“O Poder do Perdão”

Preparando-me para uma palestra na igreja encontrei vários textos sobre o perdão, na sua maioria, rasos. Destrinchar o tema é como atirar uma pedra num poço profundo…
Lembrei da recente passagem da vietnamita Kim Phúc, mais conhecida como a “menina do napalm”, pelo Brasil.

A imagem eloquente, que ajudou a dar fim numa guerra, ganhou o mundo e modificou profundamente o destino daquela menina: hoje, com 49 anos, Kim mora com o marido e filhos em Toronto, Canadá. Em 1997 tornou-se embaixadora da boa vontade da Unesco e criou uma fundação para ajudar outras crianças vítimas de guerras.
Em entrevista ao Fantástico ela disse ter perdoado o capitão americano que ordenou o ataque à sua aldeia.
Atitude corajosa mas, difícil. Mais fácil é para nós falar que, fazer como Kim, praticar.

Assistindo ao Jornal Hoje vi a notícia chocante de um pai que, esquecendo o filho de 10 meses dentro do carro, encontrou-o já sem vida, asfixiado.
Coloquei-me no lugar dele por um instante e, não foi nada confortável.
Custamos a perdoar os outros; também, a nós mesmos.
A falta de perdão, certamente, fomenta muitas doenças psicológicas e até, físicas.

Encontrei um texto, na Seleções Readers Digest, que gostaria de dividir com vocês:
O poder do perdão
Perdão: os benefícios que a resiliência traz para nossa saúde física e mental
Por Ágata Székely

Quando me sugeriram o tema deste artigo, pensei: E se fizéssemos um sobre “O valor da vingança”? Eu me lembraria de mais exemplos…

Como canta Sir Elton John, o perdão parece ser um dos conceitos mais difíceis de se pôr em prática. Além disso, pelo que consegui investigar, é uma palavra mal-entendida.

Muitas vezes não perdoamos porque acreditamos que o perdão contribui para a injustiça. Quem causa dano não merece perdão, pensamos. Se perdoarmos, voltarão a nos ferir, vão se aproveitar da “nossa nobreza”. Às vezes, o desgosto com os prejuízos e as ofensas não se reduz nem com o passar do tempo. Podemos ficar enfurecidos com nossos pais pelos erros cometidos durante a nossa infância, com quem já abusou da nossa boa-fé, com aquela cunhada que nos chamou de “gorda” (ou assim deu a entender) num Natal há dez anos.

Não perdoamos ninguém. Nem sequer a nós mesmos.

Guardamos a ferida dentro da alma como um tesouro precioso, para tirá-la da memória de vez em quando e fitá-la, absortos, como se fosse um álbum de fotografias, uma joia de vitrine. Nesse momento, passamos outra vez pela mente o filme triste do episódio imperdoável e o revivemos. O desgosto com o passado se alimenta de grandes porções do presente. Eis aí o rancor.

Mas, na verdade…

… por que valeria a pena perdoar?

Só por uma questão religiosa, por puro altruísmo? Em um mundo tão absolutamente cruel em tantas ocasiões, há alguma questão que seja impossível de desculpar?

As informações a respeito disso são ricas e variadas. Os especialistas se dedicaram a estudar cientificamente o perdão e descobriram alguns fatos bastante surpreendentes. 

Para conhecer e dominar o perdão, primeiro temos de saber de que “matéria” ele é composto, o que é verdadeiramente e o que não faz parte desse sentimento transformador.

Do que é feito o perdão

Fred Luskin é conselheiro, psicólogo da saúde e diretor do Projeto do Perdão, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Em seu guia O poder do perdão, que reúne casos e estudos tirados desse programa, Luskin explica que os problemas não solucionados são como aviões que voam dias e semanas sem parar e sem pousar, consumindo recursos que podem ser necessários em caso de emergência. “Os aviões do rancor se convertem em fonte de estresse e, muitas vezes, o resultado é um choque”, afirma Luskin. “Perdoar é a tranquilidade que se sente quando os aviões pousam.”

O especialista explica que perdão não é aceitar a crueldade, esquecer que algo doloroso aconteceu nem aceitar o mau comportamento. Também não significa reconciliar-se com o agressor. “O perdão é para nós, não para quem nos ofendeu”, diz Luskin. “Aprendemos a perdoar como aprendemos a chutar uma bola. Minha pesquisa sobre o perdão demonstra que todos têm a capacidade de se incomodar, mas a usam sabiamente. Não desperdiçam energia valiosa enredando-se em fúria e dor quando nada se pode fazer. Ao perdoar, admitimos que nada se pode fazer pelo passado, e isso permite que nos libertemos dele. Perdoar ajuda os aviões a pousar para que sejam feitos os ajustes necessários.”

Segundo Luskin, o perdão serve para relaxarmos e não significa que o agressor “se dê bem”, nem que aceitamos algo injusto. Ao contrário, significa não sofrer eternamente pela ofensa ou pela agressão.

Mas, e se a agressão tiver sido grave demais?

A lição de Kim

Era 8 de novembro de 1972, durante a guerra do Vietnã. A família de Kim Phuc tentou proteger-se num templo próximo quando ouviu o barulho dos aviões americanos. Mas o refúgio não foi suficiente contra as bombas de napalm que caíam do céu, e tudo explodiu em chamas. 

Nick Ut, correspondente da agência de notícias Associated Press, tirou nesse momento a foto tristemente famosa que percorreu o mundo todo. Ali estava Kim, aos 9 anos, nua e em prantos, com grande parte do corpo coberta de queimaduras de terceiro grau. Apesar disso, a menina sobreviveu. Passou por 17 cirurgias e, depois de ser usada durante anos como símbolo da resistência do seu país, pediu asilo no Canadá. Mas o notável de sua história é que Kim perdoou o capitão John Plummer, oficial que ordenou o bombardeio de sua aldeia.

Em El don de arder [O dom de queimar], Kim conta à jornalista Ima Sanchís que, ao encontrar-se com o militar num evento, não o esbofeteou; preferiu abraçá-lo: “A guerra faz com que todos sejamos vítimas. Eu, quando menina, fui vítima, mas ele, que fazia o seu trabalho de soldado, também foi. Tenho dores físicas, mas ele tem dores emocionais, que são piores do que as minhas.” 

Kim capitalizou suas antigas feridas de forma positiva. Hoje, viaja pelo mundo em campanha pela paz e é presidente da Fundação Kim Internacional, dedicada a dar assistência a vítimas de conflitos armados.

Mas qual o segredo para agir com tanta integridade moral? 

Resiliência, a palavra mágica

Boris Cyrulnik sofreu com a morte dos pais num campo de concentração nazista, do qual conseguiu fugir quando tinha apenas 6 anos. Depois que a guerra acabou, ele ficou vagando de um campo a outro até chegar a uma fazenda controlada por uma instituição de caridade. Durante sua permanência, os vizinhos lhe ensinaram o amor pela vida e pela literatura. Mais tarde, ele decidiu ser médico e estudar os mecanismos da sobrevivência. Hoje é psiquiatra, neurologista, escritor, psicanalista e especialista em resiliência, um conceito psicológico que define a capacidade de superar as adversidades e ser forte durante as crises. “A resiliência é o antidestino”, diz Boris. “Dá trabalho, não é fácil, mas é um espaço de liberdade interior que permite não se submeter às feridas.”

Quem consegue superar tragédias ou sair de períodos difíceis de dor emocional pode abandonar o papel de vítima e começar uma vida nova, como Boris e Kim. Você já se perguntou por que algumas pessoas, oprimidas pelo desamparo na infância, caem na delinquência e se tornam agentes de agressão, ao passo que outras se recuperam, tornam-se pessoas de bem e são felizes, fortes, prósperas e bem-sucedidas? A resposta é a resiliência e, para consegui-la, o perdão é um dos ingredientes necessários. 

De acordo com a psicoterapeuta Rosa Argentina Rivas Lacayo, presidente da Associação Latino-americana de Desenvolvimento Humano e da Associação de Orientação Holística do México, “sem perdão não podemos crescer nem ficar mais fortes com a adversidade. Também não conseguiremos ser flexíveis e resilientes. Algumas pessoas ‘cozinham’ a dor em fogo brando para mostrar ao mundo como foram maltratadas, e não querem perceber que assim se prejudicam. Ao mundo, não interessa o nosso passado, só o que somos capazes de fazer e dar agora. Quando nos apegamos à dor antiga, a autocomiseração embota a capacidade de dar e, quando assumimos o papel de mártires, ficamos à espera de que alguém resolva milagrosamente a nossa vida.”

Para Rivas Lacayo, o perdão nos aju­da a reconhecer e admitir que somos frágeis e que não precisamos esconder essa fragilidade. Quando nos tornamos conscientes dos nossos limites, evitamos que a experiência se repita. 

Não é pouco, porém há mais: e se houvesse…

…provas científicas da utilidade do perdão?

O perdão, proteção contra as doenças

Além da saúde espiritual, existem várias provas de que deixar para trás a hostilidade protege a saúde física. E não é metáfora nem “modo de dizer”. Um estudo chamado Perdão e Saúde Física, realizado pela Universidade do Wisconsin, mostrou que aprender a perdoar pode ajudar indivíduos de meia-idade a evitar doenças cardíacas. Nessa pesquisa, foi descoberto que, quanto maior a capacidade de perdoar, menos problemas nas artérias coronárias surgem no decorrer da vida. Por outro lado, quanto menor a capacidade de perdoar, mais frequentes os episódios de doenças cardiovasculares.

Em relação à recordação das feridas, eis aqui outra informação importante: uma pesquisa indicou que pensar cinco minutos em algo que provoca agitação, raiva ou desgosto pode diminuir a variabilidade da frequência cardíaca (VFC), parâmetro da saúde do sistema nervoso que mostra a flexibilidade do sistema cardiovascular. 

Para enfrentar e reagir ao estresse em boas condições, o coração precisa de flexibilidade. O mesmo estudo mostrou que esses cinco minutos de pensamento negativo desaceleram a reação do sistema imunológico, que defende o organismo.

Os benefícios do perdão (tanto os que protegem o corpo quanto os que aliviam e “limpam” a alma) não se aplicam só aos outros, mas também a n&ooacute;s mesmos, quando, apesar dos erros e culpas, somos capazes de nos perdoar e deixar de nos sentir merecedores de castigo. Perdoar não é esquecer nem persistir no erro. É começar de novo, com a experiência adquirida, sem os rancores a sobrevoar e confundir as possibilidades do presente.

Assim como o amor, o perdão não é al­go que se “dê” ao outro, mas um pre­sente vital que damos a nós mesmos.

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Eloá

20 Comentários

  1. Gostei imenso do texto, Láely.
    Sempre achei que o perdão tinha mais a ver connosco do que com aquele a quem perdoamos.
    Aquelas pessoas que eu vejo serem incapazes de perdoar, são infelizes. Esse não é o caminho!

  2. Belíssimo e profundo este texto La, ainda bem que tirei tempo para ler, me fez muito bem!
    O perdão, como nos ensinou Cristo, é poderoso, faz bem para todos nós!!
    Bjs e bom sábado!
    Leila

  3. com certeza, quem vive somente pra sentir a dor do passado vive somente do passado, não consegue pensar em futuro algum, eu mesma as vezes até chego a rir de algumas situações, que foram muitos sapos a engolir, o minha profissão que o diga! Hoje vivo para o futuro e tudo que ele pode me proporcionar, vivo cada dia tentando fazer o meu melhor… não sei se perdoei, exatamente, mas esqueci das coisas doloridas do passado…

  4. Gostei do post, me levou a reflexão e confusão,rsrs, sempre acho a palavra Perdão coisa meio Divina, sentir-se perdoado é sentir-se livre, compreendido, mas ao mesmo tempo como compreender um assassino cruel? sinceramente , nem sei. Também concordo que ninguém deve viver se punindo, lembrando de coisas desagradáveis, a vida tem que seguir e leve, agora, o pior deve ser quando a pessoa não consegue perdoar-se, como esse pai que esqueceu a bebê no carro, ou talvez, se ache vítima de uma coisa do destino, que o deixou esquecido por horas, eu não consigo entender tamanho esquecimento,mas aconteceu, a mãe da criança o perdoará,ele se perdoará?? A vida terá que seguir,com essa triste cicatriz. Acho que o mais importante é perdoar a si mesmo. Que confusão que eu fiz,kkk

  5. Laély,
    Muito bom esse texto, é uma reflexão sempre oportuna,destaco o trecho : ” problemas não solucionados são como aviões que voam dias e semanas sem parar e sem pousar, consumindo recursos que podem ser necessários em caso de emergência.”.
    Abração

  6. Maravilhoso presente que deste a todos nós com um tema tão importante e necessário.
    Conservemos nossos recursos para casos de emergência. Os exemplos dados no texto são muito claros, é isso mesmo, perdoar sempre e em primeiro lugar perdoar a nós mesmos, assim como para amar ao próximo antes precisamos nos amar.
    Grande abraço,
    Beth

  7. Repetirei as palavras da Elisabeth Zir: é um presente maravilhoso que você os deu com este texto.
    A linguagem figurada de um avião que não pode pousar é perfeita.
    Uma exaustão, um mal que corrói a nós mesmos. Que alívio então o perdão.
    Não sabia do abraço da garota Kim… um aprendizado.
    Obrigada. Beijo

  8. Que texto lindo, perdoar não quer dizer que você vai ser ou voltar a ser amigo, apoiar todos os erros… mas, libertar-se. Difícil, mas necessário.

  9. Lindo post, Laély. Conheço algumas mulheres cujo marido pediu a separação (ou “foram abandonadas por ele” como elas dizem) que tornaram-se pessoas amargas e que fazem questão de expor sua mágoa mesmo depois de anos, enquanto os ex-maridos refizeram suas vidas com outras companheiras e vivem muito bem. Que perda de tempo e energia, né? Não que eu ache que seja fácil. Mas, acho que, em nome de nós mesmos, da nossa vida e bem-estar, devemos tentar seguir em frente. Ou será que vale a pena desperdiçar a vida (que é bonita, é bonita e é bonita, já dizia Gonzaguinha – um cara que perdoou seu pai) curtindo mágoas, ressentimentos? Certa vez li uma frase assim: Viver bem: a melhor vingança de todas. Acho que é por aí – perdoe, entregue pra Deus e viva bem que as dores vão ficando cada vez mais leves até sumirem por completo. E, se possível, ajude pessoas que se sentem como você já se sentiu um dia. Aí, a recuperação é até mais rápida. Beijos

    1. Kathia, acho que já publiquei um texto da Danuza Leão falando sobre isso: viver bem e, feliz, é a melhor “vingança”, pelo menos, a mais saudável pra todos.
      Falando em Gonzaguinha, quero comentar o filme sobre ele e o pai: imperdível! Uma lição de reconciliação.
      Beijo!

  10. Perdão é um assunto super complexo. Muitas vezes, o causador nem vê a dimensão do estrago que faz , ou vê o estrago e dele se alimenta. Ou ainda, não vê e se alertado, se redime…ou não. Em todas essas possibilidades, penso que perdoar é lançar o que e quem gerou a necessidade do perdão à providência cósmica e ou divina de que cada um colhe o que planta de bom e de ruim, libertando-se do controle sobre isso e seguir a própria vida. Pode não ser fácil e não é, mas liberta e diminui a força do causador que vê que o alvo não é atingido. Parabéns por discorrer sobre tema tão difícil.

  11. Complementando: No caso do pai, difícil é separar responsabilidade de culpa. Não dá pra negar a responsabilidade sobre o acontecimento tão triste, mas não houve intenção e que não faz dele um culpado: acredito ser esse o caminho para o auto perdão, o mais difícil deles.

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