Vinha o filho ainda longe…

O filho do meio assistia com atenção a uma palestra, em DVD, quando me aproximei, curiosa. 

O orador era um barbudo com cara de “homem do saco”, guru, ou, coisa parecida.  Carismático, ele fazia uma reflexão baseada num texto bíblico, com uma profundidade e retórica que me prendeu, do início ao fim!

A princípio não reconheci mas logo o filho tratou de apresentar, aquele de quem muito ouvira falar nos meus tempos de adolescente, em Manaus: tratava-se do ex-pastor presbiteriano, agora intitulado, Reverendo Caio Fábio.

Figura pública festejada por intelectuais, artistas e políticos na década de 90, caiu no limbo depois de ter o nome envolvido em sucessivos escândalos, dentre eles, do “Dossiê Cayman“. 
Em seguida separou-se da mulher(após ela descobrir o caso que ele mantinha com a secretária), perdeu o título de pastor da Igreja Presbiteriana, dinheiro, peso, status, credibilidade, um filho, num acidente de carro…enfim, foi ao fundo do poço!

E alguém já deve estar se perguntando: por que eu faria uma preleção assim, tão negativa, aparentemente, a respeito de uma pessoa?

Primeiramente, os fatos a respeito de Caio Fábio são públicos, sendo confirmados pelo próprio: “sou um anjo caído”, chegou a declarar à Veja, em 1999.

Segundo: todos nós, em algum momento da vida derrapamos, perdemos o compasso. É difícil levantar. Principalmente: enfrentar a descrença dos que estão próximos, ou, dos que deveriam ser os “próximos”.

Pesquisando o site oficial de Caio Fábio encontrei um texto, lido ontem à noite, que me tocou. Pensei na história dele, na minha, na sua…
Uma história bastante conhecida mas que ele, de forma peculiar, conseguiu lançar uma nova luz.

Apesar de aqui não ser um blog religioso ele é pessoal, espelhando crenças minhas, religiosas ou não.
Gostaria então que deixassem possíveis preconceitos de lado e esquecessem o Fábio, ou a Laély. Apenas, reflitamos:
“Vinha o filho ainda longe…”


Ora, chegavam-se a Jesus todos os cobradores de impostos e os considerados pecadores para o ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles. Então Jesus lhes propôs esta parábola:


Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres.

Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades. Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada.

Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.

Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.

Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés; trazei também o bezerro, cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se.

Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar.

Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me alegrar com meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.

Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.



PRIMEIRO ANO DO SITE.

________________________________________________

A parábola do Filho Pródigo todos conhecemos. Já preguei sobre ela centenas de vezes. Olhei-a sob inúmeros aspectos.

É minha história. É a história da humanidade. É a história de quem foi e nunca deixou de ser. É também a história de quem nunca foi mas nunca chegou a estar. Sobretudo, é a história do amor de Deus e do modo como Ele age como Pai.

Pai para quem foi e nunca deixou de ser. Pai para quem nunca foi mas nunca chegou a estar.

Hoje, no entanto, eu estava quase dormindo quando ouvi essa voz, que dizia: “Vinha ele ainda longe, e seu pai o avistou; e, correndo, o abraçou…”

O Pai não somente deixou ir e aguardou a volta… Ele viu de longe e fez o caminho de volta com o filho.

Entre o olhar do Pai e a volta para casa, existe um “ainda longe”. O Pai foi buscar o filho ainda longe. Longe de ida, longe de volta!

Em casa é que o problema começou: quem nunca foi mas nunca chegou a estar não gostou que aquele que foi e nunca deixou de ser tivesse voltado!

O Pai, todavia, só participa disso porque é Pai, mas não se deixa seqüestrar por nada e por ninguém. Quem não gostar, que não goste. O Pai, no entanto, vai longe buscar seu filho. E há um caminho que o Pai e esse filho precisam fazer só os dois.

Em casa, há muito ciúme, muita competição, muita doença.

Que bom que antes de ver os irmãos magoados, a gente pode ver o rosto do Pai.

Que bom que Ele vai se encontrar com a gente ainda longe de casa, antes que as impressões do ciúme e da inveja tentem estragar o encontro que vale: o encontro do Pai com o seu filho.

Que bom que quando quem nunca foi mas nunca chegou a estar só aparece depois que o filho quebrado havia se entendido com o Pai feliz.

Que bom que há esse “ainda longe”, pois assim tem-se tempo para chegar em casa tão cheio do amor do Pai que não se tem mais tempo e nem coração para ficar doente com o ciúme dos irmãos.

Vinha ele ainda longe… O Pai o avistou, e, correndo, o abraçou e o beijou!

Caio

(Escrito em junho de 2003)

You may also like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *