"2012 e as Pimentas"

 
Jerônimo era um profeta falido. Nunca fora um mau profissional, mas o mercado de previsões andava em baixa. Com as novas tecnologias, ninguém mais dava atenção às profecias do velho.

Já tentara alguns bicos como homem do tempo em certos jornais, mas diziam que seu visual cômico e suas previsões metafóricas reduziam o Ibope.

Foi quando, numa clara e banal manhã de segunda, ao ir ao supermercado comprar um alvejante para retirar uma mancha de ketchup de seu manto branco, percebeu-se no corredor errado e viu-se em frente a uma prateleira de molhos de pimenta. De repente, como um raio, veio à sua mente uma revelação, tão assustadoramente estupenda, tão magnífica e reluzente, que arregaçou a boca em um largo sorriso! Ficou ali parado, acariciando aquela ideia, como quem protege uma mina de ouro. Ali estava a sua fama, sua riqueza, seu poder.

Convocou uma audiência com a imprensa, na qual divulgou ao mundo sua descoberta. Muitos não acreditaram, mas, como o ser humano possui uma necessidade patológica de crer que sua geração é a mais importante, o velho formou inúmeros prosélitos com sua teoria:

– O mundo vai acabar em uma semana! – disse.
– Em que o senhor baseia sua profecia? – perguntou um repórter.
– Molhos de pimenta.
– Como?
– Molhos de pimenta. Nenhum molho possui validade maior do os próximos sete dias. Vá aos supermercados e confira.

Mesmo com sua explicação fajuta, conseguiu alguns discípulos notórios, como o presidente de uma multinacional de fast food mexicano. Deu palestras, distribuiu folhetos, anunciou o fim do mundo em praças públicas e apareceu no Programa do Jô e no David Letterman. Encontrou uma ferrenha oposição, mas continuava sua missão, sem pestanejar.

No dia previsto para o fim do mundo, reuniu toda a população mundial em um terreno baldio ao lado da sua casa. Ninguém estava ali por um motivo ideológico, religioso ou escatológico, mas sim pela comida mexicana grátis. Como se sabe, até injeção é menos dolorosa se for de graça.

O dia passou normalmente. Todos comiam fervorosamente, menos Jerônimo, o qual dizia fazer mal a saúde ser aniquilado de barriga cheia. Fazia jejum.

Quando os relógios marcaram onze horas da noite, seu séquito começou a ficar impaciente.

– Que horas será, mestre?
– Não pensemos mais em horas, mas em minutos. Talvez até em segundos.

Faltando quinze minutos para a meia noite, um deles levantou-se, irritado, e, com o dedo em riste, vociferou:

– Charlatão! Você nos enganou! O mundo não vai…

Mas ninguém ficou sabendo o que o mundo não ia fazer, pois o acusador do profeta caiu duro no chão e uma gotinha de sangue escorreu de sua boca, e, como todos nós que assistimos filmes americanos sabemos, quando sai uma gota de sangue pela boca, o cara está morto. Muerto. Dead!

Um médico, que obviamente não assitia filmes americanos, correu em seu auxílio. Checou os pulsos, respiração e essas outras coisas que médicos gostam de checar. Não chegando a uma conclusão (formou-se na UFES, onde entrou por cotas), cheirou seu hálito.

– Este homem ingeriu comida mexicana?
– Sim, ele comeu. Você comeu. Nós comemos, a humanidade inteira comeu – respondeu outro.
– Hum… pois parece que o molho de pimenta estava estragado…

E dizendo isso, caiu duro no chão, assim como metade da humanidade. A outra metade, dando conta de que se atrasara, também empacotou logo depois. E o velho, rindo-se:

– Eu bem que avisei, eu bem que avisei…

Conforme anunciado no último fim de semana, aproveito para publicar algumas crônicas que eu gostaria de ter escrito.
Sobre o autor:
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Ele ganhou o nome do bisavô materno, Vinícius; tem 16 anos, termina o Ensino Médio este ano, gosta de música, de comida paraense, letras e números; de vez em quando compõe e escreve, mas sempre, todos os dias, consegue tocar meu coração.

(E alguém poderia dizer que estaria “puxando brasa para a minha sardinha”, mas…é isso mesmo, afinal, “fruta não cai longe do pé.” Apesar de não ser tão assíduo quanto a mãe, também tem um blog: Clareza Meridiana)

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