Titica filosófica


Todos o dias uma enorme carreta atravessa as apertadas ruas de paralelepípedos da pequena cidade onde moro. Não é necessário vê-la, pra notar sua presença. Apenas, senti-la. Percebe-se no ar…
Numa dessas manhãs de sorte tive o privilégio de segui-la, devidamente protegida na minha cápsula de vidro hermeticamente fechada, o carro.
O caminhão passava mas, ninguém passava incólume por ele; eram notórias as reações, sem disfarces: alguns tapavam o nariz, outros abanavam à sua frente, como se pudessem espantar de si o fedor que costuma tomar conta não só dos narizes, mas também das ruas…Não é uma carreta qualquer. É uma carreta lotada, até fazer uma montanha em cima, de titica de galinha!
É que a cidade mais próxima, a 28km, “é o maior pólo avícola do Estado e segundo produtor de ovos do país, possuindo um plantel de 4 milhões de aves poedeiras.”
Como jamantas costumam deslocar-se com lentidão, tive tempo para refletir. Siiim! Porque, se sisudos cientistas da Dinamarca e Reino Unido não se acanharam em revelar curioso estudo sobre a flatulência durante voos de avião, por que não fazer elucubrações sobre o odorífico caminhão?!
Talvez convocássemos os mesmos catedráticos para outra pesquisa: “O Efeito dos eflúvios odorantes das fezes dos galináceos na mente humana”. Alguém poderia questionar a relevância e seriedade de mais essa. Ao menos o título é pomposo e eu teria uma justificativa, com embasamento científico, para meus devaneios. Só garanto uma coisa: não tenho titica na cabeça!
Mas, voltando ao assunto ou, mergulhando de cabeça nele( se é pra se sujar, que seja por uma boa causa!), pensei: quantas galinhas são necessárias para encher uma caçamba daquelas? Porque, se uma titica incomoda muita gente, um caminhão de titica incomoda muito mais!
A pergunta foi respondida no terceiro parágrafo: uma andorinha só não faz verão, e nem uma galinha só enche um caminhão mas, 4 milhões dão conta do recado facinho, facinho! A união faz a força ou, o fedor!
É o caminho de progresso: o que ninguém quer, agricultores pagam caro.
Você pode até fazer cara feia mas, deveria agradecer a essas pobres galinhas poedeiras e seus excrementos, a bonita alface que acabou de comprar na feira e serviu no almoço. É um ciclo de renascimento. É por uma boa causa.

Se a experiência acima não lhe pertence, muito bem, meus parabéns! Todavia, sinto informá-lo: pode ter se esquivado dessa mas não, de ter esbarrado, ou até conviver com alguém que, como aquele caminhão de granja, deixa um rastro malcheiroso por onde passa.
São pessoas que abrem a boca e você sabe que vai precisar tapar o nariz, para uma crítica que só desconstroi, uma observação maliciosa, uma intriguinha aqui, uma fofoca ali, humilhações…O clima pesa.
Lembrou de alguém?
Pode ser um colega de trabalho, um chefe que assedia moralmente o empregado, um parente próximo…E, se for você? Já parou pra pensar na influência que exerce para o bem, ou para o mal?
A questão é relevante o suficiente, a ponto de Paulo lembrar aos cristãos, em Corinto:
“Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo”( II Coríntios 2:15).
Mas às vezes saímos por aí efluindo odores mais fedorentos que aquele caminhão de titica, sendo que, como lembrado anteriormente, o segundo cumpre um propósito mais nobre: encher sua barriga!

Pensei em concluir com alguma citação pertinente, de algum filósofo notório, mas deixo isso pra vocês.
A propósito: este post deverá concorrer, assim como a pesquisa dos gastroenterologistas europeus, ao “Ig Noble Awards”, na categoria “Literatura”.

p.s.
Pra compensar, próximo post (que, espero, seja realmente mais próximo): receita de uma deliciosa e perfumada barrinha de limão!
Meu sincero agradecimento às carinhosas e respeitosas manifestações de apoio recebidas em meu último post. É por causa disso que a gente insiste e não desiste.
Chero( bom)!

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Tirando o pó…

O historiador, jornalista e crítico literário( além de, pai de Chico) Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil, descreveu o “desleixo” como uma “palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como ‘saudade’ e que, no seu entender, implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que ‘não vale a pena…’.” ( Destaque meu.)
A depressão, também um tipo de abandono( de desejos, planos e perspectivas…), poderia ser considerada “desleixo” emocional: um “dar de ombros” para o cotidiano, como se nada valesse realmente a pena.
O desânimo pode ser tanto, que não se tem vontade de explicá-lo. Como cantaria Lulu: “deixa assim ficar subentendido…”
Ou, como naquele samba antigo:
“Só melancolia os meus olhos trazem
Ah, quanta saudade a lembrança traz…”

O compositor exprime sentimentos através da sua música. Já eu, tento fazê-lo, escrevendo. Dessa vez, nem isso.
Não queria chamar atenção, despertar pena ou, indiferença.
Ao contrário de Paulinho da Viola, que ao ver sua Portela passar alegrou-se e cantou:
“Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar”, queria cantar o mesmo, mas sobre ela, a tristeza.

Se eu fosse um empresário abastado, ou líder político qualquer, poderia desembolsar R$22 mil e pagar pacote anti-stress num spa famoso: talvez, voltasse melhor. Como não sou, restam-me “terapias alternativas”: estourar plástico-bolha, ou enfiar a cara no trabalho( enfiar o pé na estrada e correr, também ajuda)!

Não sei se explica meu sumiço mas, espero, que me exima de culpa.
Porque, se até o papa se sente fraco, dobrado pelo peso da idade e responsabilidades, a ponto de abdicar de tão elevado cargo e ignorar um “chamado” divino, quanto mais, eu!
Fechei pra balanço, com direito à plaquinha na porta, de: “Não perturbe!”
Precisamos aprender com os gatos a lamber algumas feridas, sozinhos. Acho que nos devemos isso( e, aos outros), de vez em quando.

Pelo mais óbvio dos motivos( daqueles admissíveis, pelo menos…): o retorno do filho para a Alemanha.
Despedimos-nos no Rio, há cerca de 2 semanas. E parece que lá se foi parte de mim. Sobrou o vácuo…

Embora tudo tenha sido combinado previamente e, racionalmente, concordado e apoiado tal decisão, não sabia o quão difícil seria dessa vez. Da primeira, tinha certeza que voltaria…

Li a crônica da Danuza Leão, na Cláudia de janeiro. Tenho de concordar com ela: planos a curto, curtíssimo prazo podem salvar o dia, seu humor!
Sim, precisamos de planejamentos a médio e a longo prazo, de objetivos( e de buscar meios, para que os alcancemos!) mas, viver de expectativas futuras a perder de vista pode gerar frustrações. Pensemos longe porém, sem tirar os olhos do aqui-agora!

O blog completou 4 anos, final de janeiro.
Admito: fui mãe desnaturada e não lhe acendi nenhuma vela, não festejei; nem mesmo convencida estava de que haveria motivo para fazê-lo. Mas é importante lembrar.
Acho que aqueles me acompanham nesse tempo todo amadureceram, junto comigo e o SaladaLa.
Recebi e-mails, algumas mensagens pelo Facebook: todos, de simpatia. Sem cobrança. Apenas, recadinhos: “você faz falta”, “seu blog me inspira”…
Como continuar achando que “não vale a pena”?!
Então, pensei que uma hora precisaria sair do casulo e admitir, também: sou como o papa ou, depois dessa mudança de paradigma, como qualquer outro filho de Deus.
Pensei no recado indireto que a Danuza me deu( bem lembrado, pela amiga Rosana Sperotto) e comecei este post. Sendo coerente com o que escrevi, lá em cima, “desleixadamente” posterguei sua conclusão.
Há 1 semana, ensaio: abro o editor, escrevo, apago, fecho…releio, no outro dia. Acho tudo uma pieguice…
Talvez esteja enferrujada.
Dizem que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Não sou de folia, mas declaro oficialmente aberto o 5° ano do blog!
Não sei como será daqui pra frente, se “tudo diferente” mas, a curto prazo meu plano é este: desencantar, desencalhar, desempoeirar, desempoleirar, desopilar…
É hora, mesmo que atrasada, de festejar!

“Eu refleti na lição
Da minha vida insana:
Cuide bem daqueles que você chama de seus
E mantenha as boas companhias.”
( Queen)
Um abraço bem grande!

( E esse cara, aí de cima, foi aprovado no Studienkolleg bei den Universitäten des Freistaates Bayern, em Munich. Traduzindo: por enquanto, mais um ano longe. Propus-me, então, a não fazer planos num prazo maior que esse…)

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