Mulher: respeito e dignidade

Entendo que a função de um bom cronista é mostrar um olhar diferente sobre o cotidiano, o comum. Ou então, traduzir, numa linguagem clara e cristalina, aquilo que pensamos, mas não conseguimos expressar tão bem em palavras. Foi essa segunda opção que me fez apreciar este texto, da Lya Luft( embora prefira outros colunistas, como o Roberto Pompeu de Toledo, Reinaldo Azevedo e aquele que não escreve mais para a revista Veja: Diogo Mainardi. E sei que, admitindo essa admiração, publicamente, atrairei desafetos lulistas…). Independente da forma dela escrever, os temas abordados são atuais e casam com meus pensamentos a respeito. Vejamos:


Mulher: respeito e dignidade

Algumas datas festivas não me agradam pela mercantilização, pelos presentes excessivos, diversão sem emoção e abraço sem afeto. Quem dá bola para professor, mãe e pai quando há a praia, a balada, bastante bebida? Repito, para não ser mal interpretada, que não é a maioria que age assim, mas cada vez mais sentimos nos ares o aroma da grana fluindo: haja propaganda! Bem antes da Páscoa, coelhos já pululam nas cidades e papais noéis apontam suas belas barbas meses antes do Natal. Mal terminada a temporada de caça a compradores do Dia das Mães, começará a do Dia dos Namorados. Sou contra? Sou muito a favor da troca de carinho, gentileza, pequenas lembranças, de curtir o dia e as pessoas. Sou da banda da vida, dos afetos, da alegria.

No Dia da Mulher celebra-se a dita liberdade? Nela eu não creio. O que aconteceu com as mulheres nestas décadas foi saírem do jugo do pai, irmãos, marido, até filhos, e começarem a se enxergar, sentir e agir como pessoas. Podem estudar, morar sozinhas, casar com quem quiserem ou não casar, ter filho ou não, dirigir empresas ou ônibus, pilotar aviões, fazer doutorados, brilhar nas ciências ou finanças, enfim: somos gente. Há muito que fazer, um longo caminho a percorrer. Altas executivas ainda são olhadas com desconfiança e às vezes lidam com condições desfavoráveis, culpas atávicas, falta de estrutura da sociedade para aliar profissão a vida pessoal, sobretudo a maternidade. Ainda há quem ganhe menos que homem na mesma função. Ainda há quem tenha de “caprichar dobrado”. Mas as coisas vão se resolvendo na medida em que nos fazemos respeitar.

É aí que quero chegar: mais do que direitos e liberdade, falar em dignidade e respeito. Minha querida Lygia Fagundes Telles, grande escritora brasileira, já disse que muitas vezes aparecemos “feito pedaços de carne em gancho de açougue antigo”. A mulher despida cada vez mais é objeto de propagandas. Vender automóvel? Mulher de biquíni. Vender comida? Mulher de biquíni. Vender qualquer produto? Mulher meio pelada. Mulher fazendo trejeitos ditos sensuais, caras e bocas, exibindo plásticas nem sempre naturais. Já escrevi que quanto mais falamos em natureza mais distantes dela estamos. Propagandas em que mulheres fazem o marido passar por idiota: ele é preguiçoso demais, mas meu intestino já não é. O inseticida funciona, meu marido dorme no sofá de boca entreaberta…

Se a propaganda em geral nos usa desse jeito, raramente favorável, é de pensar em que medida nós contribuímos para isso. O sonho de muitas meninas é ser um dia a mulher-maçã, a mulher-melancia, a mulher-melão, ter aqueles assustadores peitos falsos e imensos, aquele traseiro deformado, aquela musculatura de levantador de peso. O ideal de algumas é estar no Big Brother com outros debaixo de um sugestivo edredom. Os homens não nos respeitam, dizemos. É preciso fazer-se tratar como parceira, não como gueixa desejosa de cartões de crédito polpudos ou homéricas cantadas, muito menos acrobacias sexuais que pouco têm a ver com sexo verdadeiro. Acrescento que andamos iludidas com uma avassaladora onda de mitos sobre sexualidade, sensualidade, beleza, resultando em corpos e rostos por vezes deformados, e almas aflitas. Somos bombardeadas por mentiras sobre transas épicas e mil delírios, rapidinho aqui, depressa ali, vendo receitas bizarras sobre segurar seu homem, a literatura dita pornô soft impressionando milhões pelo mundo afora; por toda parte, muito mais ansiedade do que prazer.

Aqui e ali, meninas precocemente sexualizadas, maquiadas e requebrando inseguras em incongruentes sapatos de salto… jogos de fundo sexual entre pré-adolescentes em festinhas sem a presença de adultos… adolescentes praticamente coagidas a experimentar intimidades que mal entendem… Nisso talvez valesse a pena pensar, rever, quem sabe transformar, na data que nos é dedicada: expor menos carne e cultivar mais sentimentos, pensamentos, valores. Mas talvez eu pareça um fantasma ancestral falando um idioma estranho.

(Lya Luft é escritora. Artigo extraído da revista Veja [ http://www.veja.com.br ], 13.3.2013, pág. 24.)

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15 Comentários

  1. Puxa, Laély! Tu sempre encontra textos que traduzem muito do sentimento que andamos (meio que utopicamente) buscando! O texto me fez pensar em fatos e cenas que vivenciamos no dia a dia e nem sempre temos a coragem de nos posicionar – nem a favor, nem contra… Seguindo a maré!?!?!
    Beijos!

  2. sensacional…expor menos carne e cultivar mais sentimentos, pensamentos, valores. Acho que também sou uma ancestral, porque do século passado eu já sou. Também adoro Diogo Mainardi pelo menos ele é verdadeiro.
    abraço yvone

    1. hehe! Somos mulheres do século passado, então, Yvone! Mas acho que nossas ideias não estão ultrapassadas. Ultrapassados têm sido os limites do bom senso, principalmente, na mídia!
      Um beijo!

  3. Apesar de não ser fã da Lya, aprovo 100% esse texto. Sou das que gosta de falar a verdade, e isso fica parecendo sermão, doutrinamento. (tb amo Mainardi, doa a quem doer! rs).
    Sempre bom ler você, Laely.

  4. Bom dia! Passando para lhe desejar um FELIZ DIA DO BLOGUEIRO! Quanto ao texto da Lya Luft (gosto muito dos textos dela), confesso que o que mais me chamou a atenção, ou me tocou, é a parte inicial que ela menciona “Algumas datas festivas não me agradam pela mercantilização, pelos presentes excessivos, diversão sem emoção e abraço sem afeto”. Talvez porque isso é o que ocorre mais ou tanto quando as demais situações mencionadas ao longo do texto, mas seja menos falada claramente ou criticada. Muitas vezes participamos de situações festivas, cheios de abraços e beijos, conversas e risadas, mas que na entre linhas, não há a mínima vontade ou razão de estar vivendo aquilo. Mas por que somos assim? Porque precisamos ser assim? Não seria mais fácil falarmos sobre o assunto claramente? Por que não entendemos, não conseguimos ser compreensivos quando falamos ou deixamos de fazer algo (comemorar o dia de natal, crianças, etc). Um abraço Karina

  5. Olá Laély!

    Gosto muito dos textos da Lya Luft e mais uma vez ela escreve com muito bom senso.
    Obrigada por compartilhar conosco este momento de reflexão.
    Sou mãe de duas meninas e fico muito preocupada com este comportamento feminino.
    Nós mulheres já lutamos tanto por igualdade de direitos e acredito que devemos buscar uma sociedade mais justa, igualitária e mais solidária.
    um grande abraço de mais uma fã!

  6. Oi Lá, tudo bem com vc ? Senti vontade de te escrever hoje.
    Como andam as coisas por aí ? Senti falta de suas dicas para páscoa … hihihi
    Esse ano quase toda família estará viajando, então aqui será só nós de casa … mas já reservei surpresa pras crianças.
    Beijoooo

  7. Oi, Lá… eu não sei se o problema é toda essa liberdade, ou tamanha falta de escrúpulos!!! E eu só tenho 33 haha!!! Sei lá acho que meus valores andam meio fora de moda!!! E o que vejo hj em dia, com toda essa auto-suficiência, é uma imensa carência de sentimentos!!! De ter um amor verdadeiro, um amigo!!! E cada vez mais os consultórios de psicólogos e analistas estão lotados de gente que precisa simplesmente conversar!!!!!! E cada vez mais vejo o pessoal tomando antidepressivos, pra se sentirem bem e pra dormir!!!Sei lá!!! Antigamente era bem mais simples, viver, amar e ser feliz!!!

  8. oi eu não sei se o problema e toda e essa liberdade, ou tamanha falta de escrúpulos!!!E o que vejo hj em dia, com todas essas mulheres e fata de respeito,e uma imensa falta de carência de sentimentos bjss thaynara

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