Abajur pescoçudo

Este abajur gracioso, bem que poderia ser mais acessível, mas é gringo:
Jonathan Adler

Dona girafa iluminada, parece convidar a uma boa leitura na cama do filho, antes de dormir.
Não temos abajur de girafa, mas sim, o mineiríssimo Carlos Drummond de Andrade, que escreveu um conto infantil, usando uma girafa como personagem. Ele gostava do bichinho:
“Chego a delirar, e sonho um zôo exclusivamente dedicado ao animal mais alto do mundo e que, por isso mesmo, nos dê sugestões de altura, quer material quer moral.”(“A SOLIDÃO DO GIRAFO” – Jornal do Brasil, 09/05/1981) “Rick se preocupava com a escada que precisava galgar para alcançar o mundo dos sonhos. Não precisava de escada. Ele já estava lá.

No Jardim Zoológico, neste domingo azul, a girafa olha do alto para as crianças, e parece convidá-las a um passeio no dorso. Há uma escada perto, e se for encostada ao animal, Ricardo (Rick é o seu apelido) poderá chegar até lá.
O garoto mede a distância que vai do chão ao lombo, e julga-se em condições de vencê-la. Uma vez lá em cima, cavalgando o pescoço, e segurando-lhe os chifres, pedirá à girafa, depois de umas voltas pelo Jardim, que o leve por aí, percorrendo o mundo.
Presa há tanto tempo, a girafa há de estar ansiosa de liberdade. Não será difícil transpor a cerca. Ela espera que Rick lhe proponha a aventura. Ninguém se atreveria a travar-lhe os passos, e Rick vai dirigi-la nos rumos que aprendeu no atlas escolar.
O problema é descer de vez em quando, para Rick alimentar-se de biscoitos, fazer necessidades e dormir. Camarada, a girafa irá se deitando aos poucos, primeiro dobrando devagar as pernas, depois se inclinando lentamente para o lado, e afinal arriando com suavidade a carga infantil.
Mas para subir outra vez, como se arranjaria ele? Escada não haverá. Mesmo deitada, a girafa é difícil de subir. A imaginação não lhe fornece recurso plausível. O sonho frustou-se. Rick levanta o braço direito e, com a mão espalmada em gesto de adeus à girafa que gentilmente o convidara, esclarece:
– Muito obrigado. Fica para outra ocasião, quando eu crescer.”
(“RICK E A GIRAFA”-Autor: Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) Ilustração: Maria Eugênia)
Fonte: Girafamania

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