Uma causa pra chamar de minha!

Em 1955, a prioridade nos assentos dos ônibus do Alabama não era para cadeirantes, mulheres grávidas ou idosos…
rosa parks
Como fazia rotineiramente depois do trabalho, a costureira Rosa Parks tomou um ônibus, de volta pra casa; devia estar cansada e, como os assentos no fundo já estavam todos ocupados por negros, sentou-se numa das cadeiras reservadas aos brancos, no meio do coletivo.
Mas algo, naquele 1° de dezembro, sairia da rotina: ignorando a ordem do motorista para que cedesse lugar ao passageiro branco que acabara de entrar, permaneceu no lugar escolhido. Quando ele ameaçou chamar a polícia, a resposta dela foi: “Então, prenda-me!”.
O protesto silencioso e solitário, a princípio, rendeu a Rose ficha na polícia e multa, mas foi o estopim de um movimento que cresceu e mudou a história de segregação racial, nos Estados Unidos!
Depois do episódio, milhares de negros resolveram boicotar o sistema de transporte coletivo indo para o trabalho a pé( alguns, cantando, fazendo barulho), o que causou prejuízos financeiros aos empresários locais.
Martin Luther King foi um dos que apoiou a atitude espontânea de Rosa Parks.
Alguns anos depois, em 28 de agosto de 1963, ele liderou a “Grande Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade”, que reuniu 250.000 pessoas, vindas de todas as partes do país.
Ao contrário do que temia o então presidente Kennedy, a megamanifestação transcorreu em clima pacífico e ajudou a aprovar leis de direitos civis dos negros( inclusive, direito a voto), em curso no Congresso.
“I have a dream…” foi a frase inicial do discurso mais famoso da História, proferido por Luther King nesse dia.
marcha
Há exatos 30 anos, em pleno período de ditadura militar no Brasil, 300.000 reuniram-se na Praça da Sé, em São Paulo, liderados por políticos, artistas e intelectuais, a favor da aprovação da “Emenda Dante de Oliveira”.
O “Movimento Diretas Já” ganhou corpo: um milhão de pessoas, no comício do Rio de Janeiro, 3 meses depois e, novamente em São Paulo, com mais de um milhão.
A onda provocada pela pressão popular não demoveu os deputados de sua posição conservadora: a emenda não foi aprovada. Mas respingou no governo militar: demonstrando mais “sensibilidade”, propôs saída alternativa permitindo a participação de civis, no pleito indireto que elegeu Tancredo Neves( o triste fim dessa história e o início da era Sarney, todos conhecem…).
tancredo-diretas-já-praça-da-sé-1984
Um salto, no tempo e na história:
Estamos em meados de 2013.
Como rastilho de pólvora, o desconhecido Movimento Passe Livre consegue cooptar simpatizantes de todos os tipos, credos e bandeiras, numa série de manifestações que tomaram conta do país.
Ao contrário da mulher, que procura o programa do Ratinho pra fazer teste e provar quem é o pai do filho dela, a manifestação não ficou muito tempo “bastarda”. Logo choveram candidatos a pai, mesmo sem DNA comprovando; muitas ideologias quiseram abraçar a “causa”, mesmo sem saber, ao certo, qual era.
Do ponto de vista do MPL, o movimento foi um sucesso: além de São Paulo, outros estados cancelaram o aumento das passagens de ônibus.
Na pluralidade de demandas, o movimento dissipou-se mais rápido que nuvem de chuva, em dia de verão.
“Exercitamos nossa cidadania”( quem nunca escutou esse chavão?!), mas a pouco, ou nenhum resultado prático  chegamos.
manifestacaocongresso407
( Ops! Esqueci da aprovação-relâmpago do projeto “Mais Médicos”, uma vitória do Governo!)
Agora, são os “rolezinhos” que ocupam as manchetes e debates na internet, dando trabalho aos “especialistas” de plantão.
Já quiseram batizar o “rolê” da periferia, nos centros de consumo, como um movimento social de inclusão, ou libertação. MST tirou casquinha. A ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), tentou a sua: “As manifestações são pacíficas. Os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens”. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”.
Há pouco, novo movimento( financeiro) surgiu, na internet: uma vaquinha, para pagar a multa do mensaleiro Genoino que, recebendo a bagatela de R$23.000 mensais como deputado aposentado, não dispõe de recursos para quitar a dívida “imposta injustamente”.
Não acreditei que fosse vingar mas, essa semana o ex-deputado publicou no seu Twitter:
genoino
Não são os resultados, que comprovam a relevância de uma causa.
A curtíssimo prazo, a resistência de Rosa Parks só lhe trouxe dor de cabeça. Não imaginou que sua antiação provocasse tantas mudanças, a ponto de, em questão de poucos anos, um negro ocupar, não apenas um lugar no ônibus, mas um assento na Casa Branca.
Os acontecimentos descritos aqui não são, necessariamente, uma evolução cronológica( uma involução ideológica, talvez…). Foram escolhidos a esmo, apenas para ilustrar uma ideia muito particular, que surgiu na cabeça desta que lhes escreve, mas não entende muito bem o que anda na cabeça dos outros; o que as move.
Em 45 anos, o mundo mudou muito! Conquistamos espaços, até à Lua!
Estamos ávidos por novas causas a defender!
Hoje em dia, parece que elas é que desejam nos abraçar, adotar, como a um cachorrinho carente. Faltam-nos, entretanto, as boas. Restaram-nos, o que, mesmo?: Os 20 centavos, a multa de Genoíno, os rolezinhos?…
O Ricardo III, de Shakespeare, adaptado aos novos tempos bradaria:
“Uma causa! Uma causa! Meu reino por uma causa!”
A pergunta que me faço, é: estamos mais sensíveis, ou ficaremos mais cínicos, diante da escassez delas( ou, do bom senso)?
Uma música não me sai da cabeça. Dizem que Cartola a compôs para sua enteada, disposta a sair de casa precocemente e, cair na vida. Aconselhou-a, mostrando um mundo nada colorido e a dura realidade que a esperava:
“…Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó…”

Encerra, com um vaticínio sobre nossos dias(?!):
“De cada amor tu herdarás só o cinismo…”

(Nem tudo está perdido. Até “maus agouros” podem ser poéticos):

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6 Comentários

  1. Será que você não está sendo um pouquinho pessimista? Depois de tantos anos sem direito de reivindicar sequer os próprios direitos, estamos vivos e nos mexendo. Como um bebê que aprende a andar ou como alguém que ficou muitos anos numa cama e precisa reaprender a andar. E dessa forma, tropeçamos, caímos e vamos aprendendo a distinguir o joio do trigo. Cada um na sua velocidade porque cada um é de um jeito. E acho que ainda vamos ver e ouvir muita bobagem antes de chegarmos a um equilíbrio, mas…faz parrrte. Beijos e adoro seus textos.

  2. Sua postagem é excelente e realmente, por estarmos perdidos, não sabemos mais que causa levantar, se de tudo estamos carentes. Abraços carinhosos Maria Teresa

  3. Não sei quem é mais cara de pau, se é Genoíno ou quem contribuiu com ele…
    Mas seja laqual forma causa das manifestações ela é justa. Pois nós brasileiros não aguentamos mais pessoas como José Genuínos dar bem.

  4. Olá,querida Laély!
    Sei que andei tomando um bocado de “chá de sumiço” por aqui,mas nunca me esqueço da tua tão boa companhia! E tantas vezes passo por esta tua sala, tão rapidinho,silenciosa…Sem deixar pegadas! (Rs…) Mas hoje queria dizer que imagino bem o que você está sentindo, no meio desse estranho “vazio” de tantas causas políticas! E ver novamente,depois de tantos anos, a imagem do movimento “Diretas Já” aqui no Rio, um sentimento antigo me tocou de forma bem profunda, uma vez que eu estava lá, no meio daquela multidão imensa,participando com meus amigos da faculdade,daquele movimento tão importante naquela época,que agora parece tão distante… Lembro muito bem daquela data marcante e de tantos sonhos que pairavam sobre nós,ainda tão jovens e com tantas esperanças! Mas de toda aquela experiência, o melhor de tudo sempre foi sentir aquele sentimento de coragem e fé , e a grande vontade de “construir ” um país melhor para todos nós brasileiros. E apesar de tantas águas terem passado por debaixo da ponte, dos escândalos, da corrupção e de toda a confusão possível e até inimaginável que vem dos nossos políticos, acho que a esperança de novos tempos ainda habita em nós…Sei que a herança histórica do Brasil é muito difícil, e estamos ainda longe de chegarmos à uma situação verdadeiramente “ideal”…E talvez seja mesmo como você disse,e o que nos falta hoje é uma direção comum de “causas boas”, baseada nas necessidades básicas e reais de um povo que precisa ainda muito de saúde, educação,saneamento básico e transporte humanitário para todos…Além de muito, muitos novos sonhos para sonhar como um verdadeira e unida nação!
    Beijo grande pra você…Muito bom estar por aqui novamente…Adorei o post!
    Teresa

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