Açaí com Corn Flakes

Minha mãe, que mora em Belém com minha irmã mais nova desde que casei, achava um sacrilégio eu preferir tomar o legítimo, regionalíssimo, e gostosíssimo açaí paraense com o cereal de milho da Nestlé( tem de ser o da Nestlé!), em vez de acompanhá-lo com a tradicional farinha de tapioca do norte. Tudo bem. Ela já se acostumou e até americanizou o hábito, quando vem me visitar. Também trata de me abastecer o freezer com o legítimo, que não é havaiana, mas tem o gosto da terrinha do Pará.
Comecei falando de comida regional, mas o preâmbulo é para música, tão gostosa quanto açaí!
Vocês acham que gringo entende de música e ritmos brasileiros?
Se alguém respondeu que são coisas que não combinam, certamente, nunca provou açaí com corn flakes ( o da Nestlé!). Ou talvez, nunca tenha ouvido falar de Nicolas Krassik.
Este jovem violinista francês, de nome polonês, tem formação erudita, com especialização jazzística. Ao vir ao Brasil pesquisar os sons da terra, apaixonou-se e por aqui ficou, radicado e bem adaptado, desde 2001.
Já conhecia o primeiro trabalho dele: “Na Lapa”, quando estava envolvido nas rodas de samba e choro do bairro boêmio carioca.
Tive o privilégio de assistir uma apresentação com ele, acompanhando o violonista Yamandu Costa e o contrabaixista Guto Wirtti, na abertura de um festival de jazz em Vitória.
O músico lancou seu último trabalho agora em setembro:”Caçuá”, já demonstrando estar completamente integrado à terra. Agora, não apenas ao som carioca, embora a música que abra o cd seja a bem-humorada “Deixa Menina”, um samba de Chico Buarque, e o choro “Último Desejo”, seja uma das interpretações mais belas do trabalho.
Krassik estreia na produção, junto com Luís Filipe, e surpreende como compositor!
Pra quem ainda não sabe, sou uma violinista de meia tigela que arranho uns acordes, apenas na igreja onde frequento com a família.
Já contei aqui, que sou uma ouvinte compulsiva: quando gosto de um cd, ouço o mesmo repetidas vezes, até cansar. Quanto mais rica e variada a participação musical, mais interessante é notar, a cada nova repetição, instrumentos e sons que não havia percebido na vez anterior. É como se o instrumento pulasse dos bastidores para o palco, protagonizando um solo para meus ouvidos.
A boa surpresa deste novo trabalho de Krassik, embora tenha mantido o pé no samba e choro, é que acabou migrando para o nordeste do Brasil, acrescentando sons, instrumentos e ritmos da região: baião, xote, percebi frevo e até, repente!

Mais uma prova de que, não existe estilo de música ruim. Existe, sim: música bem feita, de qualidade, e música malfeita! O funk, é um caso à parte para mim; quase, perdido! Preciso de mais perquisas para chegar à alguma conclusão…
Antes à sonoridade, o violinista é um apaixonado pelo ritmo. O que se percebe num arranjo feito com Karanfil, música turca, e Santa Morena, de Jacob do Bandolim, com alma flamenca. A fusão das duas é quase imperceptível, a não ser pela mudança no ritmo.
O violino de Krassik dialoga, com: violão 7 cordas, acordeon, flauta, zabumba, triângulo, pífaro, piano, pandeiro e até, rabeca! Em determinadas horas, fala todo mundo ao mesmo tempo, como deve ser uma animada conversa entre amigos.
O resultado dessa mistura?!
Impossível não se flagrar batendo o pezinho, levantando um dos ombros ao ritmo do forró e, por mais duro que seja ( e olha, que em matéria de dança, eu sou como uma pedra, no fundo de um rio!), o dedo mindinho insiste em começar a batucar, em qualquer superfície que esteja mais próxima, involuntariamente! Dá pra ouvir o som do arrastapé e ver a poeira do terreiro, subindo. Impossível, não se animar!
Nicolas participou de diversos trabalhos com outros artistas brasileiros, como: Beth Carvalho, Marisa Monte, João Bosco. Com mais este novo cd, firma-se não apenas como coadjuvante, mas
também como astro da música nacional!

Merci beaucoup, Nicolas!
Já que falei de gringo, valorizando nossa boa música, não poderia deixar de citar o excelente cd do violoncelista Yo Yo Ma. Nascido na França numa família de origem chinesa, radicou-se nos EUA.
Em parceria com músicos brasileiros, Ma interpretou choros e sambas tradicionais e o resultado, ficou maravilhoso! Em “Obrigado Brazil”, difícil dizer qual interpretação mais bonita, mas “Carinhoso” e “Doce de Coco” são as minhas preferidas!

E aí? Ainda acham que gringo não tem ginga no pé? Pelo menos nas mãos, têm!
Procurei algum vídeo do Krassik, mas o melhor que encontrei foi este, interpretando “Caçuá”, de João Lyra e Maurício Carrilho. O improviso inicial, com pandeiro e violino, também é demonstração da versatilidade do francês, agora, quase um carioca da gema “né, mermão?!”

Para mais detalhes sobre Krassik, aqui: last.fm
Taí: duas dicas de presente de natal, para quem gosta de música.
Sobre o açaí, o que considero um sacrilégio é a forma como ele é consumido, aqui no sudeste: diluído, misturado com muita banana, guaraná, granola e mais um monte de coisas dispensáveis. Mas talvez, isto seja preconceito da minha parte ou desinformação, daqueles que o consomem desse jeito.
Quanto ao Corn Flakes da Nestlé, juro que não é jabá! É porque é bom, mesmo.
Porque hoje é domingo: dia de tomar acaí ( com Corn Flakes, da Nestlé!) e falar de amenidades…

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8 Comentários

  1. Caramba! E eu achava que eu era a única pessoa que fazia essa combinação. è uma delicia. Comi o meu agorinha,mas hoje foi com leite e nescau eheheheh.

    Adorei a mistureba do francês simpático!

    Bjocas e bom domingão.

  2. Mana, eu já tomei açai desse jeito que eles tomam aqui por sul – com banana, guaraná, sucrilho e 500 outras coisas – mas ainda gosto mesmo é do nosso legítimo açaí a moda paraense: com farinha – a de lá – acúcar (ou não) e muita preguiça depois!
    Beijos!

  3. Menina! sou tua fã desde o meu cp dos tempos da caverna, achei engraçado que nunca te deixei recado. Acompanho tua história, a casa de tua amiga e vizinha, me pergunto porque não deixei recado.Hoje lendo do açai , vou dar um pitaco, morei em Belém entre noventa e um e 93, tomei muito açai, puro, no máximo com tapioca. tua mãe tem razão, com cereais não dá, aliás dá porque tu tomas assim.Aparece no meu blog, o teu está lá. Sei que vida de médica é corrida, mais qdo tiveres um tempinho, dá uma passadinha, vou adorar receber um recado teu. Beijocas Analú

  4. Açaí, com leite e Nescau?! Duvido dessa combinação…

    Oi, Eleonora! Espero que goste.

    "Maniinia", Ivana, pra falar no paraensês: acho que nada como o original.

    Analu, precisou de servir açaí por aqui, pra você ganhar coragem de comentar. Que bom!
    A tapioca de Belém é a mais fresquinha e crocante, com certeza! Mas eu acostumei com os sucrilhos e acho até mais gostoso.

  5. Oi, Lá! :-)))

    Então… Sabia que nossos gostos estavam muito "combinativos", daqui a pouco eu ia chegar a conclusão de que somos gêmeas siamesas! rs Então, foi necessário o surgimento de uma "faixa de gaza" para que nossas individualidades prevalecessem! rsrsrsrs

    Eu não como absolutamente nada da Nestlé, nem o creme de leite, que é uma verdadeira unanimidade entre as cozinheiras. É boicote mesmo… de coração! Tanto pelo que eles fizeram aqui na cidade onde eu moro (São Lourenço – MG) quanto pelo resto do mundo na grave questão do leite em pó para recém nascidos. Meu lado ambientalista e super-mega protetor de crianças fala mais alto, até mesmo na hora de resistir ao Prestigio (chocolate e coco formam uma das minhas combinações preferidas!)

    Enfim… Eu prefiro açaí com morango… ou com paçoca…hmmmmmm

    beijão, queridona!

  6. rsrs!
    Cláudia, até os gêmeos têm as suas diferenças.
    Entendo seus motivos, mas isto já é um assunto muuuito amplo, Com muitos prós e contras.
    Eu parei de beber leite de vaca há mais de 2 anos.
    Meus meninos, todos os três, mamaram no peito exclusivamente, os primeiros 6 meses. O último, mamou mais e 2 anos. Nem comprava mamadeira.
    Mas a questão da mamadeira e leite em pó, não foi apenas comercial, mas cultural. Cultura da ignorância, que ainda combatemos, até hoje.
    Quanto aos produtos Nestlé, não há dúvida que seja uma indústria preocupada em manter o bom nome.
    Mas, pode haver controvérsias.
    Eu não sou de chocolates. De marca nenhuma. Apenas, Lindt. Algo contra? rsrs
    De qualquer forma, reitero que o post não foi patrocinado. rsrs
    Obrigada por ser sempre tão simpática. Até quando discorda!
    Um grande abraço!

  7. Olá, Laély:
    Tudo o que você falou sobre música, só vem confirmar o que sempre digo: Se a música é de boa qualidade, não importam os rótulos – erudita, popular o ou do que queiram chamar.
    Quanto ao açaí, cresci vendo mamãe se refastelar, e olha que vinha de Belém pra ela, não tinha essa facilidade toda de hoje, não.
    Um abraço da Cecilia.

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