Admirável Silmara

Postado por Laély, no dia 01-10-2011 - Categoria: crônicas

Conheço a Silmara Franco desse mundo virtual há mais ou menos 2 anos, “apresentada” pela Cris Guerra, do Hoje Vou Assim
Foi paixão à primeira lida: Silmara é daquelas poucas pessoas que, de tanto respeito pelas letras( e pela paciência dos outros!), não desperdiçam palavras!
Ano passado tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente, na minha passagem por Campinas: a admiração só aumentou porque, além de escrever muito bem, é doce, elegante e simpática.
Nas mensagens curtas que trocamos pelo Facebook, deixei-lhe um recado esta semana: caso comprasse um caminhão, seria ela a escolhida para criar a frase do parachoque.
O que escreve sempre me provoca: uma exclamação, ou interrogação, que reverberam lá dentro da minha cabeça.
Já recomendei outras vezes por aqui, mas o que é bom é para ser divulgado. Portanto, o texto de hoje é dela:
Admirável (des)mundo novo

Imagem:dAqui

Eu envelheço e o mundo vai ficando novo. Meus espelhos estão mais sinceros, e as propagandas, mais mentirosas. Às vezes, eu queria me trocar, me devolver; acho que vim com defeito. Minha translação é lenta, ando atrasada para viver. Parece que o sol se põe dum lado diferente a cada dia, brincando de ser e não ser. Me confundo toda nessa giração. De quantas rotações somos feitos, afinal, no admirável (des)mundo novo?

Tenho e-mail, Facebook, Twitter, blog, celular 3G e o diabo a quatro ponto zero. Com quem ou o quê, exatamente, isso tudo me conecta? Agora tudo é descobrível, decifrável. (Exceto o coração de quem ama – ou desama.) Os segredos de Fátima só permanecem ocultos para quem não tem banda larga. As teias sociais capturam até os avisados. E longe, de fato, é um lugar que não existe. Só sei que dependo de água e fibra óptica para viver. Tem dias que preciso mais de uma que da outra. Não conto qual.
Vivo, com expansões no lugar de contrações, num parto incessante de ideias desvairadas. Algumas já nascem mortas. Outras vingam; são amamentadas com fé, liberdade e imaginação. Tento escrever meu diário, mas o presente vira memória num piscar de olhos. Sei que a cabeça está cheia quando passo a me procurar, o tempo todo, para conversar. Qualquer hora, mando dizer que não estou.
Me alimento de atualizações, bebo a pressa, sempre com pressa, e arroto posts aleatórios. Me embanano diante de tantas opções, no infinito self-service do admirável (des)mundo novo. No entanto, recuso o adoçante, o light, o diet. A vida precisa ser integral.
Dei frutos. Mas eles continuam rente ao meu tronco, lambendo sua seiva diária. Eu os protejo e lhe dou sombra. São meus admiráveis filhos novos. Vou imprimindo em mim cicatrizes em forma de tatuagem, enquanto a da cesárea vai desaparecendo. É um recado.
Na admirável (des)ordem nova, os pecados são mais complexos. Os dez mandamentos já se multiplicaram: “Não compartilharás em vão”. Desobedeço ao menos um, todos os dias. Deus, eternamente online, nem liga. Testo sua onisciência, imito sua onipresença e não espero pelo castigo. Ele é moderno. Eu, não.

Silmara Franco, Fio da Meada

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