O “X” da questão

Certa vez levei ao marido um texto para que lesse, esperando provocar nele, também excelente escritor e argumentador, ao menos metade de meu entusiasmo. Em vez disso uma observação seca, mais ou menos, assim:
“Escreve como mulher.”
Entre decepcionada e estupefata, fiquei com aquilo na cabeça: “como assim?…”
Respondeu como homem, concluí.
Mas, onde estaria o DNA daquelas letras? O duplo cromossomo “X” escondido nas entrelinhas, o estrogênio escorrendo pela folha?…
Talvez ele quisesse me dizer: escreve com sensibilidade.
Melhor, assim. Sosseguei.

Elegância, concisão, ironia são algumas características que aprecio em bons escritores, independente de sexo, hormônios ou, seja lá o que for. Características de Luís Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes e deste, que revelou um lado diferente, “feminino”, mais sensível num texto publicado na revista Veja, onde era colunista, em 09 de maio de 2001.
Gostaria de escrever como homens. Como esses.

Já conhecia essas linhas, e a história por trás delas, mas nessa semana outra escritora, Lya Luft, o citou por causa do último livro dele “A Queda-As Memórias de um Pai em 424 Passos“. O “enfant terrible” Diogo Mainardi.

Meu pequeno búlgaro
TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO - O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual

“Eu achava que as palavras
eram inofensivas. Para mim,
o politicamente correto era
folclore. Já não penso assim”

Diagnosticaram uma paralisia cerebral em meu filho de 7 meses. Vista de fora, uma notícia do gênero pode parecer desesperadora. De dentro, é muito diferente. Foi como se me tivessem dito que meu filho era búlgaro. Ou seja, nenhum desespero, só estupor. Se eu descobrisse que meu filho era búlgaro, minha primeira atitude seria consultar um almanaque em busca de informações sobre a Bulgária: produto interno bruto, principais rios, riquezas minerais. Depois tentaria aprender seus costumes e sua língua, a fim de poder me comunicar com ele. No caso da paralisia cerebral, fiz a mesma coisa. Passei catorze horas por dia diante do computador, fuçando o assunto na internet. Memorizei nomes. Armazenei dados. Conferi estatísticas. Pelo que entendi, a paralisia cerebral confunde os sinais que o cérebro envia aos músculos. Isso faz com que a criança tenha dificuldades para coordenar os movimentos. Meu filho tem uma leve paralisia cerebral de tipo espástico. Os músculos que deveriam alongar-se contraem-se. Algumas crianças ficam completamente paralisadas. Outras conseguem recuperar a funcionalidade. É incurável. Mas há maneiras de ajudar a criança a conquistar certa autonomia, por meio de cirurgias, remédios ou fisioterapia.

Um dia meu filho talvez reclame desta coluna, dizendo que tornei público seu problema. O fato é que a paralisia cerebral é pública. No sentido de que é impossível escondê-la. Na maioria das vezes, acarreta algum tipo de deficiência física, fazendo com que a criança seja marginalizada, estigmatizada. Eu sempre pertenci a maiorias. Pela primeira vez, faço parte de uma minoria. É uma mudança e tanto. Como membro da maioria, eu podia me vangloriar de meu suposto individualismo. Agora a brincadeira acabou. Assim que soube da paralisia cerebral de meu filho, busquei apoio da comunidade, entrando em tudo que é fórum da internet para ouvir o que outros pais em minha condição tinham a dizer sobre os efeitos colaterais do Baclofen ou sobre a eficácia de tratamentos menos ortodoxos, como a roupa de elásticos dos astronautas russos usada numa clínica polonesa.

A paralisia cerebral de meu filho também me fez compreender o peso das palavras. Eu achava que as palavras eram inofensivas, que não precisavam de explicações, de intermediações. Para mim, o politicamente correto era puro folclore americano. Já não penso assim. Paralisia cerebral é um termo que dá medo. É associado, por exemplo, ao retardamento mental. Eu não teria problemas se meu filho fosse retardado mental. Minha opinião sobre a inteligência humana é tão baixa que não vejo muita diferença entre uma pessoa e outra. Só que meu filho não é retardado. E acho que não iria gostar de ser tratado como tal.

Considero-me um escritor cômico. Nada mais cômico, para mim, do que uma esperança frustrada. Esperança frustrada no progresso social, na força do amor, nas descobertas da ciência. Sempre trabalhei com essa ótica antiiluminista. Agora cultivo a patética esperança iluminista de que nos próximos anos a ciência invente algum remédio capaz de facilitar a vida de meu filho. E, se não inventar, paciência: passei a acreditar na força do amor. Amor por um pequeno búlgaro.

 

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12 Comentários

  1. Laely, eu amei este livro com todas as minhas forças. Ganhei há duas semanas, o li de uma vez, pausei um dia e o reli saboreando. Muito bom mesmo, e olha que eu não suporto o Mainardi, o acho besta que dói. Só que passei a vê-lo com outros olhos depois de A Queda. Ainda não consegui postar no blog, mas uma hora escrevo. Achei tuas palavras ótimas!

    1. Mainardi é assim: ame-o, ou deixe-o! Eu sempre amei: escrita afiada, ironia fina, vê o que a maioria não vê. Gosto e, ponto.
      Ainda quero ler o livro.
      Beijo!

  2. Oi, Laély. Acompanho seu blog há uns meses, mas nunca comentei, acho. Tenho este texto, arranquei a página da revista, na época, e guardei-o por muitos anos. Gosto muito do Mainardi, sem dúvida uma das pessoas mais lúcidas que conheço. Estou ansiosa pra ler o livro. Acho que deve ser muito bom. Um abraço!

  3. Laely,
    Desde que tenho o ArteAmiga, descobri que escrever me encanta, e muito. Mainardi sempre foi referência, pela capacidade de dizer sem ondas. Esse texto, quando saiu na revista há anos, me impressionou muito, porque sou muito envolvida com crianças com Síndrome de Down e a crueza das palavras desse pai me fizeram refletir muito. Como fazia palestras em maternidades sobre a síndrome na época, mudei minha abordagem depois dessa leitura, por ver que o encarar de frente, sem muitos não-me-toques era fundamental. Obrigada por me fazer lembrar. Vou ler o livro, certeza. E depois vai para a Freguesia do Livro!
    Bom domingo,

  4. Olá Laely!
    Ainda não li esse livro, mas o trecho que vc selecionou me fez refletir sobre como podemos mudar nossas conficções, nosso jeito de pensar e de ver o mundo dependendo do que estiver acontecendo em nossa vida. Vou atrás para fazer a leitura completa. Beijokas pra você!!!

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