Lembranças de um pão de queijo

Postado por Laély, no dia 27-09-2014 - Categoria: receitas


Daquelas histórias que nos encantam, logo de cara, pela riqueza de cores, sons, cheiros, apresentação e sabores*, “A 100 Passos de um Sonho” é despretensioso, aparentemente, mas provoca riso, salivação, choro e…lembranças! * Siim! porque, se já existe cinema 3D, ainda hão de inventar o cinema 5S: 5 Sentidos!
É impossível não linkar com outros, tão bons quanto, onde a cozinha é o cenário principal, como em “A Festa de Babette” e “Como Água para Chocolate”!
Seria um “Romeu e Julieta” adaptado a um jogo de panelas, onde as famílias conflitantes perseguem uma estrela no Michelin.
Uma das frases repetidas pelo casal de pombinhos e/ou concorrentes do filme, é:
“Comida é memória!”

“Elementar, meu caro Watson!” Você já deve ter pensado nisso, antes, mas o que parece clichê é a mais límpida verdade!: Memória. Boa ou ruim mas, memória!

Há pouco conhecemos a alemã Margot Woelk, 95 anos, que por dois anos e meio “trabalhou” na “Toca do Lobo” como provadora oficial da comida de Hitler, segredo esse guardado por mais de meio século. Fazia parte de um grupo de 15 moças que “testava” tudo que fosse servido à mesa dele, assegurando-lhe não ser envenenado.
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A lembrança que essa mulher carregou pela vida:
“A comida era deliciosa, apenas os melhores legumes, aspargos, pimentão, tudo o que você pode imaginar. E sempre acompanhados de arroz ou macarrão”, lembra. “Mas este medo constante – nós sabiamos de todos esses rumores de envenenamento e nunca podíamos desfrutar da comida. Cada dia nós temíamos que fosse ser a nossa última refeição”.

Espero que Margot tenha preenchido seu livro de memórias sensoriais com outras, bem mais agradáveis. Assim, a imagino: uma simpática vovó enchendo a boca de pretzel, sem medo, sorrindo!

Millôr Fernandes, que entendia de tudo e mais um pouco, descreveu:
“Gastronomia é comer olhando pro céu!”

Ou, para um passado, recente ou longínquo!

Ainda lembro da primeira vez que comi um pão de queijo, na vida: era a novidade da tarde servida na padaria, perto da casa da minha avó. Grande, cheiroso, cascudo, salivador!…Foi amor à primeira mordida!
De lá pra cá a iguaria transformou-se, praticamente, em símbolo nacional. Deveria constar, na bandeira oficial: café, pão de queijo e futebol!
Mas, assim como o bom futebol, pão de queijo “bão” anda cada vez mais raro!
Ainda vago por aí, como Indiana Jones à caça do cálice do Santo Graal, procurando o pão de queijo ideal. Olha, que tenho me decepcionado!
Mas, nem tudo está perdido!
O legítimo( cascudo por fora, macio e puxento por dentro) ainda existe, guardado em algum livro antigo de receitas ou, na cabeça branquinha de alguma vó mineira.
Resgatei há pouco, como a história de Margot, essa memória de infância.
Um bom pão de queijo não está mais fadado à extinção!

Pode argumentar que, em tempos de “fast food” é muito mais prático comprar um, ali, na próxima esquina, ou encher o freezer com pacotes de industrializados congelados.
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Peço licença pra tentar persuadi-lo a testar essa receita, ao menos uma vez:
-É mais gostoso!
-Rende muito.
-Pode congelar.
-É mais barato.
-É resgatar boas lembranças!

À primeira vista tudo parece desandar mas, fique tranquilo: o resultado é compensador!

Os ingredientes para esse simples e delicioso Pão de Queijo:
-500 g de polvilho doce
-600 g de queijo curado*
-200 ml de água
-200 ml de leite
-200 ml de óleo
-3 ovos
-Sal a gosto
-Polvilho azedo( o suficiente pra ajudar a desgrudar a massa das mãos, na hora de sovar.)

*Como não tinha esse tipo queijo, usei:”Minas padrão” e “Grana Padano”, em proporções iguais.

Modo de fazer:
Pré-aqueça o forno em temperatura alta.
Ferva os líquidos juntos( água, leite e óleo) e escalde o polvilho doce.
Quando o polvilho esfriar, acrescente os ovos, um a um, sovando a massa.
Acrescente o queijo, acerte o sal.
A massa ficará grudenta e puxenta. Não se desespere!
Polvilhe o balcão ucom polvilho azedo e sove mais um pouco, até começar a soltar das mãos.}
Unte um tabuleiro com óleo.
Faça bolinhas com a massa e leve pra assar, em forno alto e pré-aquecido.
IMG_8704Congele o restante da massa: faça as bolinhas, espalhe num tabuleiro untado e, direto ao freezer. Quando quiser usar é só levar, congelado ainda, ao forno pré-aquecido brando até começar a crescer. Depois, forno alto, até corar!

Ganhou confiança? Hora de inventar: acrescente ervas( alecrim, orégano…), ou recheie com brie ou gorgonzola, ou tomate seco, enfim, o céu é o limite-pra onde pode olhar, ao saborear esse pedaço de história!…

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    “Cinnamon rolls” pra te fazer feliz!

    Postado por Laély, no dia 21-06-2014 - Categoria: pães,receitas,textos

    Daquelas propagandas que chamam a atenção, essa, do Pão de Açúcar, com a Clarice Falcão:

    Não é um produto que se vende, ali, mas, uma ideia: de que somos os maiores responsáveis pela nossa felicidade, de que podemos( e devemos!) interferir, agir, assumir-nos donos do próprio destino. Ficar de braços cruzados, esperando que um Chapolin Colorado venha nos salvar é cilada, um convite à frustração.
    Atitudes simples podem mudar a vida, o entorno, torná-la mais leve.
    E a perguntinha básica da música chiclete pode parecer boba mas, não é. Antes, um exercício de autoconhecimento:
    O que faz você feliz e, você feliz, o que é que faz?
    Parou, pra pensar?:
    Quando, a última vez que deu gargalhadas( sem preocupar em parecer ridículo!) relaxou, gozou, gritou de excitação, deu pulinhos, fez dancinha, fechou os olhos e, sorriu por dentro…
    Que ocasião foi isso, há quanto, quem, ou o que provocou?…
    Porque felicidade não se resume num momento, euforia, ou devaneio. Antes, sim, uma atitude e compromisso em relação à vida e ao que nos traz, de bom e/ou ruim.
    Você pode estar triste e, ser feliz. Pode estar alegre e, ao contrário…Pode se sentir feliz, em fazer alguém feliz e, ao contrário, de novo…quando estamos bem, como é mais fácil fazer com que os outros também se sintam!…
    É simples, mas não é fácil, como se costuma dizer.
    Então, proponha-se esse pequeno exercício:
    “O que me faz feliz e, feliz, o que faço?”
    É diferente, pra cada um. Pessoal, intransferível!
    Eu, por exemplo, viajo numa música que me toca…na lembrança de um momento especial…sorrio, quando minha gatinha vem aninhar-se aos meus pés…converso numa linguagem infantil com ela, quando lhe acaricio a barriguinha peluda…sofro e me canso, numa corrida de longa distância, mas abro um sorriso, de orelha à orelha, quando ultrapasso a linha de chegada…
    Assim, uma das ocasiões em que me defino “feliz”: ora corpo suado, molhado, esforçado num treino ou prova, ora coberto de trigo, à beira do balcão da cozinha, fazendo pão, ou outra receita gostosa…
    Sovar a massa, esperar que levede, moldar pãezinhos como quem esculpe uma Pietà, depois, vê-los corar ao forno, como se fossem corpos de mulheres gostosas bronzeand0-se na praia de Ipanema…E o perfume, que invade a casa?…
    Felicidade tem cheiro?
    Tem. Muitos! Cheiro de pão, um deles! Mas pode ser cheiro de mato, cheiro de gente( uma “gente”, em especial…), cheiro de capim gordura( no caso do meu gatinho, que costuma embrenhar-se no mato)…

    Quem me conhece um pouco sabe que me faz feliz falar de comida, de cozinha, trocar receitas, dicas…
    Fez-me feliz fazer esta receitinha de ”cinnamon rolls de um site que, só de olhar as fotos, ler o texto delicioso que a Paula escreve já levanta o astral de qualquer mortal!
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    (Foto: “The Cookie Shop“)

    Meus rolinhos de felicidade, sem fondant:
    CInnamon rolls
    Isto é panificoterapia!
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    Massa levinha, que desmancha na boca!
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    Tá esperando o que, pra ser feliz?!

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      Bolinho cremoso de tangerina e limão

      Postado por Laély, no dia 21-03-2014 - Categoria: receitas

      Tem gente que, quando bate aquela vontade de ir pra cozinha, preparar algo diferente e gostoso, deita na rede e ali fica, quietinho, esperando que passe…Não, o meu caso. Vontade boa é pra ser saciada, mesmo que dê algum trabalho.

      Começou com uma imagem, vista de relance: uma torta de limão! Uhmm…Lembrei “daquela“, escultural!
      Imprimi a receita numa folha de papel e a guardei, junto de várias outras( até comentaram, entre si: “Mais uma chegou, iludida. Coitada! Garanto que deve ter ouvido a mesma promessa que nós, de um dia ser registrada oficialmente, no caderno!…).

      Procurava por “aquela” receita e, encontrei. Outra. Uma “bastarda”. Sem pai, sem mãe, sem proprietário intelectual, sem link…
      Como os cítricos estavam na preferência do dia seria essa, depois, “aquela“! Pra limpar as papilas!
      -Mas não estamos em época de tangerinas!
      -”Seus problemas acabaram” ou, as desculpas: podem usar suco de caixinha( uma boa marca, por favor!)!

      A sobremesa é leve e delicada. Lembrou-me um bolo-pudim que minha mãe costumava fazer, quando criança.
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      Supersimples, como tudo o que compartilho por aqui porém, confesso: achei que não daria certo. Muito líquido para pouco trigo, além de não levar fermento químico.
      O segredo do sucesso, não sou Lair Ribeiro mas, darei: claras em neve e banho-maria!
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      A textura aerada, no topo, cremosa como um pudim, na base, vai fazer com que queiram levantar-se da rede…Pra voltar, logo em seguida, afinal, é rapidinho!
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      Como sou gulosa, ao ver aquela receita tão enxuta de ingredientes achei que deveria dobrá-la. Assim, fiz. Rendeu tanto, que me faltaram ramequins. Usei xícaras de porcelana. Há males que vêm para bem…
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      Bolo cremoso de tangerina e limão
      Ingredientes
      -2 ovos separados( claras e gemas)
      -100 g de acúcar( uso menos)
      -200 ml de leite( pode ser o desnatado)
      -80 ml de suco de tangerina
      -30 g de farinha de trigo( 2 colheres de sopa, bem cheias)
      -1 colher de sopa de raspas de tangerina
      -1 colher de raspas de limão( usei siciliano, mas pode ser o verde)
      -Pitada de sal

      Modo de fazer
      Pré-aqueça o forno, em 180°C.
      Unte ramequins com manteiga. Polvilhe trigo. Arrume-os, numa assadeira.
      Ferva água para o banho-maria.
      Peneire as gemas numa vasilha, junto com o açúcar. Bata, até ficar um creme branco e aerado. Acrescente o suco, o leite, as raspas, peneire a farinha sobre e misture tudo. Reserve.
      Noutra vasilha bata as claras em neve( com a pitada de sal).
      Despeje sobre elas a mistura anterior, aos poucos, incorporando com um fouet. Muita calma, nessa hora! Todo o cuidado, para que não murchem.
      Distribua a mistura nos ramequins preparados.
      Leve ao forno pré-aquecido. Despeje a água fervente na bandeja, até um pouco menos da metade da lateral dos potinhos.
      Asse por 30-40′, ou até que comece a desprender da lateral da fôrma.
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      Precisar, não precisava mas, lembram “daquela receita“? Tem um creme cítrico aveludado, que é escandalosamente gostoso!
      Como estava preparando a base para as tarteletes, já fiz o recheio. Usei o mesmo suco de tangerina do bolo cremoso; o creme ficou até mais bonito, de uma cor mais viva!
      Se quiserem consistência de calda pra jogar em cima é só acrescentar mais suco, ou creme de leite fresco, mas, para decorar o topo, a versão mais encorpada é melhor.
      Se não quiserem mais trabalho a opção é polvilhar por cima açúcar de confeiteiro, com raspinhas de limão.
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      Então, não vale a pena um pouco de dedicação?

      (p.s. Às vezes passo um tempo sem escrever, aqui, embora não me pareça tanto, já que faço atualizações constantes, no meu perfil do Faceboook, mantendo, assim, contato com o mundo virtual. Oportunidade pra refazer o convite de me encontrarem por lá!)

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        “Você tem fome de quê?”

        Postado por Laély, no dia 18-02-2014 - Categoria: receitas

        “O peixe morre pela boca”.
        “Você é o que come”.
        “Tem o olho maior que a barriga”.
        Clichês, que expressam verdades.
        Tendemos a transformar nossa relação natural com a comida nalgo complicado e patológico.
        Comer é uma necessidade física; também, um ato social e cultural porém, comumente, deturpado: usa-se como moeda de troca, prêmio ou instrumento de tortura, ou autoflagelação.
        Exemplo clássico é o da mãe desesperada, que leva a criança ao médico, porque: “ele não come nada, doutor!” Come chips, biscoito, x-burger, nuggets, bala…mas, insiste a mãe, “não come nada!”
        Não precisa ser criança. Nem mãe manipulada.
        Essa semana terminava meu almoço* num restaurante self-service, quando sentou à mesa ao lado uma senhora, acompanhada pela família( filhas e genros, deduzi). Tinha idade pra ser minha avó e aparência, não muito saudável( coisa que, só olho clínico explica!). O prato que montou pra si chamou minha atenção: um punhado de batata e banana fritas, macarrão e um pedaço de sardinha. Um prato cara pálida! Pra “compensar” pediu suco. No copo esguichou adoçante. Sim: esguichou, uma vez. Mexeu, provou, esguichou outra vez! “Ah, se fosse minha filha!”, pensei.
        Às vezes demora uma vida inteira e, mesmo assim, alguns não ensinam, nem aprendem!
        Alguns aprendem que, tomando aquele “shake” milagroso podem emagrecer a tempo de pegar uma praia, no verão! Verão passa e a comida volta a ser um problema. Não deveria.
        Nem 8, nem 80! Equilíbrio é o ideal.
        “Te fiz comida, velei teu sono
        Fui teu amigo, te levei comigo
        E me diz: pra mim o que é que ficou?”, cantava o Renato Russo, reconhecendo que, cozinhar também é um ato de carinho. Fazer comida saudável e gostosa, uma arte, que nem todos dominam.
        Nigella Lawson é daquelas cozinheiras que amam comer! Tem uma relação voluptuosa com a comida. Imagino os filhinhos dela, reclamando: “Oh, mamãe! Não, não! Não aguentamos mais, toda essa comida deliciosa!” Dá-nos aquela sensação de que é chique comer, até lamber os beiços e os dedos! Eu a perdoo. Eu a admiro. Assim como Jamie Oliver e Rita Lobo, mostra que, cozinhar pode ser simples e prazeroso. Saudável, quando é possível.
        Pensando em pequenas decisões que podem fazer grandes diferenças, há algum tempo evito comprar alimentos industrializados( principalmente: refeições congeladas, biscoitos recheados e embutidos). Descobri ser absolutamente possível viver sem isso.
        Ultimamente, não tem me sobrado muito tempo pra testar novas receitas. Mas bateu uma vontade de comer uns biscoitos caseiros. Lembrei do cookie triplo de chocolate, da Nigella. Abri o “Nigella Express”, na página 211:
        010
        Era perto da hora do almoço. Não teria muito tempo. Pareceu-me fácil. Bingo! E nessa que eu vou!
        A receita pedia um chocolate com recheio de caramelo, o Crunchie, para a cobertura. Pensei numa possível substituição. Comprei Lollo. Testei um pedacinho. Pensei: “que espécie de mãe daria um doce, tão terrivelmente doce quanto este a seu próprio filho?!” Esse chocolate deveria ser proibido pela Anvisa! Deixei a ideia, a do Lollo, de lado. Optei por fazer o caramelo.
        Em questão de minutos a massa estava pronta: meus bolinhos cresceram, cresceram, no forno…depois, desceram, desceram fora dele, até formar uma depressão, no centro, ideal para acomodar uma calda aveludada de chocolate com caramelo( e/ou, uma bola de sorvete, como queiram!) e castanhas.
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        Quer tentar?:

        BOLINHOS EXIBIDOS DE CHOCOLATE
        100g de chocolate amargo com 70% de cacau( usei meio amargo)
        100g de manteiga amolecida
        200g de açúcar
        4 ovos
        50g de farinha de trigo
        1/4 colher (chá) de bicarbonato de sódio
        sal

        Para a cobertura
        150 g de chocolate meio amargo
        1 cs de manteiga
        2 barras de chocolate Crunchie em pedaços**

        **Preparei o caramelo derretendo acúcar, até caramelizar, depois acrescentei creme de leite fresco. Deixei dissolver, mexendo, em fogo baixo. Arrematei, com o chocolate picado e a manteiga.
        Não quer mais trabalho?: Use doce de leite( com, ou sem chocolate meio amargo derretido) como cobertura dos bolinhos.
        Castanhas, ou pistache picados

        Modo de Preparo:
        Picar o chocolate em pedaços e derreter com a manteiga no microondas ou banho-maria. Assim que derreter, ponha a vasilha sobre uma superfície fria, para ajudar a esfriar o chocolate.
        Bater os ovos e o açúcar até que engrossem e formem um creme pálido. Junte gentilmente a farinha, o bicarbonato de sódio e uma pitada de sal.
        Misture o chocolate e então divida a massa entre 8 tigelinhas, ou ramequins.
        Levar ao forno preaquecido, 180ºC, por 25 minutos.

        Deite a cobertura sobre eles e salpique as castanhas.

        Coma com moderação. Lambuze-se e seja feliz, sem!

        *Curioso pra saber o que eu comia, no restaurante?: Um prato de salada crua, com bife.

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          Uma causa pra chamar de minha!

          Postado por Laély, no dia 25-01-2014 - Categoria: textos

          Em 1955, a prioridade nos assentos dos ônibus do Alabama não era para cadeirantes, mulheres grávidas ou idosos…
          rosa parks
          Como fazia rotineiramente depois do trabalho, a costureira Rosa Parks tomou um ônibus, de volta pra casa; devia estar cansada e, como os assentos no fundo já estavam todos ocupados por negros, sentou-se numa das cadeiras reservadas aos brancos, no meio do coletivo.
          Mas algo, naquele 1° de dezembro, sairia da rotina: ignorando a ordem do motorista para que cedesse lugar ao passageiro branco que acabara de entrar, permaneceu no lugar escolhido. Quando ele ameaçou chamar a polícia, a resposta dela foi: “Então, prenda-me!”.
          O protesto silencioso e solitário, a princípio, rendeu a Rose ficha na polícia e multa, mas foi o estopim de um movimento que cresceu e mudou a história de segregação racial, nos Estados Unidos!
          Depois do episódio, milhares de negros resolveram boicotar o sistema de transporte coletivo indo para o trabalho a pé( alguns, cantando, fazendo barulho), o que causou prejuízos financeiros aos empresários locais.
          Martin Luther King foi um dos que apoiou a atitude espontânea de Rosa Parks.
          Alguns anos depois, em 28 de agosto de 1963, ele liderou a “Grande Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade”, que reuniu 250.000 pessoas, vindas de todas as partes do país.
          Ao contrário do que temia o então presidente Kennedy, a megamanifestação transcorreu em clima pacífico e ajudou a aprovar leis de direitos civis dos negros( inclusive, direito a voto), em curso no Congresso.
          “I have a dream…” foi a frase inicial do discurso mais famoso da História, proferido por Luther King nesse dia.
          marcha
          Há exatos 30 anos, em pleno período de ditadura militar no Brasil, 300.000 reuniram-se na Praça da Sé, em São Paulo, liderados por políticos, artistas e intelectuais, a favor da aprovação da “Emenda Dante de Oliveira”.
          O “Movimento Diretas Já” ganhou corpo: um milhão de pessoas, no comício do Rio de Janeiro, 3 meses depois e, novamente em São Paulo, com mais de um milhão.
          A onda provocada pela pressão popular não demoveu os deputados de sua posição conservadora: a emenda não foi aprovada. Mas respingou no governo militar: demonstrando mais “sensibilidade”, propôs saída alternativa permitindo a participação de civis, no pleito indireto que elegeu Tancredo Neves( o triste fim dessa história e o início da era Sarney, todos conhecem…).
          tancredo-diretas-já-praça-da-sé-1984
          Um salto, no tempo e na história:
          Estamos em meados de 2013.
          Como rastilho de pólvora, o desconhecido Movimento Passe Livre consegue cooptar simpatizantes de todos os tipos, credos e bandeiras, numa série de manifestações que tomaram conta do país.
          Ao contrário da mulher, que procura o programa do Ratinho pra fazer teste e provar quem é o pai do filho dela, a manifestação não ficou muito tempo “bastarda”. Logo choveram candidatos a pai, mesmo sem DNA comprovando; muitas ideologias quiseram abraçar a “causa”, mesmo sem saber, ao certo, qual era.
          Do ponto de vista do MPL, o movimento foi um sucesso: além de São Paulo, outros estados cancelaram o aumento das passagens de ônibus.
          Na pluralidade de demandas, o movimento dissipou-se mais rápido que nuvem de chuva, em dia de verão.
          “Exercitamos nossa cidadania”( quem nunca escutou esse chavão?!), mas a pouco, ou nenhum resultado prático  chegamos.
          manifestacaocongresso407
          ( Ops! Esqueci da aprovação-relâmpago do projeto “Mais Médicos”, uma vitória do Governo!)
          Agora, são os “rolezinhos” que ocupam as manchetes e debates na internet, dando trabalho aos “especialistas” de plantão.
          Já quiseram batizar o “rolê” da periferia, nos centros de consumo, como um movimento social de inclusão, ou libertação. MST tirou casquinha. A ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), tentou a sua: “As manifestações são pacíficas. Os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens”. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”.
          Há pouco, novo movimento( financeiro) surgiu, na internet: uma vaquinha, para pagar a multa do mensaleiro Genoino que, recebendo a bagatela de R$23.000 mensais como deputado aposentado, não dispõe de recursos para quitar a dívida “imposta injustamente”.
          Não acreditei que fosse vingar mas, essa semana o ex-deputado publicou no seu Twitter:
          genoino
          Não são os resultados, que comprovam a relevância de uma causa.
          A curtíssimo prazo, a resistência de Rosa Parks só lhe trouxe dor de cabeça. Não imaginou que sua antiação provocasse tantas mudanças, a ponto de, em questão de poucos anos, um negro ocupar, não apenas um lugar no ônibus, mas um assento na Casa Branca.
          Os acontecimentos descritos aqui não são, necessariamente, uma evolução cronológica( uma involução ideológica, talvez…). Foram escolhidos a esmo, apenas para ilustrar uma ideia muito particular, que surgiu na cabeça desta que lhes escreve, mas não entende muito bem o que anda na cabeça dos outros; o que as move.
          Em 45 anos, o mundo mudou muito! Conquistamos espaços, até à Lua!
          Estamos ávidos por novas causas a defender!
          Hoje em dia, parece que elas é que desejam nos abraçar, adotar, como a um cachorrinho carente. Faltam-nos, entretanto, as boas. Restaram-nos, o que, mesmo?: Os 20 centavos, a multa de Genoíno, os rolezinhos?…
          O Ricardo III, de Shakespeare, adaptado aos novos tempos bradaria:
          “Uma causa! Uma causa! Meu reino por uma causa!”
          A pergunta que me faço, é: estamos mais sensíveis, ou ficaremos mais cínicos, diante da escassez delas( ou, do bom senso)?
          Uma música não me sai da cabeça. Dizem que Cartola a compôs para sua enteada, disposta a sair de casa precocemente e, cair na vida. Aconselhou-a, mostrando um mundo nada colorido e a dura realidade que a esperava:
          “…Ouça-me bem, amor
          Preste atenção, o mundo é um moinho
          Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
          Vai reduzir as ilusões a pó…”

          Encerra, com um vaticínio sobre nossos dias(?!):
          “De cada amor tu herdarás só o cinismo…”

          (Nem tudo está perdido. Até “maus agouros” podem ser poéticos):

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            Antes que as luzes se apaguem…

            Postado por Laély, no dia 30-12-2013 - Categoria: textos

            Quer um plano simples, para o novo ano:
            Tire um tempo pra você.
            Pode até não ser um ano sabático. Podem não ser meses, dias, mas devem ser horas, minutos dedicados a fazer algo que fuja à sua rotina e que, realmente goste. Ou, que aprenda a gostar: um sabor a experimentar, um tipo de música que não está acostumado a ouvir, um caminho nunca percorrido, um novo penteado, ou roupa( por que não, lingerie?…), alguém com quem ainda não conversou, talvez, a hora de começar a praticar algum esporte…
            Hoje eu me dei esse tempo, umas horas sabáticas. Com a licença da família viajei pra cumprir um sonho antigo: correr a prova mais tradicional do país. As experiências que vêm, como bônus, depende do quanto a gente se dispõe.
            Acordei, na hora que o corpo achou que devia. Não contei calorias, no café da manhã, aliás, tomei café! Andei, sem rumo e sem contar o tempo, pela avenida mais famosa de São Paulo. Entrei numa grande livraria e, mais olhei, ouvi do que comprei. Comi num lugar, que nem sei o nome, refeição completa, digna de rainha: entrada de salada de folhas verdes salpicada de gergelim e granola salgada, cheeseburguer em bagel integral com linhaça e a sobremesa…Ah, a sobremesa!: Delicioso bolo de maçã que derretia na boca, de tão macio, com calda quente de açúcar mascavo e uma bola de sorvete de canela…Depois assisti a um filme. Nada digestivo mas, encantador!
            Não precisei rodar o mundo. Encontrei tantos prazeres, a poucas quadras de distância um do outro. Foi uma questão de, caminhar e aproveitar as chances.
            Prestenção, em 2014!
            010

            A gente continua por aqui. ( E, no Facebook! Pode me procurar, que lá me encontra!)

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              “O dente mole de todos nós”

              Postado por Laély, no dia 29-11-2013 - Categoria: crônicas,Dicas de blogs

              A gente se apega a tanta coisa que considera importante, indispensável, só por medo de  mudar.
              Silmara Franco* tirou as palavras da minha boca. Fiquei sem, mas às vezes é preciso calar e pensar…

              O dente mole de todos nós

              Nina passou semanas com um dente-de-leite mole. Preso apenas por um fiapo, num cai-não-cai de dar aflição. Mas ela se recusava a deixá-lo ir. Não permitia que ninguém chegasse perto do dente moribundo. Enfrentou situações complicadas. O dente mole a atrapalhava para mastigar, beber, tomar sorvete, falar. Sem abrir mão dele, seu lema parecia ser: “Mais vale um dente velho, mole e conhecido que uma “janelinha” aberta para o (dente) novo e desconhecido.

              Eu, encarnando a mãe-dentista, tentava persuadi-la, “Não vai doer nada”, “Vou bem devagar”. Nem. Ela travava os lábios, fazendo a guarda do dente frouxo.

              Vaidade? Talvez. A Barbie nunca ficou banguela na vida.

              Medo? Sim. De um possível sofrimento, de uma eventual dor. Medo do novo, enfim. Ou nem tanto, posto que não era o primeiro dente a cair. Mas o medo velhaco, às vezes, se traveste de novidade. Só para assustar quem não arrisca. Buuu.

              ***

              Todo mundo tem um “dente mole” na vida. Ou mais de um. Vai dizer que não? Aquele incômodo – físico, mental, material – com o qual se aprendeu, ou se acostumou, a conviver. Aquele, tão de casa. Aquele, que passou da hora de ser resolvido. Aquele, que nem precisava mais estar ali, mas está. Aquele, que simplesmente vai ficando.

              O MBA medíocre e sem sentido. O trabalho tedioso e o chefe massacrante. O namorado ogro e babaca. O apartamento mal iluminado e estreito, onde não cabe nem um sonho. A rede social viciante, sugadora de tempo e energia. A operadora de celular que age de má fé e a loja que atende mal. O excesso de peso e a falta de dinheiro. A dor nas costas, a enxaqueca, a alergia.

              Tem pessoas que, tão logo a coisa fique antiga ou desconfortável, como um simbólico dente que começa a amolecer e implorar pelo caminho natural da renovação, o extraem, sem dó, nem piedade. Livram-se num piscar de olhos, sem dramas, sem delongas, sem chorumela. Xô!

              E tem as que mantêm seus “dentes moles” ad aeternum. Numa espécie de validação do hábito, de apego à rotina, de receio do que vem depois. Ainda que seja um estorvo.

              ***

              Acabou que o dente da Nina se foi. Estavam unidos por um breve fio de pensamento. Ela deixou, enfim, que eu o tocasse. O suficiente para que o pedaço de osso sem vida, ploc!, saísse na minha mão. Ela abriu um olhão deste tamanho, aliviada. Ela, que já tem outras janelinhas, agora exibe um sorriso-varanda.

              ***

              Anda. Arranca você também o seu “dente mole”. Quem sabe a Fada, não a do Dente, mas a da Atitude, passe pela sua casa à noite e deixe um presente sob seu travesseiro.

              ( *Silmara Franco é paulistana, publicitária e escritora, autora do Fio da Meada.)

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                Brunch para Vinícius

                Postado por Laély, no dia 11-11-2013 - Categoria: arranjos,filhos,meu quintal,receitas

                Escrevo este blog há quase 5 anos. Nesse período, muita coisa mudou( outras, nem tanto): a casa, os gatos que passaram por ela, o corpo, a família…
                Pra quem me acompanha há mais tempo, a história já é sabida. Pra quem não, entenderá melhor este post se, antes, ler um outro: “De mãe pra filho“.
                Resumindo: tenho três filhos, quase todos, de barba na cara. Pra quem não acredita, olha os “meninos”, aí:
                DSCN1148
                A verdade incontestável da vida: os filhos crescem. E, se vão…
                Conosco, apenas o mais novo, que acabou de completar 14 anos. O mais velho faz faculdade, na capital, e o do meio resolveu ir pra mais longe, bem longe…O tempo não para: são quase 2 anos…
                Há uma semana ele voltou, para uma visita rápida. E, como não poderia deixar de ser, a gente quer mimá-los, de todas as formas!
                A avó materna não pôde vir ao seu encontro. Mandou, lá de Belém, delícias regionais, que ele tanto gosta.
                No seu último sábado no Brasil saboreou frango com jambu, no tucupi e, de sobremesa, açaí.

                “Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.
                Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo ‘Parece a torta de legumes da mamãe’ ou ‘É igual ao creme de abóbora que ela fazia’?
                No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?”

                Foi o que a Silmara Franco escreveu, no último post.
                Concordo com ela! Trago algumas recordações gustativas e olfativas da infância, como um pão de canela que minha mãe costumava fazer.
                Acredito piamente que, cozinhar é uma forma de acarinhar. Uma das formas. Cada um tem a sua…
                Um bom compositor faz música, eu, embora não me considere tão boa cozinheira, comida. É a minha sonata, para olhos e paladar.

                Então, antes mesmo dele chegar, decidi por uma despedida em volta da mesa, junto com alguns amigos. E foi, assim:
                DSCN1113
                Depois de uma semana de tempo fechado, chuvoso e frio a manhã de domingo estreou, com um belo dia de Sol: perfeito, pra montar a mesa no quintal!
                DSCN1088
                As opções salgadas do cardápio: sanduíche, no pão integral, de atum e pepino*, quiches( tomate seco/cogumelos frescos), cuscuz marroquino, focaccia integral com tapenade de azeitonas, receita do Panelinha.
                *Para o recheio do sanduíche piquei pepino japonês em cubinhos bem pequenos, acrescentei um pouco de sal e deixei escorrer numa peneira. Depois, sequei o excesso de água em papel toalha e acrescentei ao recheio de creme de ricota e atum. Acertei o sal e a pimenta. Os pedacinhos de pepino dão uma textura crocante ao creme.
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                Opções doces: torta de ricota( com geleia de morango e geleia de goiaba), bolo gelado de abacaxi, bolo de mamão e aveia, biscoitinhos de nata.
                As bebidas servidas foram suco e chocolate quente.
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                Flores na mesa, colchas no varal, mix de louças: se você gosta de cores, não há contraindicações!
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                Como ele viajaria à tarde, a ideia do brunch foi a mais viável: um café da manhã mais tarde, com cara de almoço.
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                O importante era deixar todos à vontade.
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                E teve música especial, de despedida…
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                E um breve momento de reflexão, dirigido pelo nosso pastor:
                DSCN1129
                Ficar longe até que não é tão difícil, hoje em dia. Difícil, mesmo, é dizer “auf wiedersehen”!

                “Dê a quem você Ama :
                - Asas para voar…
                - Raízes para voltar…
                - Motivos para ficar… ”
                (Dalai Lama)

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                  “O tempero da minha mãe”

                  Postado por Laély, no dia 06-11-2013 - Categoria: crônicas,filhos

                  Admiro muito a Silmara Franco! A mulher, cronista, escritora, mãe, amante dos animais e amiga virtual( que tive o privilégio de conhecer pessoalmente, um tempo atrás)!
                  Esta crônica, que ela escreveu há pouco, é apenas um preâmbulo para o post seguinte:

                  O tempero da minha mãe
                  Silmara Franco

                  Junte cebola, alho, cheiro verde, óleo e sal. Ponha tudo no liquidificador e bata bem. Despeje a mistura em vidros vazios, tampe e leve à geladeira. Use para refogar qualquer coisa. Em cinco ingredientes, eis a receita das minhas lembranças. Rendimento: uma infância inteira.

                  Dona Angelina preparava o próprio tempero. Para economizar tempo e dinheiro – talvez mais dinheiro que tempo. Lembro do óleo aquecendo na panela, afoito, esperando pelo tempero, que vinha em generosa colherada. Quando eles se encontravam, era uma farra, chiiiiiii. A casa inteira ficava sabendo do abraço dos dois. Logo em seguida, chegavam os grãos de arroz, lavados e escorridos. Noutra panela, outra farra, agora com centenas de feijões recém-cozidos na pressão. Era sempre festa no fogão da minha mãe. Na cozinha, sua oração. E o tempero, artesanal, era sua pegada. O rastro saboroso pontuando o alimento que nos fez crescer, feito planta.

                  Bem que tento. Mas é impossível reproduzir o tempero dela. Por mais que eu siga o modo de fazer (afinal, cebola é cebola, alho é alho), falta um ingrediente etéreo, invisível, secreto. Falta ela.

                  Liquidifiquei minhas recordações no turbilhão impiedoso do tempo. Misturei tudo, Natal com Páscoa, aniversário com Dia das Crianças. Mas o aroma do tempero dela está bem guardado no nariz da minha memória. De vez em quando, ele surge d’algum vento brincalhão. Inspiro o quanto posso, para tentar retê-lo e guardá-lo num vidro bem tampado, à prova de despedidas. Se eu fosse descrever a cor desse cheiro, seria verde.

                  Será que meus filhos terão alguma reminiscência da maneira como tempero nossa comida? A gente nunca sabe o momento, exato ou inexato, em que vai entrar para o rol de lembranças de alguém. Qualquer ação ou atitude podem virar protagonistas; preciso me lembrar disso, para caprichar mais nas coisas.

                  Será que, n’algum momento da vida, eles tentarão recuperar algum sabor de suas infâncias? Experimentarão, quando grandes, algo que não tenha sido feito por mim, fecharão os olhos por alguns segundos e se pegarão dizendo “Parece a torta de legumes da mamãe” ou “É igual ao creme de abóbora que ela fazia”?

                  No fundo, a gente quer é ser lembrada. E o alimento é a memória afetiva mais forte que existe. É o primeiro presente que ganhamos, ao nascer. Onde fica a boca do mundo?

                  Tantas coisas faço igual à minha mãe, e nem sei que faço. É a herança genética e silenciosa, a perpetuar a nossa espécie e algum tipo de amor. Talvez eu dobre roupas como ela, talvez eu lave pratos como ela, talvez eu abotoe um vestido como ela, talvez eu tenha um jeito de mexer nos cabelos como ela. Talvez até meu tempero guarde em seu DNA a centelha materna. Não podemos mais medir nossas semelhanças em tempo real. É uma constatação, não um lamento.

                  Há quatro vidros repletos de tempero na geladeira, fiz no comecinho do mês. Ficou bom. Mas não é igual ao dela. É idêntico a mim. Sou eu, deixando a minha pegada no caminho da minha gente.

                  O texto bem temperado é da Silmara, mas o filho é meu:
                  IMG_20131025_122652
                  Vinícius veio da Alemanha fazer uma prova e passar uns dias conosco. Foi uma semana intensa, que passou mais rápido do que desejaríamos…

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                    “O quase avesso de um elogio à beleza”

                    Postado por Laély, no dia 27-10-2013 - Categoria: crônicas

                    Em tempos de internet e redes sociais alimentando vaidades pessoais, vale a leitura da crônica da Maria Sanz Martins, na revista.AG de hoje:
                    E só pra não nos cobrarmos tanto, gostar de ser “curtido”, “seguido”, “compartilhado” e elogiado vem de berço.
                    Enjoy it!

                    O quase avesso de um elogio à beleza
                    Antes de conversarmos um pouco sobre o elogio, cuidemos mais da beleza

                    MARIA SANZ MARTINS | marysnt@hotmail.com

                     

                    Encantadora, hipnotiza.

                    Sedutora, suborna a atenção.

                    Imperativa, provoca elogios – não necessariamente verbais, claro.

                    Elogios são formas de gentileza, atenção, olhares, ou simples, cooperação. Tudo automático porque a beleza, literalmente, impulsiona.

                    Para além do racional, reagimos quimicamente às substâncias que são instantaneamente produzidas no cérebro diante do sinal de qualquer coisa que nos pareça bela.

                    Sabia que no livro “A lei do mais Belo”, escrito pela cientista norte-americana Nancy Etcoff, existe um dado curioso: “Da infância à idade adulta, as pessoas bonitas são tratadas preferencialmente e vistas positivamente (…). Indivíduos belos têm mais chance de obter clemência no tribunal e conseguir cooperação de estranhos”.

                    Também dia desses uma amiga me contou sobre um estudo feito em colégios de ensino fundamental, onde foram colocadas câmeras dentro das salas de aula, sem o conhecimento dos professores, para observar seus comportamentos com relação aos alunos. O que se pode observar, e que chamou a atenção dos estudiosos, foi a diferença na atenção dispensada aos alunos bonitos. Constatou-se que, de forma inconsciente, os professores davam preferência às crianças mais bonitas. Mas como bem se sabe, não são apenas as crianças que gostam e imploram atenção.

                    É da própria natureza… O pavão quer ser apreciado, a criança quer ser notada, o homem quer ser desejado e a mulher quer ser elogiada.

                    Mas por que esperamos tanto por esse olhar que aplaude?

                    Por causa da lei da ação e reação. Ora, assim como a beleza, um elogio também pode provocar uma reação bioquímica para além do racional. Uma sensação que colore, fazendo acender um sinal de que não estamos sozinhos – e não duvide, o mero fato de sermos “aceitos” é o bastante para nos fazermos sentir aquecidos.

                    É que passada a infância, todos nós conhecemos um pouco da solidão (e deste ponto em diante, lutamos para afastá-la o quanto possível).

                    Saímos de um útero quentinho, para sentir nos lábios a pele nua do seio e sermos banhados por um olhar que tudo premia – seja um sorriso ou um espirro. Somos beijados, abraçados e, mesmo sem saber falar uma única palavra, plenamente compreendidos. Mas com o passar do tempo, o seio é trocado por uma papinha nem-salgada-nem-doce, nem-quente-nem-fria (horrível). Pouco a pouco deixam de nos tocar e fazer carinho com a frequência que faziam. De repente passamos a ter vergonha do nosso corpo e de nossas partes íntimas. Passamos a ser cobrados e a receber castigos.

                    Se olhássemos num gráfico, depois dos primeiros anos de vida os sinais de que nossa mera existência proporciona prazer a outras pessoas, declinam. (É drástico).

                    O entusiasmo que nos é dispensado passa a depender exclusivamente da nossa performance. Se antes, cortar a franja com a tesoura de cozinha era engraçado, agora é preciso cuidar do que dizemos, do que vestimos, do que comemos e de como penteamos os cabelos. Viramos adultos, definitivamente expulsos do paraíso.

                    Por isso, no fundo, no fundo, estamos sempre perseguindo o desejo de sermos amados, beijados, abraçados, aceitos, ou, simplesmente, elogiados.

                    E quanto mais, melhor!

                    (Será mesmo?)

                    É perfeitamente possível dizer que a vaidade é capaz de gerar alguma insanidade. Ora, desde que o mundo é mundo mulheres (lindas) fazem de tudo em nome da beleza. Mas hoje em dia, o gato saiu do saco! Com a opulência de imagens que circulam nas redes sociais e na TV, mulheres e meninas entram em colapso para atingirem o último grito da moda ou da forma física.

                    Imagino que para as mães de adolescentes a coisa deve estar difícil. Como explicar para um filho ou uma filha que, sim, é bom ser apreciado (curtido, seguido, aplaudido, elogiado, sei lá), mas o que realmente importa não é nada disso? E fazê-lo entender que ser bacana é muito, mas muito melhor (e mais interessante, mais surpreendente, mais gostoso e mais sabido) do que ser só bonito.

                    Digo porque, pessoalmente, tenho olhos que checam o físico, mas só aplaudem o espírito.

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