Zerando as mágoas

Postado por Laély, no dia 21-07-2011 - Categoria: dicas de livros,Propagandas,textos
Quando vi este slogan a primeira vez não entendi, até assistir ao filme todo:
Imagino que a Coca-Cola queira atingir um público específico, o masculino, afinal, todo mundo sabe que “macho” que é macho não bebe refrigerante diet
Ao que tudo indica a empresa espera mudar essa ideia, mostrando outra, mais sedutora.
Mas, deixando de lado as mecânicas gostosas
( enquanto os “cuecas” de plantão podem continuar por aí, babando por elas): não preciso desse tipo de apelo para apreciar o refrigerante, aliás, não preciso de apelo algum! Esse é um dos poucos vícios( pelo menos, os confessáveis) que me permito: beber uma latinha de Coca Zero/ dia.
Usando o mote da propaganda, imagine que está num dia de sorte, daqueles estatisticamente pouco prováveis de acontecer:
-Você acordou de manhã e, ao se arrumar para trabalhar percebe que a roupa ficou mais folgada, apesar da pizza do fim de semana.
-Chega à padaria e o pãozinho acabou de sair do forno!
-Ao enfrentar o trânsito pesado do início da manhã encontra pista livre, do início ao fim do percurso: sinal verde, em todos os cruzamentos!
-Seu nome é sorteado numa rifa, comprada apenas para ajudar a filha de um amigo. E o prêmio é bom, muito bom!
-Seu time precisa vencer um jogo importante para se classificar no campeonato. Depois de uma partida difícil a decisão é empurrada para a disputa de pênaltis, onde o time adversário erra todos os lances ao gol!
(Mas, como declarou o Cebolinha após esse mesmo jogo: “Elano é que se aprende!”)
Agora acorda, que a vida não é lá essas “coca-colas”!
Você está num dia como outro qualquer, sujeito à intempéries climáticas, hormonais, emocionais, além da “areia no campo”: um dia normal, como os outros. Nem mais, nem menos!
Então, por que exigir comportamento de super-herói, principalmente se for alguém do sexo feminino e ainda, mãe?

Nas páginas amarelas da Veja desta semana há uma entrevista interessante com a filósofa francesa Elisabeth Badinter. Nela, a intelectual defende a desmistificação da figura  materna: 
“O pensamento predominante no século XXI é de que há nobreza na dor do parto e que a boa mãe é sempre aquela que sofre”, afirma ela.
Imagine se Elisabeth conhecesse a mãe interpretada por Cássia Kiss, em “Morde&Assopra”: a simplória e resignada Dulce. Arrancaria os grisalhos cabelos, de frustração!

A reviravolta da personagem nos últimos capítulos até rendeu alguns pontos a mais na audiência, além de uma incrementada no enredo bobinho.
Mulheres e mães sofredoras sempre despertaram interesse e identificação.
Essa tática já é antiga: desde os tempos em que Maria de Fátima aprontava com a mãe, Raquel Accioli, em Vale Tudo.

O velho ditado: “ser mãe é padecer no paraíso” nunca me soou tão forçado! Do que teríamos a reclamar se nos foi dado tamanho “privilégio”, o maior de todos: o de ser mãe?!

Estava parada em frente ao balcão do pronto-atendimento onde cumpria o plantão do dia, provavelmente com o olhar fixo no nada, quando a moça da limpeza interrompeu meus pensamentos:
“Desanima, não, doutora!”
Sorri amarelo, concordando com a cabeça. Mas por dentro, discordei.

Outro dia precisei dar a notícia da morte de uma senhora de mais de 80 anos à respectiva família. Esse momento é sempre difícil e delicado, mesmo que previsível.
Passados uns instantes escutei o choro desesperado, na recepção do hospital. O neto, já um rapaz, acabara de ser informado sobre o que ocorrera com a avó. 
Alguns funcionários vieram me falar, preocupados:
“Devemos vamos fazer algo, doutora?”, inquiriram-me.
“Apenas deixem que chore”, respondi.

O que poderia parecer descaso meu é uma crença, cada vez mais sedimentada pela experiência, de que temos o direito de chorar nossas dores. Carpir os sofrimentos, sem sermos considerados uns “fracotes”. Somos apenas normais, nem mais nem menos.

A mãe dá um “chega pra lá”( dizer: “umas palmadinhas”, agora não pode!) no menino e emenda ordem, quase impossível de ser cumprida:
“E engole esse choro! Já!”

Chorar é feio. Meninos não choram. Só meninas. Uma preparação, para o maior de todos os sofrimentos: tornar-se mãe. 
(E hoje, literalmente ao virar as costas para uma gestante em trabalho de parto fui surpreendida pelo berro dela, e o do bebê, mais esperto e apressadinho que todos nós!)
Lembrando o consolo da moça da limpeza acho que deveríamos, sim, ter o direito de desanimar uns dias por ano:
“Hoje, cara amarrada tá liberada!”
“Chorões e choronas, azarados e azaradas: podem dar vazão às lágrimas, à vontade!”

Mas acho que preciso de uma Coca Zero, por via das dúvidas…


(Lembrando que hoje é “Dia do Amigo” e aquele que é verdadeiro oferece o ombro, amigo, todos os dias em que for necessário.)
    0 comentário

    Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...


    

    Comente!

    Por favor, preencha os seus dados e comente abaixo.
    Nome (obrigatório)
    Email (obrigatório)
    Site
    Seu comentário