E a história se repete…

A casa estava em polvorosa: muitas visitas que, aproveitando o feriado de natal, tomaram conta antecipadamente( e infelizmente, sem previsão de partida…) do quarto de hóspedes, da sala, da cozinha, da rede na varanda, do banheiro e, de qualquer outro lugar, possível e impossível!
O que mais se via, era gente transitando, gente comendo sem parar, gente falando sem parar, gente se esparramando, indefinidamente no sofá, tomando conta da TV, do PC e, de outros aparelhos de comunicação da casa…
E, os “projetos de gente”?… correndo, esbarrando, disputando o mesmo brinquedo, que até há pouco, fora o mais desprezado do canto da sala! Ufa!
Um quartel seria mais habitado, mas com certeza, bem mais disciplinado do que aquele eterno ( parecia…) entra-e-sai de gente!
Fila pra usar o banheiro, o PC, a geladeira, o telefone. Quase, precisava de senha! Parecia até casa de praia, durante o verão.
Maísa estava atordoada. Ficava se perguntando por que, afinal, havia se oferecido para organizar e receber toda aquela parentada, e os “apêndices”, no natal?
Lembrou: a bagunça era sempre na casa da mãe, todos os anos. Achava justo, dar-lhe um descanso: “um recesso, coitada”…
Coitada?! Talvez, só mãe e, principalmente avó, desse conta de toda aquela balbúrdia e, ainda fosse capaz de manter o bom humor( pelo menos, ela parecia se divertir)!
Maísa, não. Era uma mulher muito ocupada. Por conta disso, precisava ser organizada( e muito!): trabalhava fora, mas não descuidava do lar. Orgulhava-se de manter os banheiros e a cozinha, impecáveis! ( E menciono apenas esses dois, por serem o ponto nevrálgico da dona de casa!) O guarda-roupa, o mais organizado possível: roupas, separadas por tema, cor, estação…Cozinhava, uma maravilha! ( Pelo menos era isso o que ouvia, do seleto grupo de amigos que costumava receber na sua cozinha gourmet-presente do marido, no natal anterior) Já havia até feito um curso com aquele chef famoso, o… ( como é mesmo, o nome dele?!…) Até, a época em que iria engravidar, o número e nome do único filho, já havia planejado ( Clara, se fosse menina; Alberto, se fosse menino)! Enfim, se havia alguém ali, capaz de organizar toda aquela muvuca, essa pessoa era a Maísa ( Além da mãe dela, é claro!). Todo mundo aplaudiu a iniciativa. Mas, disseram que iriam cooperar…
Doce ilusão. Com certeza organizar uma Copa, ou Olimpíada, exige uma planejamento muito maior do que organizar uma pelada de fim de semana!
( O problema, era que ela não tinha prazo até 2016. Era 2009, mesmo…)
O teste de fogo, seria a ceia de natal.
Cada detalhe, que sua baratinada cabeça conseguia lembrar, era um ítem a mais, na sua quase infindável lista de afazeres. Conforme ia dando conta, checava na sua agenda:
1) Pratos-ok
2) Talheres-ok
3) Guardanapos-ok
4) Laxante…laxante?! ( como poderia ter esquecido o remédio da vovó?!…)
Uhm, isto é fácil: é só pedir à farmácia, ao lado.”
Mais difícil, era pensar numa opção de comida sem glúten, porque tinha o sobrinho que empolava e dava diarreia, noutra opção para a prima vegetariana que “empolava”, só de ouvir falar em car-ne e, assim vai…( A sua sanidade, também: “para as cucuias”…)
Ainda bem, alguns aparecem com boa vontade nessas horas, para ajudar ( sempre há os civilizados, no meio da selva de gente!).
A irmã mais nova, Marisa, é a mais animada! ( Aliás, ela parece se animar sempre com tão pouco, que Maísa a considera até meio…bobinha!). Apenas, uma ressalva: distrai-se, tão facilmente, quanto se anima. Cansou, de: esquecer o bolo no forno, queimar o feijão, deixar de fora, o fermento que a receita pedia…Um desastre, como cozinheira! Como auxiliar de chef, talvez…
“Então, é natal…”
Convém, ser mais tolerante, paciente, dar um voto de confiança, afinal, entre tantos predicados, Maísa também era uma pessoa…”legal”!
Procurou adiantar o que podia, para dar conta de tudo: havia até organizado as tarefas cronologicamente. Mesmo assim, os outros convidados começavam a chegar e, a dona da casa não conseguia sair da cozinha para recebê-los( logo ela, que apontava isso como falha grave, nas recepções organizadas por amigas mais inexperientes). Alguém aí, já recebeu muita gente em casa? Não critique, porque deve saber que há uma logística de guerra por trás.
Para complicar ainda mais, ficara sabendo que receberia uma visita muito, muito especial e importante, justo nesse dia conturbado: o padre, que relizara seu casamento, voltaria à sua casa depois de 4 anos. Não era só mais um padre. Era o conselheiro e amigo, que costumava frequentar a casa, até ser transferido para outra paróquia. Portanto, naquele dia, sem desmerecer todo os outros, era a visita mais importante e esperada, pelo menos àquela anfitriã. Portanto, um motivo a mais para se esmerar, com uma recepção perfeita.
Maísa até abriu mão do cabelereiro e manicure nesse dia, mas daí a receber os convidados, descabelada e cheirando a cebola caramelizada, era deslize imperdoável!
( “Marisa, Marisa…Por onde andava aquela cabeça de vento?…”)
A cozinha, até então ampla, parecia minúscula, tamanha a quantidade de mulheres ajuntadas, numa quizumba que mais parecia final de feira. Maísa procurava manter a classe e comandava as outras, como se fosse um general; mas sabe, quando o “caldo entorna”, a “última gota d’água enche o copo” e, você está a ponto de “chutar o pau da barraca”? Sabem, né? A Maísa, também.
Depois de perguntar pela terceira vez onde estava a irmã Marisa e não obter resposta, a sobrinha impertinente, entrega: “ela está lá na sala, batendo o maior papo com um senhor bonitão, de roupa esquisita…”
(“Ah, não! Assim já é demais! Ficar na sala, se divertindo e flertando, enquanto eu aqui, me descabelando?! É muito abuso! Assim não pode, assim não dá!”…) E saiu, ensaiando o maior discurso! ( Apesar de muito fina, estava tão irritada, que pensava em passar uma descompostura na irresponsável ali mesmo, na frente de todo o mundo, mas, sem perder a classe. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” Achava que era o “justo, justíssimo” a ser feito! Também não acham?) Concordarão comigo, quando eu descrever a cena que Maísa viu na sala:
O padre, amigo querido, quase descomposto de tanto rir, enquanto Marisa sentada, muito descontraidamente ao lado dele, parecia ter acabado de contar uma piada hilária! ( “Espero ao menos, que ela não tenha sido inconveniente!”, vociferava Maísa para si mesma, enquanto cerrava os punhos de raiva!).
Ao ver a irmã se aproximar com “cara de poucos amigos”, Marisa nem percebeu a “cara de poucos amigos” dela e, já foi emendando:
“Acabei de contar ao padre a tragédia que foi, convidar os pais do meu noivo para aquele jantar formal, onde eu havia fracassado na cozinha, da entrada à sobremesa e, de como você me ajudou e salvou a nossa noite, organizando uma maravilhosa ceia, em cima da hora!”
O padre parecia maravilhado, com o senso de humor de uma irmã e com a solidariedade da outra.
Maísa perdeu toda a “razão”. Mas não, a irmã. Nem, a admiração que esta lhe tinha.
Acabou, sendo uma noite inesquecível. Pelos motivos certos.

A historinha é antiga: mais de 2000 anos, mas os personagens não são fictícios.
Não sou poeta, mas usei de licença: com um floreio, aqui e ali, a história original pode ser lida, em Lucas 10: 38-42.
Jesus, visitando a casa dos amigos, os irmãos: Lázaro, Marta e Maria. Que também tinham lá as suas desavenças…

Não tenho a intenção de fazer nenhum “sermão”, por aqui: nem às eventuais “martas”, nem às “marias” ( homens, também incluídos).
Às vezes precisamos ser uma, às vezes, outra.
Só não esqueçamos, nessa correria de fim de ano, de cuidar do mais importante, dar atenção ao que é prioridade e, principalmente, seguir o exemplo dAquele que motivou essa “festa” toda.
Se comemoramos hoje, é porque já recebemos o Presente, antecipadamente.

Feliz natal, no coração de todos!

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6 Comentários

  1. Marta, Marta…. Quantas vezes não somos Marta, sem percebermos? Eu adoro essa passagem da Bíblia.
    Parabéns pelo post, menina!
    Que o Menino Jesus traga toda paz do mundo pra você e sua família.
    Berê

  2. Oi Laély

    Ri muito à medida em que li a história e me surpreendi com o final. Realmente parece que muitos hoje em dia esquecem o verdadeiro motivo da festa planejada e organizada com tantos dias de antecedência. Neste Natal fiquei muito feliz pois consegui reunir minha família na segunda ceia de Natal da minha história. Isto é o que realmente importa: estarmos todos juntos esperando o renascimento de Cristo em nossos corações, que se dá a cada gesto de amor, de paz e de compreensão.
    Feliz Ano Novo e muita fé pra vc!

  3. Ual!!!
    O texto estava longo, mas prendeu-me a atenção de tal forma….estava engraçado, do tipo "acho que já vivi esta história".
    Aguardei, com muita expectativa o final da história, pensei que fosse gargalhar com uma super situação engraçada….dessas que aconcecem quando a família (e seus "apêndices", isso ficou ótimo!) se reúne.
    Mas,…amiga….que surpreendente!!!
    Excelente mensagem!
    Que Jesus se faça presente em seu coração durante todo o ano!
    Bjocas,
    Ale

  4. Berê, eu tenho um pouco das duas.

    Elaine, que bom que deu conta do recado!
    Como diz aquela música de Chico Buarque:
    "Problema na família,
    Quem não tem?…"
    Mas apesar disso, a família continua fazendo parte do plano original de Deus para a saúde física e mental do homem:
    "Não é bom que o homem esteja só…"

    Alessandra, eu queria apenas contar uma historinha simples, uma metáfora. Acabou ficando maior que a maioria dos textos que costumo fazer. Mas, é natal e a mensagem era para mim, primeiramente.
    Que bom que foi útil pra vocês, também!

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