“Indiferença ou sabedoria”

Voltei do Rio na segunda à noite, depois de 5 dias maravilhosos! De fato, foi quando me senti comemorando 43 anos. Em junho passava por uma daquelas crises existenciais, quando simplesmente recomendei( em tom de ordem) ao marido que não organiza-se nenhuma festa de aniversário pra mim.
Estava aqui, ansiosa pra contar e mostrar os detalhes da prova, mas a máquina digital não aguentou correr 21 Km debaixo de chuva: depois da chegada, recusou-se a funcionar novamente. Um pequeno problema técnico para acessar os dados do cartão de memória que, espero, contornar o mais rápido possível.
O trecho de avião Rio-Vitória é tão curto( cerca de 45′), que mal tive tempo de atualizar a leitura. Folheei calmamente a revista Cláudia deste mês, dando atenção, inclusive, à colunas que costumo pular.
Quando vi a Danuza Leão falando sobre “desapego”, no Mais Você, passei a admirá-la mais.
 
Este é um texto que eu gostaria muito de ter escrito, mas ela, sem saber, o fez pra mim, retratando em palavras muito do que tenho vivido ultimamente. Por isso gostaria de dividi-lo com vocês:

“Indiferença ou sabedoria”
      Se alguém perguntar se sua vida foi, até agora, um sucesso ou um fracasso, o que você vai responder? Detalhe: se foi destaque da escola de samba na avenida e levantou a arquibancada, fique logo sabendo que não tem nada a ver. Aliás, dinheiro não tem nada a ver, ser deslumbrante também não, ter aparecido em várias capas de revista também não. Então, o que é ter tido uma vida de sucessos? Bem, depende.
      Todos nós já ouvimos da boca de uma mulher muito modesta a frase: “Criei meus filhos, estão todos encaminhados; posso me considerar muito feliz e realizada”. E quem nunca ouviu pessoas que aparentemente têm tudo – por “tudo” entenda-se família, saúde, dinheiro, amor, mesmo que não seja verdadeiro e não necessariamente nessa ordem – se queixando e tentando, inutilmente, entender o significado da vida?
     Temos, quase todos, razões para achar que nossa vida foi gloriosa ou um vale de lágrimas. Você, por exemplo, já deve ter passado por ótimos e por péssimos momentos. Quais ficaram no seu coração? Os melhores ou os piores? Difícil avaliar. Às vezes, a gente se acha uma pessoa privilegiada; outras vezes, uma coitada, dependendo do que mais valoriza naquele momento – pois, conforme a hora, os valores também mudam. Ou será que você se considera uma pessoa coerente?
    Houve um tempo em que seus sonhos se resumiam a passar a vida viajando pelo mundo em jatinhos, comprando tudo o que visse, num turbilhão que não deixasse tempo nem para pensar; isso, sim, seria a felicidade – só que não foi. Depois, tudo o que quis foi encontrar um bom marido, mesmo meio sem graça, que tivesse hora certa para chegar em casa, com um bando de crianças perturbando em volta, para não ter tempo de pensar se era feliz ou infeliz. Isso. sim, seria a felicidade – só que “também não foi.
       Aí, achou que o importante seria a realização pessoal, independentemente de um homem. Também não foi, mas conseguiu o que parecia impossível; viver sem estar permanentemente apaixonada, ou melhor, sem inventar que estava apaixonada.
      Hoje, se alguém perguntasse se sua vida foi – até agora – um sucesso ou um fracasso você não seria capaz de responder. Foram tantos bons momentos, e tão felizes, que prefere não lembrar. Quanto aos maus momentos, foram também tantos, e tão terríveis, que faz tudo para também não lembrar – e às vezes até consegue.
    Agora, já sabe; às vezes, você acorda feliz – se nem saber por quê -, sai de casa, na primeira esquina tropeça e fica no pior humor da vida. Já dia seguinte, acorda péssima, o telefone toca alguém de quem você gosta, e a vida se toma, ~ repente, boa de ser vivida. É essa certeza de tudo pode mudar em minutos, segundos, que nos ajudam a segurar a onda quando tudo fica difícil. Se as coisas estiverem indo mal, pense em quantas outras ocasiões elas estiveram tão mal quanto, ou até pior, e tudo passou. Não, não reclame, não chore, não se descabele, apenas espere;  se possível, com aquela quase indiferença que já viu tantas vezes nos olhos dos mais velhos, que sabiam que ia passar – porque sempre passa. Essa indiferença pode ser chamada de sabedoria ou experiência, o que, no fundo, é mais menos a mesma coisa.

                              (Revista CLAUDIA,  julho  de  2012.)

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20 Comentários

  1. Então agora digo:feliz aniversário,no maior sentido deste,o de nascer para mais um ano!
    E sim,feliz por ter estado,pelo menos um pitiquinho perto nesses 5 dias,
    bj

  2. La, (posso?), Já te falei que gosto muito do postas aqui? Pois é, este texto veio ao meu encontro assim, de cara a cara, sabe como é? Me deu um safanão daqueles, por ter esquecido de aquietar meu coração e esperar em Deus. Tudo vai dar certo. Amei o texto. Bjks . Tânia – De Pato Pra Ganso

  3. Olá Laély,
    Sempre arrasa quando escreve ou quando toma as palavras do outro.Sou fã da Danuza e da Laély.Tomara que possamos ver as fotos da corrida. Feliz Aniversário!

  4. Que post bacana Laely!
    Acredito que como me tocou, irá tocar muitas mulheres.
    A vida é uma constante, os valores mudam, mas como diz Danuza: olhar os problemas com indiferença pode ser sabedoria, mas também pode doer bem menos…

    Parabens pelo seu aniversario, pela prova.
    Sou sua admiradora.

    Beijos
    Ana

    1. Obrigada, Ana.
      Eu não chamaria essa sabedoria de “indiferença”, mas interpretei como sendo um “distanciamento”, necessário para avaliar imparcialmente o verdadeira valor das situações.


  5. Que prazer ler seu blog!
    Sabe que eu eu antes ficava sofrendo muito com o passado ou com medo do futuro, hoje valorizo demais o hoje! Só a experiencia pra ajudar mesmo, né ?
    Outra coisa … sobre essa frase: “essa indiferença pode ser chamada de sabedoria ou experiência” … eu chamo de fé ! Esperar … esperar, que o pior vai passar ! Sempre passa!
    E a corrida, como foi ???
    Beijo
    Patricia Tedeschi

  6. SABE, ONTEM MESMO ESTAVA CONVERSANDO COM MINHA FILHA SOBRE O MEU PASSADO E O QUE SURTIU HJ PARA MINHA VIDA. EU NÃO TIVE SABEDORIA PARA SUPERAR PERDAS NA MINHA INFÂNCIA E ME DEIXEI LEVAR POR EMOÇÕES QUE HOJE EM DIA VEJO O QUANTO EU FUI IMATURA. TEMPO PERDIDO QUE NÃO VOLTA MAIS E QUE PASSOU E ME MACHUCA ATÉ HOJE…
    SE EU DESLIGASSE O BOTÃOZINHO DA EMOÇÃO E APERTASSE O BOTÃO DA INDIFERENÇA SERIA TUDO DIFERENTE….EU ME SINTO MUITO FRUSTRADA POR TUDO QUE PASSEI E HJ A INCENTIVO A BUSCAR CONHECIMENTO E NÃO VALORIZAR MUITO OS MOMENTOS QUE PASSAM E TIRAM O NOSSO FOCO.
    GOSTEI DO ARTIGO, VIAJEI LENDO E REFLETI E APRENDI MUITO COM ELE E MINHAS DOCES E AMARGAS EXPERIÊNCIAS.
    ABRAÇOS E ATÉ BREVE.

    1. Débora, olhar pra trás e aprender com nossos erros e acertos é um exercício de maturidade. Não subestime suas experiências, mesmo que ruins, porque graças a elas somos o que somos, hoje.
      Beijo!

  7. Quando a tempestade passa a gente pode enxergar pelo lado bom das nossas experiências.
    Obrigada pelas palavras simples e tão verdadeira pra mim que passei por tantas e boas, mas hj me sinto mais forte e preparada pra qq tempestade. Obrigada Laély.

  8. La, desde sempre tive crises existenciais, acho mesmo que não viverei sem elas nunca. Vivo momentos alternados de euforia e deprê, das piores possíveis. Mas há muito aprendi a relativizar, me ‘dei alta’ da psicoterapia e procuro viver um dia de cada vez. Na maior parte do tempo, penso que sou feliz, e de uma felicidade genuína, independente de coisas materiais, mas estou satisfeita porque consigo ver beleza e poesia onde a maioria das pessoas não vê, e me irrito porque as pessoas não veem o que eu vejo.

    Nossa, o texto da Danuza me fez refletir pra caramba e estou eu aqui, fazendo terapia no teu blog kkk

    Gostei demais do texto, também gostaria de tê-lo escrito rs

    bjs

  9. Laély,
    Gostei muito do post, me identifico muito com as palavras da Danuza, e estas, especificamente, vieram num momento em que precisao acreditar que tudo, mas rigorosamente TUDO, passa.
    Porque se não for assim, vai ser difícil seguir em frente.
    Obrigada por ter sido o meio de fazê-las chegar em mim!
    Bjs

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