Os ganhos das perdas

Há 15 anos repetia o mesmo ritual:
Um vez por semana, na quinta, levantava ainda escuro o dia, arrumava-se e pegava a estrada para trabalhar numa cidade próxima.


O stress já começava na véspera e, depois das 24h de plantão, não se considerava mais dona de próprias reações.


Os filhos estavam crescendo, no auge da energia, a mesma que agora parecia faltar-lhe, inclusive, para tomar decisões importantes.
Apesar da insatisfação, ela contemporizava: “Precisava tanto” daquilo!
Aos poucos, porém, começou questionar “se” realmente precisava: se precisava daquele dinheiro e, ficar mais de 24h longe de casa, se precisava se aborrecer, fazendo um trabalho que não lhe dava mais prazer, se precisava se cansar tanto…
E, “o que” realmente precisava: trabalhar menos, gastar menos, organizar-se mais, dar mais atenção à família, poupar-se, afinal, não tinha mais 20 anos…

Exatamente nesse ponto melindroso, a meia idade, ela empacava: 
A possibilidade de estar no mesmo lugar dali a 10 anos, fazendo as mesmas coisas e, com muito menos vigor e ânimo a atormentava.

Abandonando o tom de crônica de revista feminina, revelo aqui, em tom de novela mexicana: a personagem não é mera ficção mas, de carne e osso.
Poderia ser qualquer um de nós, mas essa, em crise existencial sou eu.

A vida nos exige compromissos, escolhas, nem sempre fáceis. Questionamentos, que começam na adolescência e parecem não ter mais fim:
Que curso vou fazer?
Com quem vou me casar?
Quantos filhos vou ter?
Que nomes vou lhes dar?
Como vou educá-los?…
Se alguém acha que já passou dessa fase, como eu, pode “colocar as barbichas de molho”: é apenas o nível básico do “game” da vida. Conforme o tempo passa, os questionamentos vão ficando mais complexos.


Quando penso que, “crise existencial” na minha idade seria um sinal de imaturidade, chego a suspirar aliviada ao constatar que uma senhorinha simpática como a Cecília, do Quilts são eternos, também passou por isso recentemente, sem vergonha de assumi-la.
Afinal, concluo que essa tal “crise” é como gripe: dá em todo mundo!

Insatisfação não é de todo ruim. Aliás, pode ser positiva, progressista.

(Imagem, dAqui)

Não fosse por ela, a roda e tantas outras invenções que moveram o mundo, literalmente, não teriam se materializado.
Analisando retroativamente, hoje parece-nos fácil, mas um precursor, alguém com ideias transformadoras é, antes de tudo, um inconformado com o próprio conhecimento. Muitas vezes arriscando-se, dá um pulo no escuro, tentando encontrar o outro lado do abismo.
Nem sempre dá certo…Ao menos, descobre-se como “não fazer”!

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” (Fernando Pessoa)

“Inconformados”, podemos sair da nossa zona de conforto. Mas é preciso ter objetivos, para se chegar a algum lugar.

A sociedade cobra que sejamos vencedores: Pessoas realizadas, felizes e, de preferência, muito ricas.
Sem dúvida, buscar a excelência é meta respeitável. O problema é que nesse caminho, nem tudo são flores. O ideal é irreal e a frustração, inevitável. E ainda precisamos convencer-nos disso, sorrindo(?!).

Mas, não há motivo para entregar-nos ao desespero e desânimo:
Se há insatisfação com a carreira, o emprego, o casamento, a casa ou, a própria aparência, isso não é, inexoravelmente, um fim em si mesmo. Pode ser um meio de transformação. O ponto de partida, para a tomada de decisões e mudança de rumo e hábitos. Conclusão simples mas, nada fácil.
“As mudanças nunca ocorrem sem inconvenientes, até mesmo do pior para o melhor.”(Richard Hooker)

Voltando ao início da nossa história, depois de mais de 1 ano titubeando, analisando, fazendo as contas, nem sempre na matemática financeira,   no início deste ano resolvi desempregar-me voluntariamente( mas não completamente, porque também não sou uma inconsequente!).
A família foi a primeira a ser consultada e, posteriormente, avisada sobre a decisão.
De um dos filhos, ainda dependente, a preocupação pertinente:
“E o que você vai fazer, agora?”
Abstraí, pois a princípio não quero preocupação com “o que vou fazer”, mas sim, pensar no que “não vou fazer”. A principal delas: não me aborrecer e envelhecer, fazendo algo que me tire as energias.
Sou da filosofia de que não se deve “cuspir no prato em que se come”. Toda experiência, boa ou ruim deve ser contabilizada em favor da nossa maturidade. Mas os tempos mudam. As necessidades e prioridades, também.

A Vivianne Pontes, do de(couer)ação, esta semana tocou no assunto e no coração:”o pior desemprego do mundo” trata dessas nossas insatisfações.
Porque, pior que estar mal empregado é empregar mal as próprias energias.
Mudando, pode-se progredir.
Assim espero… 

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