Os dois lados…

(Imagem, dAqui)

Muitas picadas de mosquitos a mais, alguns graus centígrados a menos cá estou eu, de volta ao meu refúgio na serra capixaba, depois de uma curta excursão à “natureza selvagem”. Uns poucos dias na roça fizeram-me lembrar o que mais gosto de lá:
-O silêncio, só interrompido pelo canto dos passarinhos ou mugido das vacas;
-Não se prender a relógio, guiando-se apenas pelo ronco da barriga na hora de comer, e pelo cansaço do corpo, na hora de dormir;
-Contemplar um céu limpo e estrelado, sem poluição e interferência de luzes artificiais;
-Conversar com a família, sem a concorrência com internet, telefone e tv;
-O feijão preto de caldo grosso feito pela D. Aurita, em panela de ferro e na boca do fogão à lenha; 
-Comer fruta direto do pé;
-A vida em slow motion;
-Em vez de corrida de F1 na tv, só a corrida do rio, até fazer curva desviando do morro;
-Perceber, que a água de mina onde se banha faz mais pela maciez e brilho do seu cabelo, que o mais caro dos cremes importados!

Mas, sem “panos quentes”: da outra parte da natureza, a “selvagem”, fujo! 
Calor que lhe faz suar às bicas cada mínimo esforço empreendido, mosquitos, carrapatos e outros ecto parasitas são o lado ruim de todo esse “bucolismo”. Juntos com outros fenômenos da natureza, como tempestades, terremotos, tsunamis…estão do “lado negro da Força”. Essa parte, deixo para os aventureiros de programas como “À Prova de Tudo”. 
Não sou à prova calor: derreto. Nem, de mosquitos: sou alérgica!

Isso me obriga à conclusão óbvia de uma frase clichê: “tudo tem seu lado bom e ruim!”
A geração mais nova, incluindo meus filhos, não se familiarizou com discos de vinil e fitas cassete. Vitrolas e toca-fitas viraram artigos obsoletos ou, objetos de museu. Mas a ideia de “lado A” e “lado B” ainda é bastante vívida e usual.
A música carro-chefe do disco geralmente vinha no lado A do disco. Era o que identificava, nomeava e ajudava a divulgar o trabalho. Não, que o lado B apresentasse o pior, mas, ficou a ideia de ser este, um lado de menor importância. Daí, o paralelo com a vida real: Se alguém quer falar do seu lado pouco conhecido, meio “marginal”, nomeia-o: seu “lado B”.
Quando comecei a engatinhar pela blogsfera, meu marido, “macaco velho” nesse meio alertou-me:
“Internet é como porta de igreja ou praça de shopping: todo mundo coloca sua melhor roupa e sai pra desfilar”.
Achei a comparação um tanto curiosa mas tudo a ver, principalmente se aplicarmos à redes sociais como blogs, Orkut, Facebook e Twitter: Ninguém quer ser mal visto e a internet propicia um mundo virtual idealizador que, embora não seja Red Bull, “lhe dá asas”! 
Não há nada de mal nisso: até quando tiramos fotos, gostamos de preservar as melhores e descartar aquelas onde não saímos tão bem. Acontece que tem gente que exagera no photoshop…Que o diga Suzana Vieira e Fernanda Vasconcellos, exageradamente esticadas digitalmente para fins comerciais. Mas, será que os fins justificam os meios?…
No comercial para as Havaianas, o umbigo de Fernanda foi parar na lixeira de algum PC da agência criadora: 

fernanda_vasconcelos_havaianas
(dAqui)

E ela, tão linda que nem precisaria de retoques! 
De certa forma isso parece dar um certo alívio a nós mulheres, simples mortais, distantes do ideal olímpico de corpos perfeitos mostrados na TV e passarelas. 
Mas houve um tempo em que a propaganda era  mais real e verdadeira…


Até em propaganda de remédio( pra coisa ruim!), mostra-se apenas o lado bom. Lembram daquela, do Doril: “Tomou…a dor sumiu”?
Carinha bonita e feliz é o que vende melhor.

Esta é, no mínimo curiosa:

(Propagandas Antigas)

Alguém aí quer ficar mais “feliz”?…

No site da ABEVD( Associação Brasileira de Vendas Diretas) há um interessante artigo, defendendo que é “necessário por fim aos estereótipos” e apontando para um novo desafio da propaganda no século XXI: retratar a complexa figura da mulher, sabendo dosar o “real” e o “ideal” para poder atingir em cheio o público feminino. “O desafio é enorme. E é fácil errar na mosca”, diz Mariana Cogswell, diretora de planejamento da agência Talent.
“As mudanças percebidas no universo feminino nos últimos anos cada vez mais geram desafios para o mercado publicitário, que precisa entender a ‘nova mulher’, múltipla, multifacetada e ‘equilibrista’, que assume vários papéis, mas que já percebeu ser impossível alcançar a perfeição em todos eles.”

Um exemplo recente dessa mudança na publicidade foi a campanha da Dove “Mulheres Reais“: não foram modelos nem atrizes que a fizeram mas sim, mulheres com medidas mais próximas da realidade.
Mulheres posando para foto
A Brastemp amplificou e aperfeiçoou a ideia: “Mostre seu lado B” se utiliza do humor para defender nosso lado menos glamouroso.
Mas, ainda que o mundo da propaganda esteja procurando uma aproximação com o mundo real, continua sendo: marketing!

Até por uma questão de auto preservação, ninguém sai por aí admitindo tirar meleca do nariz para depois, grudá-la debaixo da cadeira, usar meia furada ou mentir a própria idade (ficando apenas nos exemplos das “infrações” mais leves).

Em Ciranda da Bailarina Chico admite somente uma figura feminina perfeita, idealizada, quase etérea para não ser “capaz” desses pequenos deslizes sociais:

“Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem…”



Final das contas, “não tem pra ninguém”: todo mundo tem defeitos, o que nos dá um certo alívio…

Provavelmente o diretor  de “Cisne Negro“, Darren Aronofsky,  não deve ter conhecido Chico e sua música, mas é sobre essa busca obstinada e enlouquecedora da perfeição no mundo do balé que o filme trata. 


A película concorre a vários oscars, incluindo o de melhor atriz, com Natalie Portman, e o de melhor direção. 



Falando de filmes, em TRON-o Legado, a perfeição é vista como algo inacessível ao ser humano e, uma das características principais do vilão, clone digital de Kevin Flynn(Jeff Bridges). A história é cheia de clichês, mas o visual futurista da perfeição, a trilha sonora e as cenas de ação transformam-no numa perfeita opção de diversão.


Há pouco recebi da Silmara Franco, cronista que considero perfeita, a indicação para leitura de alguns textos, tudo a ver com esse tema. Por coincidência, antes mesmo de recebê-los já pensava em escrever algo a respeito. Só vieram a calhar porque, se há uma criatura mais assediada pela culpa e cobranças torturantes auto infligidas, seu nome é: mãe!

Laura Guimarães e Juliana Sampaio, autoras do Mothern – Manual da Mãe Moderna” (ed. Matrix), que inspirou a série do GNT dão alguns conselhos sobre o “Lado B da maternidade“, desmistificando a aura de que a mulher só atinge o clímax da perfeição quando se torna mãe: 

“Não se fala muito dos perrengues pelos quais a mulher passa a partir do momento em que se descobre grávida. Nós não queremos fazer você desistir, mas não estamos a fim de participar do complô. Então, vamos revelar agora um pouco do que sua mãe, sua obstetra e suas amigas provavelmente estão evitando comentar…”
Se quiserem saber mais, passem lá!
(-Milena, essa é uma singela homenagem minha a você!…rs)

Uma pesquisa feita na Inglaterra constatou que as mães mentem a respeito da criação dos filhos, principalmente, quando se comparam a outras mães:
“…com frequência mães sofrem pressão para se adequar a um ideal de perfeição, e que, por isso, acabam omitindo fatos sobre a educação dos filhos.”

A última citação trata da principal causa desse comportamento “dissimulado” da mulher e mãe: a culpa.
“Segundo Scliar*, existe um fator que aumenta a pressão e dificulta a liberação da culpa: a sociedade e o peso que ela dá às coisas. ‘Os códigos de conduta são muito rígidos. Padrões demasiado exigentes, seja no trabalho, nas relações pessoais, isso gera muitas frustrações. A pessoa não atinge aquilo acha que os outros esperam dela e sente-se automaticamente culpada’, diz.”
*Moacyr Scliar é médico e escritor, autor do livro ‘Enigma da Culpa’, Editora Objetiva.

Toda essa volta olímpica para falar de algo, muito pessoal:
Em 2 anos de blog, escrever foi desde o começo uma forma de me expressar. 
Nunca me faltou entusiasmo, ideias mil “pipocando” na cabeça, mais do que dou conta de materializar num post, mas também tenho meu “lado B”…
Confesso que, nesse tempo, somente por uma vez cheguei a pensar em parar.
É bem raro, pontual, mas de vez em quando aparece algum “espírito de porco” dizendo que tudo o que mostro ou escrevo é uma droga! Para esses, tenho apenas um lado: o B. Mas essa é uma visão distorcida de mim: não sou apenas isso!
Mas a maioria deve achar que tenho uma vida perfeita, uma família perfeita, um emprego perfeito…Infelizmente, estou longe disso. Embora persiga, tente, erre muito e acerte, às vezes…Mas seria incompleta, somente do “lado A”.
Longe da ilusão de achar que o mundo virtual e o real são como espelhos, mas foi num momento de questionamento pessoal que pensei em parar; por causa dessa “imagem”, que tenho no terreno virtual, comparado à minha “vida como ela é”, exatamente como esse cacófato: cheia de defeitos!
Em tempos de BBB, qualquer um pode virar celebridade; e, depois do Google: um intelectual, digno de Nobel! Mas, mesmo dentro desse universo instantâneo e pulverizador há uns e outros que se firmam como “expoentes”. É tudo uma questão de saber usar os instrumentos disponíveis.

E foi trocando umas ideias e fazendo uns desabafos com a Rosana Sperotto que ela me veio em socorro, sempre com uma palavra bem colocada. Tomo aqui uma licença para reproduzir o que ela me escreveu em novembro:

…penso que o blog funciona parecido pra nós, serve como ferramenta para estarmos atentas, conectadas com nossas vivências cotidianas, dando significado a elas, mesmo que sejam coisinhas pequenas, mas importantes no nosso micro-universo. É terapêutico, acredito, exercitarmos a condição de protagonistas e roteiristas dos nossos dias, e também passá-los a limpo cada vez que produzimos um post. Terapêutico mais ainda colocar nossas facetas na vitrine, super-exercício para nos apoderarmos da tão badalada auto-confiança, né?” 

(E só reproduzi esse pequeno trecho aqui, por acreditar que tais palavras não foram apenas de encorajamento para mim mas, para todos aqueles que buscam uma forma digna de se comunicar, seja através de páginas reais ou, virtuais.)

Ainda não me apareceu nenhuma solução “Tabajara”, tipo assim: “seus problemas acabaram!” Meu “lado B” continua a existir-incomoda, espeta, machuca mas, como diz aquele adesivo na traseira do carrinho popular: 
“É Fusca mas é meu!” É lado B, mas é o “meu lado B!”( E, diga-se de passagem isso é que é uma conclusão, digna de lado B: bem clichê! rs)

Enfim: tô por aqui, enquanto me aturarem, lado A/B tudo junto e misturado e, enquanto isto for prazeroso e “terapêutico” pra mim.
Tenho consciência de que, quanto maior nosso poder de influência ( que espero, ser para o bem, apesar do A e B!…), maior a responsabilidade!

Obrigada a todos, que me ajudam a cada dia a ser completamente melhor.
E, se é para ser modelo de alguma coisa, que eu remeta a um estilo de vida correto e digno.

Só para quebrar o clima de agradecimentos em dia de entrega do Oscar, mostro um lado meu, que todos já conhecem: meu lado G, de gatófila:
Mas que ninguém saia daqui se “achando” melhor que o outro porque, como diz a música do Chico:

“Procurando bem
Todo mundo tem…”

( Continua amanhã, na final da promoção “2 anos de blog“…)

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