Visita ao passado

“O respeito pelo passado, eis o traço que distingue a instrução da barbárie…”
(Alexander Pushkin)

Mas barbárie mesmo, parece ser o descaso com que o centro histórico da maioria das grandes cidades brasileiras é tratado.

“Se queres prever o futuro, estuda o passado”, alertava Confúcio.

Uma cidade civilizada é aquela que preserva sua tradição, incluindo patrimônio histórico, artístico, cultural e natural, sem deixar de incentivar inovações. Um espaço, onde passado e futuro convivem em harmonia. 
Utopia? 
Uma meta.
Para isso é necessária a “instrução”, que o poeta russo mencionou a princípio.

Mas, falando sinceramente: 
Quantas vezes descartamos móveis, objetos, estéticas e ideologias apenas porque são…”velhos”? Sendo que, beleza e saber não têm idade.
A parte mais antiga de uma cidade é prova disso. 
E o Rio de Janeiro continua lindo! (Apesar dos maus políticos!)
O mais interessante de um passeio pelo centro não é apenas observar os impressionantes prédios, alguns já degradados pelo tempo e ocupados por moradores não tão “nobres” quanto os de antigamente, mas, imaginar quantas histórias se passaram por ali. Esse olhar para o passado ajuda-nos a compreender o presente, o nosso.

Visitar museus é uma boa oportunidade para esse exercício.
No Rio não faltam boas opções. Você topa com a cultura ali mesmo, numa esquina( às vezes, com um bandido…)
O mais animador é perceber que há uma preocupação em preservar e restaurar. 
Seriam os primeiros reflexos da Copa e Olimpíada? Que sejam! Os jogos passam, mas as benfeitorias ficam.

A Cinelândia abriga no seu entorno vários prédios importantes como o do antigo STF, o Theatro Municipal, a Câmara Municipal, a Biblioteca Nacional…
Ficheiro:Cinelandia-CCBY.jpg
(Imagem: dAqui)

Viveu áureos tempos na década de 30, mas, à medida que os grandes cinemas e teatros migraram para bairros e shopping centers, a região perdeu o glamour de outrora.
Voltou a ser o centro das atenções do país quando foi palco de importantes manifestações políticas, incluindo o “Diretas Já”, mencionado no post anterior.

Foi para lá que nos dirijimos, no último feriado. 
Era início de uma ensolarada tarde. A luz natural, refletindo na imponente águia dourada sobre a cúpula do Theatro, recentemente restaurado, produzia uma visão inesquecível!

Antes porém, resolvemos visitar outro importante prédio, ao lado: o Museu Nacional de Belas Artes.
(Imagem: dAqui)

O edifício é do início do século XX e abrigava a antiga Escola Nacional de Belas Artes; mas o museu foi criado no final da década de 30, pelo ministro Gustavo Capanema.

Obras de artistas, nacionais e estrangeiros, divididas por temas e organizadas cronologicamente, contam um pouco da nossa história.
É possível conhecer algumas das mais famosas pinturas do século XIX, incluindo obras daqueles que integraram a Missão Artística Francesa, como Lebreton, Taunay e Debret.

No saguão principal, o piso de mosaico com desenhos geométricos chama a atenção: 
Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
E a escadaria aponta para o que nos espera, no andar superior:
Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
Sob os pés ou sobre a cabeça, nenhum detalhe deve escapar a um bom observador:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

Detalhes como a moldura em relevo no teto, e o lustre, que mais parece um conjunto de flores reluzentes:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

Neste grande salão, com luz filtrada pela claraboia central, estão obras dos século XIX:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

Muitas peças eram da família imperial e da coleção pessoal de D. João VI, como este retrato do monarca, pintado por Debret:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

Como naquela música do Chico
“Procurando bem, todo mundo tem”…

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

…Colonizador devastador.

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

O desmatamento começou há muito, muito tempo atrás…

A pintura, tão conhecida dos nossos livros de História, finalmente materializou-se à nossa frente:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
“Primeira Missa no Brasil” (1860), de Victor Meirelles

E assim, tão grande, ficou mais fácil reparar detalhes que me passavam despercebidos:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

Mas, nada tão imenso quanto este, o maior já pintado no Brasil:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

A Batalha do Avaí é de 1874 e levou 26 meses para ser concluída.


Se Pedro Américo fosse homem de cinema, em vez de pintor, com certeza preferiria dirigir grandes filmes épicos, ou de ação.


Uma curiosidade a respeito: Américo autorretratou-se como um soldado combatente numa das cenas principais, no centro do quadro. 


No século XIX, a fotografia ainda engatinhava no Brasil. Com certeza, uma tecnologia ainda inalcançável à maioria! 
Imagino então, o quanto o trabalho desses artistas era importante!

Aos poucos porém, eles passaram a registrar não apenas eventos históricos e retratar a nobreza, mas interessaram-se pelo cotidiano e o popular, pintando cenas tão singelas quanto esta: 

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
E esta eu registrei, pois achei curiosa:
Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
Reparem no olhar maroto do vendedor que expõe seus produtos à dona de casa, enquanto outro chega, já um tanto atrasado…
Se nos gabarmos que a tecnologia moderna permite-nos comprar, sem sair de casa, poderemos quebrar a cara ao constatar que esse costume vem de longe!

Adiantando-nos no tempo, passamos à outra sala, com as luzes de uma agradável tarde de primavera a nos receber para um chá entre amigas: 
Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
Quando chegamos ao salão dos modernistas, nosso tempo já estava se esgotando. Uma pena, pois não deu  para guardar o nome de todas as obras e artistas, como deste grande painel:
Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
Pelas cores alegres e pelo traço diria que seria obra de Di Cavalcante, mas não me arrisco a afirmar( quem for melhor conhecedor de arte pode matar a charada).

Alfredo Volpi gostava de pintar bandeirolas:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

E este, também me falhou a memória:

Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro

Lembra Picasso.

Enfim, a visita valeu a pena, mas recomendo que seja feita sem correria. 
Dá para se passar uma agradável tarde por lá, pois, de arte estarão muito bem servidos:
Museu Nacional de Belas Artes-Rio de Janeiro
( Perdão pela demora na publicação e, se o post teve um certo tom professoral. Além da falta de tempo, o assunto exige alguma pesquisa. Bom, que eu aprendi um pouquinho. Abraço!)

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