
O que você faria, se fosse invisível? Se fosse imbatível? Se fosse inalcançável?
Você é bom, porque é bom, ou porque lhe falta oportunidade de fazer o mal? Ou deixa de fazer algo errado, só porque teme retaliações?
Nem pretendo deter-me nesse terreno pantanoso, sobre discutir moral, porque Sponville a dissecou muito bem, no texto indicado. Corram, lá!
Acontece que, o anel de invisibilidade já existe há muito e está à disposição de qualquer um, ao alcance de um click!
Como são “corajosos”, “combativos”, “sinceros”, “empedernidos defensores de causas” os anônimos que usam a internet para vomitar todo seu ódio, arrogância e preconceitos! A respeito, concluiu Bernard Shaw: “O ódio é a vingança dos covardes”. Como são ágeis, desenvoltos, descontraídos, pra não dizer caras de pau, os que se valem da capa que a internet lhes (des)veste para praticar, promover e incitar atos ilícitos!
Alguns, acham que têm superpoderes! Mas superpoderes, nas mãos de superamorais, causam estragos, como o anel que revelou a verdadeira personalidade do dissimulado Giges.
“Back to the future!” De Giges à atualidade:
O assunto foi tão discutido nas redes sociais, que até me contive: “falar mais o quê?” Corre-se o risco de chover no molhado, de repetir o óbvio!
Estou falando do “MasterChef Jr” e uma de suas competidoras, Valentina.
Quanta gente “pra frente”, alguns, até “mostrando” a cara, fazendo comentários lascivos sobre a menina. Que gente “corajosa”, assumindo preferências e desejos, publicamente! Quanto superidiota!
Nunca existiu gente assim? Sempre! Mas hoje, reproduzem-se celeremente, como os Gremlins, na velocidade e facilidade que as redes sociais proporcionam.
O bom, disso tudo:
Estamos falando sobre. Fazendo o feitiço virar contra o feiticeiro!
A mesma via de reprodução da imbecilidade sendo usada, na contramão.
O assediador é covarde, porque se vale de sua “superioridade” para abusar de alguém que não tem como defender-se.
Isso não é vitimismo, como alguns grupos antifeministas radicais “defendem” por aí,  usando seu precioso anel.
Uma lição básica, aprendida na Medicina:
Não se trata o que não se conhece. Você só chega a um diagnóstico e, então, define conduta, se pensar na possibilidade de…Senão, passa batido.
É preciso conhecer o problema, destrinchá-lo, discuti-lo pra que a situação, dita “normal”, mude. Não é da noite pro dia. É um contínuo combate.
Com certeza, o primeiro “corajoso” a escrever a primeira bobagem que lhe veio à cabeça sobre Valentina não tinha ideia da repercussão!
Criou-se até uma hashtag, no Twiter, pra se falar do #PrimeiroAssedio.
Daí,  vem aquele carinha da música da galinha e, em tom de chacota, tenta roubar a cena. Mas, deixemos esse debilóide de lado pra falar de coisa séria!
Quem nunca ouviu falar de uma criança que foi tocada por um colega de trabalho do pai, ou por um respeitado senhor da sociedade? Ou não ouviu a história do vizinho mostrando a ela, de forma esquisita, as partes íntimas? Ou, quando foi perseguida por um grupo de adolescentes, dispostos a sei lá o quê? Ou não sabe de uma pré-adolescente que, tremendo de medo diante do zelador da escola de música, viu-se obrigada a dar-lhe um beijo asqueroso? Isso não é ficção. Essa menina existe e, cresceu. Essa, sou eu.
Até bem pouco tempo atrás, nunca imaginaria que viesse me expor dessa forma, dando cara a tapa, como faço por aqui. Mas pra se ter alguma credibilidade, ser consistentemente coerente e dispensar o “anel de Giges” é um dos pré-requisitos. Não digo que seja fácil mas, tento.
Há pouco voltei de uma viagem à NY. Foi rápida mas, produtiva, enriquecedora.
Conheci a High Line, um parque suspenso, dos mais insólitos.
Era uma antiga linha ferroviária que passava sobre o Chelsea, no oeste de NY.
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Desativada em 1980, seria demolida não fosse a intervenção de uns loucos visionários, que viram naquela área degradada um espaço público agradável para convivência. Depois de anos de impasse, esse grupo que abraçou a antiga linha conseguiu convencer o poder público, privado e até os próprios moradoras a transformar a área em parque. O resultado disso, não parou por aí: todo o entorno da linha foi revigorado e valorizado; um dos bairros mais charmosos da cidade.
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O que leva a crer, que seja possível sair do terreno das discussões rasteiras e construir algo superior a isso tudo.
Simples coincidência ou, conspiração a favor: o tema deste ano da redação do ENEM ser “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.
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( E, desculpem o semjeitismo da conclusão. Foi difícil pra mim falar disso mas, precisamos falar! Da Valentina, da Laély, da Maria, da Ana…)
(Pesquisando o assunto fui parar numa página, no Facebook, que me causou arrepios e, mais ainda, ao ver que têm mais de 9000 “curtidores”, claro, maior parte usando anelzinho…Só lembrando que, ao se depararem com conteúdo na internet que seja “inadequado”, que incite violência, ato ilícito, com discurso de ódio…você DEVE DENUNCIAR!)

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13 Comentários

  1. Laély, cada vez admiro mais você, tratar de um assunto que ninguém tem coragem de enfrentar e coibir. Está se tornando tão normal agredir o ser humano, que a violência contra a criança, a mulher agora tem páginas na rede social e curtidores.
    A que ponto chegamos…
    Onde iremos chegar…
    Ninguém sabe, porque na minha luta, fui até o 180, 100 e não fizeram nada, porque na DP sumiram com o BO de estupro e encenaram, abrindo uma representação com o fulano.
    Conclusão: o próprio Judiciário acoberta os agressores.
    Com relação à menina, se não fizerem nada, nosso país descerá mais ainda no quesito credibilidade e estará no topo da permissividade, o que nos causa uma grande vergonha.
    Parabéns pelo texto!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

  2. Especificamente estou alheia ao caso, no entanto, Laély, revejo na descrição não um quadro brasileiro mas planetário; existe da parte da sociedade um ataque permanente e violento à mulher. Temos que ser nós, mulheres, a falar, a denunciar, a expor-nos, e sobretudo a defendermo-nos umas às outras. É fundamental uma frente unida que confronte uma sociedade patriarcal que espezinha a mulher, geração após geração. Toda a vez que uma mulher se expõe, está a fortalecer as outras, as sem voz, as amedrontadas, as “culpadas”.
    Então, como mulher, como ser humano, expresso aqui a minha gratidão, por esse post. Um abraço.

  3. La, o assunto envolve nós mulheres de duas maneiras: as que sofrem e as que criam. Criar homens e não babacas é tão complicado!

    Sabe, minha mãe foi orientadora educacional em escola, envolvida, engajada. Desde pequena sei de casos absurdos de violência contra meninas, dentro de casa inclusive … E nem assim, com toda
    informação escapei de uma viagem de ônibus depois do trabalho, cheio, onde um rapaz de classe média
    ficou “sem querer” enfiando sua mão, que segurava
    sua mochila repetidamente,displicentemente, sem querer entre as minhas pernas. Ontem mesmo
    estava pensando por que eu não fiz nada, o que significa que eu me senti culpada no fim das contas!
    Nenhum abuso é igual ao outro, acontecem de maneiras diferentes, com pessoas diferentes. Mas nunca, de forma alguma ser invadido, agredido, assediado por ser bom! Temos que discutir e rever nossa educação!! Reduplicamos muitos discursos idiotas, deixamos nossos preconceitos falarem mais alto!! E sempre achamos que nunca irá acontecer conosco!!!

  4. Excelente, como sempre! Drama silencioso de muitas meninas e mulheres, que está na boa de todo mundo neste mês de outubro. Quem bom, afinal, informação é saúde. Quanto mais a gente falar, mais vai servir de alerta.

    Sobre a Gray Line, só digo isto: o passeio mais bacana de toda a cidade de Nova York. bjs

  5. Otimo texto, é muito dificil falarmos dos abusos sofridos, a sociedade sempre nos culpa pelo erros dos homens. Mas creio que estamos passando por uma transição dolorida mas que no final será vistoriosa , começando pela maneira como criamos nossos filhos. Abraço.

  6. Li e reli o texto…digeri, e voltei. O mal está a espreita, aprendi isso ainda pequena. Talvez por isso, erro por excesso de zelo. Sempre de olho no entorno, nos olhares lascivos. Protegi minhas crias, com todas as forças do universo, e ainda hoje, adultos, estou sempre orientando. Porque o mal, sempre estará a espreita e cabe a nós, mulheres e homens de bem, evitá-lo. Cabe a nós, mulheres e homens de bem, criar seres humanos verdadeiramente humanos, com pequenas falhas, porque ninguém é 100% mas abuso, violência física/verbal/sexual não tem perdão. Contra criança, é abominável. Beijos!

  7. Olá querida Laély!
    Assunto delicado, difícil de conversar… mas explorado de uma forma bem especial por você. Muito bom saber que ainda nos presenteia com suas linhas de reflexão.
    Em parte é mais fácil fechar os olhos e fingir que esse tipo de coisa não acontece ou que nunca nos acometeu, me diga… quem esquece?
    Toda violência deve ser repudiada, inclusive a imposição de uma opinião, não precisamos desse tipo de mecanismo de controle, construímos nosso próprio ponto de vista!
    Grande abraço

  8. Your style is so great! Thank you so much for stopping by my blog and syinag such sweet things. It makes me feel so good to know someone my age is blogging as well. Can’t wait to keep reading :)

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