A Rede Social x Mary&Max

Depois de assistir a A Rede Social nesse feriado cheguei à seguinte “equação”, pra resumo de conversa:
Um gênio nerd sem escrúpulos+uma ideia original e inovadora+alguns inimigos-alguns amigos=negócio multimilionário!
O filme empresta velocidade e ritmo, dos relacionamentos criados e desmanchados via internet: rápidos, como a fala de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg).
O ator indicado ao oscar, ao menos deveria levar o prêmio de “melhor preparo físico” e “maior fôlego”, por disparar tantas palavras/min!
Talvez por meu Q.I. não ser digno de Harvard, não tenha dado conta de acompanhar o ritmo do filme e das falas do protagonista( confesso: tirei uns cochilos lá pelo meio e, ao voltar, descobri não ter perdido grandes coisas…).
Zuckerberg não liga para dinheiro: para “pouco dinheiro”! Ele estaria no pedestal dos grandes gênios inventivos de sua época, capazes de fazer história: um legítimo self made man.
Não sei se o criador do Facebook e mais jovem bilionário seria um vilão ganancioso, ou traidor, mas a impressão que se tem, do personagem criado para representá-lo no cinema é a de um “míope social”: como um pobre mortal teria lá suas dificuldades de relacionamentos mas, através das “lentes mágicas” da tela do seu PC transformaria-se, como o Clark Kent na cabine de telefone, num verdadeiro “superman da virtualidade”! Uma versão “biônica”, mas em carne e osso, do “homem de seis milhões de dólares”(ou, bem mais que isso!):


Entre os 500 milhões de “amigos virtuais” do Facebook lá estou eu engatinhando, ainda tentando habituar-me a essa nova( já velha, no contexto atual de “fast”!) linguagem.
Mas, como diria Roberto Carlos: “eu sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores…”

O que mais me encantou esses últimos dias não foi a mente inquieta de Zuckerberg, mas Mary&Max, de 2009.
Usando bonecos de massinhas e rodada em stop motion, a animação foi classificada como tema adulto não por conter cenas impróprias, mas por tratar de assuntos espinhosos demais para cabecinhas infantis: solidão, abandono, baixa auto-estima, inadequação social, fobias, depressão, homossexualidade…
Cada personagem é um tratado de males  neuropsiquiátricos e psicossomáticos!
Se alguém aí arrepiou os cabelos achando que a animação resultaria muito pesada, engana-se! O tema principal é a amizade, de verdade!

Uma menina australiana de 9 anos escolhe, deliberadamente, um correspondente de 44 anos do outro lado do Atlântico, mais precisamente, em Nova Iorque:

O pontapé inicial dessa amizade nada convencional é a dúvida existencial pela qual todos passaram algum dia: “de onde viemos?”
Como não encontrasse respostas mais perto, Mary resolve procurar mais longe, com um estranho, bastante estranho: Max.
Embora vivamos tempos de incertezas, com “lobos travestindo-se de cordeiros” e escondendo-se sob o manto do anonimato que a internet tece, nem por alto o filme passa alguma impressão, de: “isso não está me cheirando bem!”
Max tem nome, sobrenome, endereço em Nova Iorque e, Síndrome de Asperger.
A história( baseada em fatos reais) é atemporal, mas transcorre numa época em que corresponder-se com alguém demandava “nervos de aço”, terreno “onde os fracos não têm vez”: escrever uma carta, dobrar cuidadosamente o papel e escondê-lo num envelope, conferir o endereço, colar o selo, despachá-la pelos CORREIOS, aguardar, conferir a caixa e, aguardar mais ainda…é ritualístico! Hoje em dia é tudo tão mais simples, e rápido, e descartável…
Mas a angústia da espera é recompensada pela alegria da resposta, numa carta!
Isaurinha Garcia, célebre cantora dos anos 30, descreveu tal emoção, num samba-canção:
“Quando o carteiro chegou
E o meu nome gritou
Com uma carta na mão,
Ante surpresa tão rude,
Não sei como pude chegar ao portão…”

Voltando à nossa dupla de bonecos de massinha, modelados toscamente para “ressaltar a qualidade de seus defeitos”, o que importa não é o ponto de partida: o “de “onde viemos?” mas, o “para onde vamos?”
E a amizade entre Mary e Max foi se firmando a cada correspondência que atravessava o Atlântico, apesar das diferenças de cada um. Ao longo de 10 anos trocaram cartas, confidências, dúvidas existenciais, outras, nem tanto…
Impossível não comparar com outro filme, mais antigo: “Nunca Te Vi, Sempre te Amei“, onde uma escritora americana( Anne Bancroft) corresponde-se por 20 anos com um inglês( Anthony Hopkins, na era pré-Hannibal), gerente de uma livraria, firmando uma sólida amizade.

A atmosfera lúgubre da animação é reforçada pelo preto e branco predominantes na tela, só ponteado aqui e ali por alguma cor, como querendo destacar apenas o que mais importa. Max, por exemplo, tem um gorro enfeitado por um pompom vermelho, assim como a sua correspondente mirim, uma presilha de cabelo no mesmo tom: afinidades, apesar da distância e diferenças…
Os personagens quase não falam; narradores tratam de contar essa comovente história e emprestam-lhe a voz. Perfeita opção, pois o que mais importa não é o que se fala “da boca pra fora” mas, “de fora para dentro”: ouve-se apenas o som do coração, a voz das mais íntimas impressões.
E, apesar de tocar em tantos assuntos espinhosos é impossível não verter cada narração e imagem como uma boa taça de batida de abacate, macia, doce e aveludada( perdão, aos que não gostam de batida de abacate. Podem substituir por iogurte de caqui). Nem por isso, cai na armadilha da superficialidade: Mary&Max é tocante!

E quando Mary finalmente resolve conhecer seu amigo do outro lado do mundo, descobre de maneira surpreendente, como a amizade entre os dois encheu a vida de Max de muitos sentidos…
Numa de suas cartas à menina, Max confidencia que uma de suas maiores frustrações era não conseguir derramar lágrimas: vertia algumas cortando cebolas, mas, isso não valia…

Não precisarão de cebolas, mas recomendo lencinhos…
Um filme para ver e rever, muitas vezes!

“Deus nos deu parentes. Graças a Deus, podemos escolher nossos amigos!”
E, entre o milionário Zuckerberg e os toscos bonequinhos de massa, prefiro os últimos.

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