Tapioca à francesa

O que seria da culinária brasileira sem os nossos antepassados índios?
Fora as ressalvas do bispo Sardinha que, com o perdão do trocadilho, virou moqueca nas mãos dos caetés*, grande parte da cultura gastronômica nacional deve-se a eles. A outra parte, aos negros.
*Contam nossos antigos livros de História que o bispo, junto com outros portugueses foram vítimas dos hábitos antropofágicos dos índios caetés após um naufrágio. Outras fontes questionam a veracidade desse fato, atribuindo a boatos supostamente implantados pelos exploradores portugueses, interessados em justificar o genocídio dos “selvagens silvículas”( perdão pela redundância, mas cabe)
Tem até receita curiosa, da “moqueca do bispo“, extraída do livro “O Céu da Boca“, de Fabiano Dalla Bonna. 

Quando se fala em culinária genuinamente nacional, obrigatoriamente deve-se mencionar a influência dessas duas culturas: dos índios e negros. 
O isolamento geográfico do Norte e Nordeste, além de características climáticas próprias, possibilitaram o desenvolvimento de costumes muito peculiares.
Alguém consegue mencionar, todas as possibilidades da mandioca( ou aipim, ou macaxeira…)? Pois os índios souberam explorá-la, ao máximo!
Mandioca cozida apenas com um pouquinho de sal e temperada com um fio de azeite, quando sequinha, pra mim é verdadeiro banquete! Além disso: a farinha, o polvilho, o tucupi e, todas as delícias feitas a partir da mais nacional das raízes!


Fim de ano tive a oportunidade de encontrar duas queridas, aqui da blogsfera, numa passagem rápida por Vitória.
Cecília-mãe e Helena-filha são duas apaixonadas por letras e linhas, do Quilts são eternos:

Encontro
A Cecília é professora aposentada de Português e Espanhol, quilteira de mão cheia. A Helena seguiu os passos da mãe e é professora de Inglês na UNB e apreciadora das artes manuais: não pinta, mas borda. Gente fina! 
E eu, nesse sanduíche cultural-linguístico-artesão, em plena tapiocaria de Vitória!
A história desse encontro foi contada com todos os detalhes pela professora Cecília, aqui.

O menino que fez a foto do trio, meu caçula, descobriu que “tapioca é muito melhor que hamburguer”! Trocou os hábitos do “Tio Sam” pelos hábitos dos avós índios. (Sim, pois afinal sou o resultado dessa miscigenação cultural e étnica: português, negro e índio. E ele, o filho, mais ainda: juntou ascendência brasileiríssima da mãe, com o sangue alemão do pai!)

Por causa dessa paixão fui atrás de polvilho, tentando resgatar um hábito da minha infância, em Manaus.
É incrível como nossa memória olfativa e auditiva guarda informações! Cheiro de polvilho de mandioca tem cheiro de infância, da minha!

Deixei o polvilho coberto com água( ele acaba por se separar completamente do líquido, formando um bloco na parte inferior). Quando for usá-lo deve-se escorrer a água e, se necessário, enxugar o excesso com um pano de prato limpo. 
Os blocos de polvilho são quebrados com a mão(  é gostoso mexer com essa massa lisa e fresca!) e, passados numa peneira grossa:
Fazendo tapioca
Os blocos são facilmente esmigalhados entre os dedos:

Fazendo tapioca

Depois de passados pela peneira viram um “talco”, fino e leve:

Fazendo tapioca

Então é temperar com um pouco de sal e açúcar( para quebrar o azedo do polvilho) e está pronto para uso.

Depois de muitos anos sem saber o que era tapioca, fiquei insegura se daria certo fazer em casa. Até o marido, que não mete a mão na cozinha, emprestou as suas para acertar o ponto. Ponto pra ele, que pegou o jeito, antes de mim!
A tapioca caseira ficou tão gostosa, mas tão gostosa, que resolvemos chamar uns amigos e repetir a história num almoço bem regional, no sábado.
Antes, preparei alguns recheios para um self-service de tapiocas: carne seca com purê de aipim, requeijão derretido, cebolas fatiadas, figos, cogumelos frescos com manteiga e sálvia, queijo ralado…
Recheios prontos, já na mesa, preparamos as tapiocas.
Para dar conta foi necessário um trabalho, a quatro mãos:

Fazendo tapioca

Esquentamos uma frigideira para panquecas anti aderente e, mãos à obra! 
Não é nenhuma pajelança mas, como que por mágica, os finos grãos de polvilho juntam-se todos, na chapa quente:
Fazendo tapioca
Marido ajudou e, filho do meio registrou o making off das panquecas de polvilho.
O resultado, pronto pra ser devorado:

Tapioca

“Valeu a pena, ê…ê!”

Almoço de sábado:

Como entrada, fiz ainda uma salada de soja e salada caprese.

Almoço de sábado:

Fugindo à temática “comida regional”, a sobremesa teve um pé na França:

Tartelete de frutas

Amiga muito querida, a Rosana Sperotto enviou-me um presente, muito especial: uma fava de baunilha.
( Rosana, ainda nem pude lhe agradecer em particular, fazendo-o primeiramente aqui, de público. Perdão!)

Um ingrediente assim, tão raro e delicado mereceria uma receita à altura. 
Resolvi fazer algo bem tradicional, mas o resultado, não fazem ideia do quanto ficou bom!…

Conheço essa sobremesa como “tartelete de frutas. É um doce bem conhecido, uma tortinha com crosta à base de farinha e manteiga, recheio cremoso de leite, gemas, amido de milho( olha os índios de novo aí, gente!…) e baunilha. A cobertura é variada: frutas fatiadas e chantilly.

Para a massa da crosta:
-150g de manteiga sem sal, à temperatura ambiente;
-3 x de farinha de trigo;
-2 cs de açúcar ou, a gosto;
-Uma pitada de sal;
-1 gema peneirada;
Raspinhas de limão, a gosto.

Mistura-se a farinha, manteiga, açúcar e sal até formar uma farofa. Teste o sabor. Acrescente as raspas e, por último para dar liga, acrescente a gema. Reserve, enquanto faz o recheio.

Para o recheio:
-1 lata de leite condensado;
-2 medidas( na mesma lata) de leite;
-2 cs de amido de milho( diluídas num pouco do leite medido);
-3 gemas peneiradas.
-1 lata de creme de leite, sem o soro.
Baunilha a gosto.

Leve todos os ingredientes ao fogo( com exceção da baunilha e do creme de leite), mexendo sempre até começar a ferver e formar um creme espesso.

Desligue o fogo, acrescente o creme de leite e a baunilha, incorporando-os. 
Enquanto esfria, cubra a panela com filme plástico, aderido ao creme( para não formar película na superfície).

Forre fôrminhas de torta de fundo removível com a massa reservada. 

Pré aqueça o forno, à 180°.

Agora é a hora de assar as crostas, por aproximadamente 30′( ou, até que a massa fique mais clara e comece a soltar das bordas da fôrma. Não deixe dourar ou, sua crosta poderá amargar).
Depois de frias é só cobrir com o recheio e a fruta, da preferência.

Fiz um sel-service de sobremesa, também: piquei abacaxi e pêssegos em calda, e morangos. Montei as tortinhas com creme e chantilly, deixando que o pessoal escolhesse a cobertura. ( A de morango, pra mim, foi a melhor!)

Eu mesma já fiz essa receita conhecida várias vezes, mas dessa vez foi a melhor de todas: a crosta ficou crocante e leve, lembrando massa folhada e o recheio, muito delicado!


Para completar o fim de semana regional, domingo fiz frango no tucupi e, de sobremesa: Açaí. 
Grata por essas iguarias, senhores índios e caboclos!

O creme de baunilha sobrou mas, só por alguns momentos, até o pessoal descobrir! O excesso rendeu ainda, um delicioso pavê de frutas:
Pavê de frutas
Por essa, os índios não esperavam…


Darei um tempinho nas postagens e blogs, nesses últimos dias das férias escolares. Mas fim de semana estarei de volta, para preparar a festa de aniversário do blog. Já participou, né?


“Inté, qui eu tô cum pé na roça”!…

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23 Comentários

  1. Hummm, nunca comi tapioca, mas agora, assim explicadinho até da vontade de fazer em casa… vou aproveitar que o meu marido também tem um pé na alemanha e ver se ele acerta o ponto da massa da tapioca e colocá-lo pra ajudar! hehehe
    Beijinho Laély e inté mais!

  2. E ueu aqui em BH Sonhando com o dia em que chegarei em Manaus e terei a minha espera Pirarucu de casaca T_T/

    e no café da manhã Tapioca com Queijo Qualho e pupunhas cozidas Y_Y

    Aqui, vou avisando logo… tô mudando aí pra sua casa tá? XD~

    eu posso ficar com os pets (onde eles dormem) não tem o MENOR problema *__________* XD

    Beijos querida!

    Su.

    Ah! Mudei de Blog tá?

    Agora é : http://suzanafonso.blogspot.com/

    Aparece por lá ^^/~

  3. Hummmm… deu água na boca… pq adoro tapioca que saboreio sempre que temos feiras de artesanato com comidas regionais aqui em Sorocaba-SP, onde moro…
    E os seus recheios e sobremesa "self-service"… ai que delícia!
    E que mesa linda, Lá(posso te chamar assim???…rs)
    Bjs… bom descanso nesses dias…
    Tania

  4. Oi Laély, nossa deu agua na boca!!!Tapioca tb lembra minha infancia.Minha mama é bahiana , ai já viu!!!Na nossas veias , literalmente,percorrem farinha de mandioca e outros variados.(rsrrsr)
    Também quem resisti a uma tapioquinha quentinha( na bahia eles chamam de biju) com manteguinha?
    Adorei esse almoço regional.Com um toque da cozinha francesa.
    Bjos

  5. Aqui em Belém compramos essa massa, que chamamos "goma" já prontinha,basta peneirar e "fritar". Eu gosto com coco ralado e bem molhadinha com o leite do coco. Ai, ai…beijos

  6. Esse post me lembrou várias coisas,que eu amei ler Macunaíma e os índios e a nossa cultura e a nossa história.
    E o meu professor de latim que adorava a palavra silvicola(e) e um outro de alemão que comia tapioca comigo no Largo do Machado.
    Nossa,quanta coisa!!!
    E no final,tudo culmina em uma coisa só,na comunhão,na reunião onde as lembranças,os cheiros,a comida nos transportam.
    No presente de uma amiga querida e no prazer de ver que as coisas boas estão sim,nas mais simples,como amigos,filhos,família e comida.
    Bjs

  7. Oi Lá, coisa boa demais passar por aqui e deliciar-me com as fotos e o carinho, fora a comida que dá margem à imaginação sempre…

    Fiquei um pouco afastada mas não resisto ao cantinho!! Voltei prá ficar…kkkkkk!! Bjo imenso e até mais!!

  8. Gostoso mesmo é vir aqui e saborear seu texto e suas experiências compartilhadas.

    Muito bom ter acesso a esses produtos do norte. Aqui em Curitiba, onde moro atualmente, tem não… Vinagreira de jeito nenhum, quanto mais jambu!
    bjs,

  9. Que delicia esse post (sem trocadilhos, rs),toda a parte histórica, as fotos, as comidinhas… Pra quem não tá acostumado com o modo de fazer tapioca, acho que ficou bem instigado com as fotos e toda a explicação, pra mim é algo tão corriqueiro, nordestina que sou, cresci vendo vovó e mainha fazerem, e amo!! Muitas vezes auxiliei, passando a massa na peneira, e a sensação é muito boa mesmo.. rs, e até já arrisquei fazer sozinha também… Me familiarizei com o almoço de domingo, o frango no tucupi e o açaí, delicias incorporadas ao paladar por morarmos há 12 anos no norte… Ler sobre tudo isso foi muito agradável, a forma como escreve e descreve, seu blog é tudo de bom!!
    Grande Abraço!!

  10. Faço coro com a Cecília. Tá arrasando na cozinha, menina do Norte! Imagino quando voltares da roça, bem inspirada, o que não vais aprontar. (rs) Lá, tô pensando em outro aproveitamento pras favas usadas, além do açúcar de baunilha: colocá-las em saquinho de gaze para aromatizar armários. Pra isso, acho que seremos obrigadas a aumentar o consumo. (rs) Beijos, bom descanso!

  11. Amo passar por aqui e ler suas estorias, deveria ser jornalista/escritora, porque se espressa muiiito bem.
    To aqui pinicando de vontade de fazer esta tapioca, uma vez me ensinaram, somente umidecendo o polvilho, mas gostei da ideia de molha-lo todo, depois conto como ficou.
    Bjs…

  12. Mazzza !!
    Depois tu não queres passar por celebridade… hehehe
    Pelo menos te abracei antes de partir do ES.
    TU és um barato… fazendo tapioca, como diria na minha terra: ÉS UMA PRENDA DE PRIMEIRA !
    Um beijao.
    Linda.

  13. Oi Mooooçaaaaaa!

    Adoro! Adoro e adoro seus posts, receitas e tudo mais. Estou sempre aqui. Mas tenho comentado pouco.
    Menina os filhotes da Nina são fofissimos. A minha Brigit Bardot é bem parecida com a Nina. Eu amo gato tigrado como elas. E ai? Arrumou um lar para os gatinhos ou todos ficarão por ai?

    Menina, são tantas coisas lindas que vi por aqui….que moveis são aqueles do La na ladeira? Amei! Quando for para um apê maior darei uma passadinha por lá! ;O) Muito original.

    Então, eu sempre estou mudando de cabelo, ai o rosto fica diferente eheheh.

    Beijocas enormes!

  14. Que delicia de post, que foto linda das 3 meninas juntas, e que otimo saber do aniversario do blog! Se tiver tempo, vou participar e escrever sobre isso!
    beijo grande

  15. Voltando, do caminho da roça para o carinho desses comentários.

    Beatriz, é por isso que se diz, que aquele que prova a comida do norte sempre acabava voltando, nem que seja para abastecer-se dessas delícias! Mas procure pelo polvilho nas feiras livres. Talvez o encontre.

    Arileide, apesar de ser do Norte, a última vez em que vi minha mãe fazendo tapioca já faz bastante tempo. Mas isso deve ser como andar de bicicleta: uma vez que se aprende como fazer, nunca se esquece.

    Karen, o contato da Ana, das duas, está no próprio post, mas já lhe enviei por e-mail.

    Lá no Norte é comum umidecer a tapioca com castanha do Pará ralada e fresca.

    Abraço e obrigada!

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